Capítulo 291 — A Graça do Reencontro (Pt II)
Aubrey Blackwood
Ele parou a três passos da cama, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo em um gesto de humildade crua. Ele olhava para mim com um cuidado quase reverente, com a voz embargada e trêmula.
— Como você está se sentindo, querida?
Pisquei devagar, assimilando o choque da revelação.
— Bem… Estou bem. Muito obrigada por ter me salvado hoje à tarde. Se não fosse pelo senhor…
Ele engoliu a seco, assentindo com um aceno curto de cabeça e dando mais um passo hesitante na direção da cama.
— A Leah me contou sobre o seu acidente há meses… Sobre a perda da sua memória. Foi por isso… que você não me reconheceu lá embaixo.
Assenti com a cabeça em silêncio.
Ele abaixou os olhos por um breve momento, lutando contra as próprias lágrimas, antes de voltar a me encarar com uma dor palpável no olhar.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu com você, Aubrey. Na verdade… eu sinto muito por absolutamente tudo.
Engoli em seco.
E, de repente, como o clarão de um raio no meio da noite escura, uma imagem antiga e esquecida piscou com força na minha mente.
Eu era pequena, com não mais do que cinco ou seis anos, encolhida no canto de uma sala fria. O homem que estava diante de mim naquela lembrança era o mesmo homem à minha frente, apenas décadas mais jovem. Mas na memória resgatada, ele não tinha aquele olhar doce, quebrado e suplicante. Ele me olhava de cima a baixo com um desprezo gélido, virando as costas e batendo a porta sem se importar com o meu choro infantil.
A frieza daquela lembrança doeu como uma facada fantasma. As lágrimas começaram a escorrer pelas minhas bochechas sem que eu tivesse qualquer controle sobre elas.
— Amor… — Tristan deu um passo à frente no mesmo instante, colocando-se protetoramente ao lado do colchão. Ele encarou o homem com a mandíbula travada e depois se virou para mim. — Se você quiser, o Anthony pode vir outro dia. Você não têm nenhuma obrigação de conversar sobre isso agora.
Balancei a cabeça devagar, secando a face molhada com o dorso da mão livre.
— Não, Stan… Tá tudo bem, meu amor. De verdade.
Olhei para a minha tia e depois para o meu marido.
— Vocês podem nos dar licença por um minuto, por favor?
Leah assentiu de imediato com compreensão. Tristan relutou por três segundos inteiros, com os olhos verdes faiscando em desconfiança, mas ao ver a súplica calma no meu olhar, ele inclinou o corpo, beijou a minha testa e a do nosso filho e sussurrou contra o meu ouvido.
— Eu tô bem aqui do lado de fora da porta. Qualquer coisa, é só chamar.
Os dois saíram em silêncio, fechando a porta de madeira e deixando apenas eu, o meu bebê e aquele homem na suíte.
O silêncio reinou por alguns segundos, quebrado apenas pela respiração serena de Tobias.
Respirei fundo, sustentando o olhar verde idêntico ao meu.
— Por que você nunca gostou de mim?
A pergunta saiu limpa, direta, despida de qualquer ódio. Era apenas a dor genuína de uma criança que nunca entendeu o próprio abandono.
— Eu entendo que você não amava a minha mãe — continuei com a voz embargada. — Entendo perfeitamente que ninguém é obrigado a viver uma vida inteira ao lado de quem não ama. Mas que culpa eu tinha por tudo isso? Eu era só uma menininha… Que mal eu fiz para você me odiar daquele jeito?
Anthony fechou os olhos com força. O peito dele subiu e desceu em um espasmo de pura vergonha e remorso. Duas lágrimas grossas romperam o dique dos seus olhos e desceram lavando as rugas do seu rosto.
— Você não teve culpa de absolutamente nada, Aubrey. Nenhuma. A culpa foi toda minha. Do meu egoísmo imaturo, da minha covardia nojenta de olhar para você e enxergar os erros de um casamento fracassado que eu queria esquecer a qualquer custo. Eu fui um monstro cego. Eu não fui homem, não fui pai, não fui nada.
Ele deu mais um passo, caindo de joelhos ao lado da minha cama, mantendo as mãos apoiadas sobre o acolchoado com um desespero comovente.
— Quando eu finalmente amadureci e percebi a monstruosidade do que eu havia feito… já era tarde demais. Você já havia crescido, já havia seguido a sua vida longe de mim, e eu não tinha o direito de aparecer exigindo o seu perdão. Eu vivi anos carregando esse veneno na alma. Mas hoje… quando eu estava naquele shopping por puro acaso e vi você caminhando de longe… eu te segui, queria falar com você. E quando eu vi aquele carro perder o controle…
A voz dele quebrou por completo em um soluço rascante.


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