Capítulo 266 — Certezas Absolutas
Tristan Blackwood
Pertencer a esse grupo barulhento, a essa família por escolha que nós construímos, me ensinou que as coisas mais preciosas da vida acontecem justamente quando todo o controle rui.
A madrugada tinha sido um turbilhão, em menos de duas horas, assistimos a dois partos simultâneos, presenciamos a frieza cirúrgica da Esther e vimos o desespero cru nos olhos do Elijah se transformar no milagre mais bonito da vida dele.
Assim que as ambulâncias de resgate desceram a serra com as mães e os recém-nascidos acomodados em segurança para a triagem hospitalar, o chalé em Hudson Valley mergulhou em um silêncio pesado e anestesiado.
Voltamos para a nossa suíte pouco antes das quatro da manhã. O quarto amplo era um refúgio convidativo, mas no minuto em que fechei a porta e Aubrey caminhou em silêncio em direção à cama, percebi o peso invisível que ela carregava nos ombros.
Tirei minha camiseta, a joguei sobre a poltrona e me deitei ao lado dela sob o edredom. Puxei o corpo pequeno da minha namorada para o meu peito, acariciando os cabelos negros e macios com a ponta dos dedos.
Ela estava tensa, o olhar verde fixo em algum ponto do quarto escuro, a respiração contida demais.
— O que foi, Bree? — perguntei baixo, a voz rouca pelo cansaço, quebrando o silêncio.
Ela piscou devagar, forçando um sorriso miúdo que não alcançou os olhos.
— Nada, amor… Só o choque dessa madrugada louca.
Passei a mão pela bochecha suave dela, segurando o seu queixo com carinho e virando o rosto dela de frente para o meu.
— Não mente para mim, querida. Eu conheço você melhor do que qualquer pessoa neste mundo. Você quase não abriu a boca desde que o Mathias e o Juanito choraram pela primeira vez. O que está passando nessa cabecinha?
Aubrey sustentou o meu olhar por dois segundos antes que uma lágrima silenciosa escapasse e escorresse pela lateral do nariz dela. Ela soltou um suspiro trêmulo, afundando a testa na curva do meu pescoço.
— É idiota, eu sei que é… Eu estou tão feliz pela Mia e pela Athena, o meu peito quase explodiu de alívio quando ouvi o choro deles. Mas… ver aqueles bebês nascendo, Tristan… ver a Fernanda descobrindo a gravidez de manhã, a Emma carregando os gêmeos… Essa coisa de maternidade ainda mexe muito comigo, me faz lembrar do nosso bebê, e… da dor em perdê-lo.
O meu peito se apertou com aquela dor compartilhada. A perda que enfrentamos ainda deixava cicatrizes silenciosas.
Passei os braços ao redor da cintura dela, puxando-a para colar o seu corpo inteiro contra o meu, fazendo-a sentir a firmeza inabalável dos meus batimentos cardíacos.
— Não tem nada de idiota nisso, meu amor. Absolutamente nada. Foi uma dor imensa e você tem todo o direito de sentir o baque quando vê a vida acontecendo ao redor.
Acariciei as costas dela por baixo da camisola, sentindo o calor da sua pele sob as minhas palmas.
— O Elijah foi muito claro na última consulta, Bree. O seu útero está cicatrizando com perfeição e o quadro hormonal está quase estabilizado. Ele pediu mais dois meses apenas por excesso de zelo. Assim que esse prazo terminar… se você estiver disposta e com o coração em paz, nós vamos tentar de novo.
Aubrey ergueu o rosto devagar, os olhos verdes brilhando através das lágrimas, buscando no fundo das minhas íris a certeza que ela precisava.
— Você… você ainda quer isso, Tristan? Comigo?
Soltei uma risada rouca, desarmado pela inocência dolorosa daquela pergunta. Inclinei o rosto e selei os meus lábios na testa dela, depois nas pálpebras molhadas e finalmente na boca macia que me pertencia.
— Eu quero isso mais do que qualquer coisa na minha existência, Aubrey. Quero construir a nossa família, quero ver você com a barriga redonda e quero envelhecer ao seu lado. Mas só quando você estiver pronta. Eu espero o tempo que for preciso.
— Eu quero… — ela murmurou contra os meus lábios, as mãos pequenas segurando a minha nuca com uma urgência febril. — Eu quero muito, Tristan. Agora, depois, sempre.
O beijo que se seguiu não carregava mais a sombra do luto; era pura entrega, cura e uma fome avassaladora de vida.
Aubrey subiu o tronco sobre o meu, os cabelos caindo como uma cortina ao redor dos nossos rostos enquanto a boca dela se aprofundava na minha com uma paixão feroz. Deslizei as mãos pela cintura dela, desfazendo o laço da camisola e sentindo as curvas macias e quentes da mulher que eu venerava.
Cada toque meu sobre a pele dela era uma reafirmação de posse e carinho, ditando um ritmo lento, denso e hipnotizante. Quando os nossos corpos se fundiram sob as cobertas, não havia espaço para o medo; havia apenas a eletricidade pura de duas metades que se completavam à perfeição, arrancando suspiros roucos e juras silenciosas até que o ápice nos atingisse em uma onda doce de exaustão compartilhada.
Quando a calmaria voltou a reinar na suíte, Aubrey adormeceu aninhada sobre o meu peito, com a respiração calma e um traço suave de paz desenhado nos lábios entreabertos.
Fiquei longos minutos apenas velando o sono dela sob a penumbra do quarto. Olhando para a mulher que transformou a minha vida fria em um oceano de cores, senti uma certeza antiga se cristalizar no fundo da minha alma: eu não passaria mais nenhum um dia sem colocá-la no lugar que sempre foi dela por direito.
Fechei os olhos e me deixei levar pelo descanso.
Acordamos por volta das dez da manhã. A luz do sol entrava abundante pelas amplas janelas de vidro, iluminando o quarto com a promessa de um dia límpido. Dividimos um momento íntimo e preguiçoso de carícias sob o edredom antes de tomarmos um banho quente juntos.
Aubrey parecia renovada, com aquele viço radiante e saudável de volta às maçãs do rosto. Vestimos roupas casuais e descemos de mãos dadas para o térreo.
A cozinha ampla e a sala de jantar do chalé eram um verdadeiro formigueiro humano. A mesa longa de madeira rústica estava forrada de pães artesanais, tortas, queijos, jarras de suco e garrafas térmicas de café fumegante.
As crianças corriam pelo tablado com pedaços de bolo nas mãos, e o assunto, como não poderia deixar de ser, girava em torno dos novos herdeiros da família.
— O Juanito é a cara cuspida e escarrada do José! — Penny comentava animada, servindo uma fatia de torta para o Chris. — Aquele queixinho empinado e marrento que só o hermanito tem.
— E o Mathias puxou os olhos claros do Eli — Katlyn completou, sentada ao lado de Bruno, que ajeitava a tipoia com uma das mãos enquanto bebia suco com a outra. — Aquele bebê é uma pintura de tão perfeito.
— Toma cuidado, Bree. Fica perto da Taylor e da escolta o tempo todo. Aquele monstro da Verônica ainda está solto e você sabe que qualquer um de nós é um alvo em potencial para desestabilizar o Damien.
— Eu vou tomar todo o cuidado do mundo, meu amor — ela garantiu com firmeza, ficando na ponta dos pés e selando os lábios nos meus em um beijo calmo e carregado de carinho. — Eu te amo.
— Te amo — respondi contra a boca dela.
As meninas saíram pela porta principal em um comboio de carros blindados. O chalé pareceu de repente muito mais calmo, ocupado apenas pelo burburinho das crianças e pelo barulho dos cachorros correndo no gramado.
Fui até a ampla varanda externa e me apoiei no parapeito de madeira. O ar batia fresco no meu rosto, carregando o aroma puro de pinho e terra molhada.
Lá embaixo, no jardim extenso cercado por carvalhos, o cenário parecia uma pintura: Noah estava sentado em um banco rústico com a Laurinha no colo, apontando para os pássaros que pousavam na cerca viva; um pouco mais adiante, Declan corria atrás da Layla, que dava gargalhadas histéricas enquanto tentava alcançar um dos labradores.
Perto da mureta, Damien e Ambrose observavam a pequena Ellie, que colocava o Luca e os outros moleques em fileira indiana, ditando regras com aquele queixo empinado e uma autoridade infantil implacável que fazia os dois homens gargalharem.
Observei cada detalhe daquela cena familiar.
A conversa da madrugada com a Aubrey voltou com força à minha cabeça. O desejo dela de tentar de novo, a coragem de superar o luto e a entrega genuína nos meus braços. Eu não queria apenas um filho no futuro. Eu queria a totalidade daquela mulher.
Queria o companheirismo absoluto, o pacto sagrado, a cumplicidade celebrada diante de todos que nós amávamos. Eu não tinha mais nenhum motivo para adiar o inevitável.
Virei o corpo devagar em direção aos dois homens ao meu lado.
Damien ainda ria das broncas da Ellie e Ambrose balançava a cabeça com um sorriso de futuro pai nos lábios.
Respirei fundo, endireitei a coluna e quebrei a quietude com a voz mais clara, firme e decidida que já saiu da minha garganta.
— Eu vou me casar.
O silêncio desabou sobre o deck no mesmo segundo. O riso morreu no rosto de Ambrose e Damien franziu a testa, os dois me encarando como se eu tivesse acabado de pousar uma nave espacial no gramado.
— O que você disse, Tristan? — Damien perguntou devagar, semicerrando os olhos azuis em pura confusão.
Um sorriso de canto, prepotente e absolutamente seguro, curvou os meus lábios antes de responder com a calma de quem já havia traçado cada linha do plano:
— Exatamente o que vocês ouviram, cavalheiros. Eu vou me casar. Amanhã. E vocês dois vão me ajudar a fazer essa porra acontecer.

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