Capítulo 282 — Um Laço Indestrutível
Damien Knight
O documento repousava sobre a madeira escura da minha mesa no escritório da mansão.
Era apenas uma folha de papel timbrado com selo em relevo do Tribunal de Justiça de Nova Jersey, assinada pelo juiz da vara de família e protocolada naquela manhã por Simon. Mas para mim, cada linha datilografada ali carregava o peso de uma prece atendida.
Ellie Anderson Knight.
Passei a ponta dos dedos trêmulos sobre a tinta preta, sentindo um calor inexplicável subir pelo peito e queimar nos meus olhos. Por meses, nós enfrentamos burocracias, assistentes sociais, audiências preliminares e relatórios psicológicos. Simon havia movido mundos para acelerar o trâmite, garantindo que a guarda definitiva e a paternidade civil se consolidassem sem qualquer brecha.
Quatro semanas após o casamento do Ambrose e Fernanda, o martelo finalmente havia sido batido.
Ellie não era mais apenas a irmãzinha da minha noiva que eu acolhi sob o meu teto. Ela era a minha filha. Por escolha, por alma, por juramento sagrado e, agora, por todas as leis dos homens.
Fechei a pasta de couro e caminhei em direção à sala de estar.
O sol suave do final de tarde banhava o piso de madeira clara e as janelas amplas da mansão. Ellie estava sentada no tapete felpudo, vestindo um vestidinho rodado de algodão branco, entretida em pentear os cabelos de uma das suas bonecas.
Emma estava recostada no sofá grande, linda em um vestido solto de malha cinza que abraçava a sua barriga imensa de trinta e seis semanas de gestação. Luca estava sentado no chão aos pés dela, apoiando o queixo nas pernas da mãe enquanto desenhava um castelo de blocos para a irmã.
O som suave dos meus passos fez Luca erguer o rosto. Emma sorriu, aquele sorriso luminoso que iluminava qualquer escuridão, e ajeitou a postura no estofado com cuidado.
— Deu tudo certo, amor?
Não respondi de imediato. Segurei a pasta de couro contra o peito, dei a volta na mesinha de centro e parei a dois passos de onde Ellie brincava.
Dobrei os joelhos com calma e me abaixei no tapete, ficando exatamente na altura dos olhinhos da minha garotinha.
Ellie largou a escovinha de plástico no chão, tombou a cabecinha para o lado com aquela curiosidade pura e me encarou com um sorriso tímido.
— Por que você tá com o olho vermelho, papai Dam?
Um riso frouxo e embargado escapou da minha garganta. Pousei a pasta aberta sobre os meus joelhos e tirei a certidão oficial de dentro.
— Ellie, meu amor… Lembra daquela conversa que o papai teve com você no seu quarto há alguns meses? Quando nós fomos ao tribunal conversar com o juiz simpático de cabelos brancos?
A menina franziu o nariz, pensativa, e assentiu com a cabeça.
— Lembro. Você disse que ia pedir pro homem deixar você ser meu papai de papel também, pra ninguém nunca tentar me levar pra longe da Emma.
— É exatamente sobre isso, minha princesa — engoli o nó grosso que travava a minha garganta e estendi o papel timbrado diante dela. Minha voz saiu rouca, carregada de uma reverência que eu nunca soube que era capaz de expressar. — O juiz assinou. O processo acabou hoje cedo. A partir de hoje, a sua certidão de nascimento tem o nome do papai. E o seu nome mudou um pedacinho. Agora você se chama Ellie Knight.
Ellie piscou devagar. Ela olhou para as letras pretas no papel, passou a mãozinha pequena sobre o selo dourado em relevo e depois ergueu o rostinho para mim.
— Knight igual ao Luca? — ela sussurrou, a vozinha afinando pelo espanto inocente.
— Igualzinho ao Luca. Igualzinho aos seus irmãozinhos que estão na barriga da Emma. — respondi, e a primeira lágrima escorreu quente pela minha bochecha sem qualquer freio. — Significa que você nunca mais vai precisar ter medo de nada nesta vida. Significa que, perante o mundo inteiro, você é a minha filha. E que eu vou te proteger, te amar, te cuidar e te honrar em cada segundo da minha existência.
O queixinho da Ellie tremeu. Os olhinhos dela se encheram de lágrimas grossas que transbordaram e desceram molhando as maçãs do seu rostinho.
Ellie se jogou para a frente com os bracinhos abertos e colidiu contra o meu peito com um soluço desesperado e doce de alívio puro.
— Papai… Meu papai!
Fechei os braços ao redor do corpinho dela com força esmagadora, erguendo-a do chão e enterrando o meu rosto na curva do seu pescoço miúdo. O cheiro de sabonete de bebê e lavanda me atingiu, e o choro que eu vinha contendo por meses desabou.
Eu solucei abraçado à minha filha, sentindo as mãozinhas dela apertarem o tecido da minha camisa com tanta força que tenho certeza que seus dedinhos doíam.
— Minha menina… Minha princesa… — sussurrei contra os cabelos dourados dela, beijando o topo da sua cabeça repetidas vezes. — O papai te ama tanto… Eu te amo com a minha própria alma, Ellie.
Passos apressados e descalços soaram no tapete.
Luca se jogou ao nosso lado, passando os bracinhos curtos ao redor das minhas costas e do ombro da irmã, chorando junto com aquele coração gigante que ele tinha.
— A Ellie é minha irmã de verdade agora, papai! Ela é uma Knight!
Senti uma mão macia e quente pousar sobre a minha nuca.
Emma havia se ajoelhado no tapete ao nosso lado com cuidado. As lágrimas lavavam o rosto pálido da mulher da minha vida, mas o sorriso dela era a coisa mais sublime que eu já havia contemplado.
Ela envolveu nós três em um abraço coletivo, colando a testa na minha enquanto nossas respirações se misturavam.
— Obrigada… — ela sussurrou contra os meus lábios, com a voz embargada de gratidão eterna. — Obrigada por amar a minha irmã desse jeito, Damien… Obrigada por ser o pai que ela merecia ter.
— Ela é a nossa filha, Emma — corrigi com doçura, puxando a mão da minha noiva e beijando as pontas dos seus dedos. — Ela é a nossa bênção. Nós seis somos um só.
Ali no chão daquela sala, cercados pelo calor da nossa família e pelo silêncio da nossa mansão em paz, o círculo se fechava por completo. As perdas do passado, o luto da Clara, a partida dos pais de Emma… toda aquela dor havia sido o solo árido de onde brotou o amor mais forte, inquebrável e indestrutível que este mundo já testemunhou.
— Podemos participar dessa comemoração? — Bree perguntou do arco da sala, com um bolo em suas mãos. Tristan, Fernanda e Ambrose também estavam ali.
— Breezinha eu agora tenho um papai!! — Ellie disse emocionada.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar