Capítulo 264 — O Milagre nas Águas
Esther Rivera
Se alguém me dissesse, há alguns anos, que a minha vida se transformaria nessa colossal e barulhenta congregação de almas intensas, eu teria receitado um antipsicótico de tarja preta.
Como cirurgiã-chefe, eu sempre fui acostumada à frieza métrica do aço, ao controle absoluto dos monitores e ao silêncio cirúrgico. Mas a vida, ou melhor, o homem que me desarmou por inteiro, me ensinou que o caos também sabe ser lar.
Eu adorava esses finais de semana. Ver a casa entupida de gente, as risadas ecoando pelos vãos rústicos e, acima de tudo, ver Carina tão integrada com a molecada, que praticamente se esquecia que tinha mãe.
Minha menininha gatinhava pelo gramado atrás de Eros e Laurinha, me dando um desdém infantil delicioso que só provava o quanto ela se sentia segura.
E, claro, havia Juan.
Minutos antes do mundo virar de ponta-cabeça, estávamos na nossa suíte, completamente alheios ao planeta. Juan Rivera não sabia amar pela metade; ele era bruto, possessivo, feroz e absurdamente devoto.
Nossos lençóis ainda estavam revoltos pelo calor urgente da nossa entrega, aquele tipo de paixão que o tempo só fazia arder mais alto. Ele me puxou contra o peito suado, me beijando a nuca com aquela barba áspera e sussurrando em espanhol no meu ouvido até que o cansaço bom nos puxasse para a inconsciência.
Mas a paz na minha família dura exatamente o tempo de um espirro.
Fui arrancada do sono profundo por uma sucessão de berros histéricos no assoalho de madeira do corredor.
Pulei da cama em um reflexo puramente médico, amarrando a faixa do meu robe enquanto Juan já calçava a calça escura com a agilidade de um predador acordado no meio da noite. Abri a porta com força e dei de cara com o apocalipse.
No meio do corredor, José segurava Athena no colo com os olhos esbugalhados de pânico, enquanto pela camisola dela escorria água até o chão. Sammy vinha aos tropeços segurando toalhas e Atlas praticamente empurrava o cunhado aos berros.
E, como se não bastasse, da porta ao lado, meu irmão saía carregando Mia, que gemia com os dentes praticamente cravados nos ombros dele.
Parei sob o batente, passei a mão pela testa e a frase me escapou da garganta com todo o peso do choque:
— Pelo amor de Deus! Por favor, não me digam que esses dois resolveram nascer exatamente na mesma hora?!
— A BOLSA ESTOUROU, ESTHER! — José berrou de volta, a voz falhando em puro desespero juvenil, o rosto vermelho de suor. — O garoto tá empurrando! Ele tá descendo, caralho!
— A da Mia também rompeu tem dez minutos, a dilatação tá no talo! — Elijah rebateu, com a respiração curta.
— Nós precisamos ir pro hospital! — Atlas disse.
— Vou descer para preparar os carros. — Chris falou.
— Eu vou junto! — Dam e Ozzie se prontificaram, e então voltou um converseiro no corredor enquanto as grávidas gritavam de dor.
— Dios mío! Que porra de maternidade comunitária virou isso aqui? Hijo, respira, moleque. Parece uma galinha degolada. — a voz grave, cortante e imponente de Juan ecoou atrás de mim. Ele parou no corredor com os braços cruzados, sem camisa, os olhos semicerrados em puro deboche apesar da gravidade da cena.
— Papá, a Athena tá parindo, porra! — José rebateu irritado, mas o desespero puro nos olhos.
— Eu tô vendo que ela tá parindo, idiota, não sou cego — Juan rosnou, mas deu dois passos e segurou a nuca do rapaz com firmeza. — Para de tremer. Hombre não treme quando a mulher dele precisa.
O corredor já estava cheio. Emma, Damien, Dominic, Taylor, todos os meus amigos já estavam ali.
Dei dois passos rápidos, fui até a Athena e depois avaliei a respiração curta da Mia. Toquei o abdômen das duas. As contrações vinham em intervalos de menos de dois minutos.
— Não dá tempo de descer a serra até o hospital — declarei com a voz fria e cortante de médica, desativando a Esther parente e assumindo a cirurgiã de trauma. — Nem de helicóptero. Elas estão no estágio expulsivo. Vamos ter que fazer esses partos aqui e agora.
— Aqui?! No meio do mato?! — Atlas gritou, passando as mãos na cabeça, o instinto superprotetor de irmão mais velho assumindo o controle. — A Athena tem insuficiência hepática, porra! Vocês sabem que o fígado dela é sensível, ela tem risco de hemorragia, de coagulopatia! Se ela descompensar…
— Amor, se acalma! — Sammy interveio na hora, puxando o braço do homem com autoridade. — A Esther é a melhor médica deste estado e você gritando feito um histérico só vai apavorar a sua irmã!
— A banheira de hidromassagem! — Violet sugeriu na mesma hora, os olhos atentos. — E a do quarto de hóspedes onde estou tem hidromassagem grande. Parto na água, ajuda a aliviar a dor e diminui a pressão arterial!
— Excelente, Vi— aprovei de pronto, erguendo o olhar. — Instrumentos? Eu não trouxe nada dessa vez. — avisei.
— Eu tenho. — minha amiga disse. — Trouxe minha maleta básica com luvas, bisturi estéril e clamps, eu nunca tiro ela do carro, vou descer correndo lá buscar.
— Eu vou com você. — Gael falou já caminhando com ela em direção às escadas.
— A Savannah é enfermeira de UTI! — Emma lembrou depressa. — Ela tá com as crianças, acho que ela pode ajudar.
— Perfeito, Em. Chama ela por favor.
Tanto Athena quanto Mia gritaram, aumentando a tensão do ambiente. Olhei para o meu irmão.
— Eli, você assume a sua mulher na sua suíte mesmo com a Savannah. Eu e a Violet assumimos a Athena na minha.
Meu irmão assentiu, ele era o melhor obstetra desse país, mas eu vi o medo ali, assumir parto de amigos já não era fácil, mas o da própria esposa… era pior ainda.
— Juan!
Juan deu um passo à frente, com a sobrancelha erguida:
— Manda, minha vida.
— Liga para a central do hospital agora. Manda despacharem duas ambulâncias avançadas de suporte com UTI neonatal e bolsas de sangue de reserva. Diz que a ordem é minha e que se demorarem mais de meia hora eu caço o diretor clínico pelo colarinho!
— Considera feito, cariño — ele piscou, puxando o celular do bolso e já digitando com a calma de quem comanda guerras.
— José, carrega a Athena para a banheira do meu quarto. Agora!
O caos se organizou como uma engrenagem de guerra. Tay, Penny e Jen voaram pelos armários catando lençóis limpos e toalhas. Ju já estava preparando infusões e regulando a temperatura da banheira.
Entrei no banheiro amplo da suíte. A banheira redonda já estava cheia de água limpa e morna. José estava ajoelhado na borda, com a camiseta encharcada, segurando a cabeça de Athena, que já estava imersa até os ombros. Ela arfava, as unhas cravadas no antebraço tatuado do marido.
A calidez da água diminuiu o tremor nas pernas dela, mas o rosto pálido me preocupava. A condição hepática crônica da Athena era uma espada sobre as nossas cabeças; qualquer sangramento excessivo ali dentro seria uma catástrofe sem um banco de sangue ao lado.
— Esther… — Athena sussurrou em lágrimas, os lábios ressecados tremendo. — Tá doendo tanto… Eu não vou aguentar empurrar…
Calcei as luvas estéreis que Violet me entregou e me inclinei sobre a borda da banheira, segurando o queixo dela com firmeza, cravando os meus olhos nos dela.
— Olha pra mim, garota. Você sobreviveu a uma parada, sobreviveu a anos de remédios e aguentou firme até aqui. Você é uma mulher forte, caralho! O Juanito tá pronto pra sair e você vai colocar o seu filho no mundo com a sua força. José, segura os ombros dela e não solta!
José se ajoelhou na beirada da cama trazendo o pacotinho enrolado na manta, as lágrimas lavando o rosto.
— Ele tá aqui, mi amor… O nosso Juanito tá aqui.
Do corredor, uma salva de palmas e gritos eufóricos ecoou da suíte ao lado.
— NASCEU LÁ TAMBÉM! — Taylor berrou do corredor com uma empolgação ensurdecedora. — UM MOLEQUE LINDO DO ELI E DA MIA! NASCERAM OS DOIS, CARALHO!
O som estridente de sirenes cortou a madrugada, anunciando que as duas viaturas avançadas do hospital finalmente cruzavam os portões.
A equipe médica de suporte invadiu a casa dois minutos depois, assumindo os cuidados pós-parto e fazendo a triagem padrão dos dois recém-nascidos para transportá-los em segurança apenas para observação de rotina no hospital central.
Eu fiquei ali, encostada no batente da porta do banheiro, com as luvas sujas caídas na lixeira, os braços molhados e o robe empapado de água e suor.
Minhas pernas simplesmente perderam a sustentação.
A doutora inabalável que enfrentava tumores inoperáveis e traumas de crânio sem piscar os olhos, pareceu sumir. Quem assumiu naquele momento foi a Esther mulher.
Sentei no chão frio, cobri o rosto com as duas mãos trêmulas e desabei em um choro compulsivo.
Um choro que guardava anos de angústia. Por ver aquela garotinha, que um dia quase partiu pelo fígado em colapso, viva e transformando-se em mãe. Por segurar nos meus próprios braços o netinho que a vida colocou no meu caminho através do amor generoso do meu marido pelo José. Por entender que a vida, apesar de toda a dor, sempre vencia.
Passos calmos pararam diante de mim.
Duas mãos calejadas, firmes e quentes tocaram os meus antebraços. Juan estava sentado na minha frente, me puxando para o seu colo ali mesmo no chão, envolvendo-me com seus braços protetores e me aninhando contra o seu peito nu e quente.
Ele beijou as minhas lágrimas, roçando a boca no meu rosto com uma ternura que ele só reservava para mim.
— Você foi maravilhosa, cariño… — a voz dele saiu rouca, mansa, desprovida de qualquer deboche. — A mulher mais brilhante, corajosa e perfeita que esse mundo já viu. Ver você trazer aquele menino à vida… Dios mío, isso só me faz te amar ainda mais.
Afundei o rosto na curva do pescoço dele, aspirando aquele cheiro amadeirado que sempre me trazia para casa, e deixei um sorriso molhado de lágrimas se formar nos meus lábios.
Olhei para a cama, onde a equipe preparava a remoção. José segurava a mão da Athena enquanto o pequeno Juanito dormia serenamente em seu peito.
Senti uma paz avassaladora inundar a minha alma. Estávamos completos.
E a nossa história continuava a pulsar, mais viva e barulhenta do que nunca.
— Obrigada, Juan…
Murmurei, e ele se afastou só o suficiente para me encarar.
— Pelo que minha vida? — perguntou confuso.
Olhei novamente para Athena, José e Juanito. Meu marido acompanhou meu olhar, e então eu respondi.
— Por completar a minha família.

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