Capítulo 279 — Nova Vida
Fernanda Garcia
Noventa dias. Três meses haviam se passado desde a tarde cinzenta em que a sombra da Verônica despencou para sempre nas águas do East River, levando embora o pavor e as correntes invisíveis que sufocavam a nossa família.
A paz, quando finalmente chegou, parecia uma brisa morna de primavera limpando anos de poeira e medo.
Pousei a mão espalmada sobre a curva suave do meu ventre, sentindo o tecido delicado do vestido de noiva se moldar à forma redonda que agora se destacava com orgulho. Aos quatro meses de gestação, o nosso bebê já não era apenas uma ideia ou um teste positivo; era uma presença sagrada, viva e constante que me fazia sorrir boba a cada vez que eu me olhava no espelho.
O quarto principal do chalé de Noah e Juliet em Hudson Valley cheirava a lavanda, orquídeas e madeira fresca. O sol suave da tarde entrava pelas janelas amplas, iluminando a bagunça adorável de vestidos, sapatos e taças de água de coco espalhadas pelas cômodas.
— Se você continuar passando a mão nessa barriga desse jeito, vai desgastar a renda francesa, minha linda. — Taylor brincou, encostada no batente do closet enquanto terminava de prender o brinco de esmeralda. Ela usava um vestido longo terracota que combinava com a pele dourada. — Mas tenho que admitir: você está um espetáculo. Ambrosão vai desmaiar no altar e o Damien vai ter que fazer respiração boca a boca no amigo.
Soltei uma risada frouxa, sentindo as bochechas esquentarem.
— Vira essa boca pra lá, Tay! — Emma protestou da poltrona, rindo enquanto ajeitava as almofadas atrás das costas.
Emma estava radiante em um vestido verde-oliva fluido, acomodando com cuidado a barriga proeminente dos gêmeos, que agora já pesava nos seus passos. O repouso e os cuidados rigorosos do Elijah haviam surtido efeito: o coraçãozinho do bebê B continuava estável e os exames semanais eram só motivos de comemoração.
Ver a minha amiga ali, segura, corada e inteira, fazia qualquer resquício de angústia desaparecer do meu peito. Aubrey se aproximou por trás de mim, ajustando o véu sutil de tule de seda que caía sobre os meus cabelos semi presos em ondas.
— Você está deslumbrante, Fer. De verdade. O Ozzie sempre foi um homem de sorte, mas hoje ele vai entender o verdadeiro significado da palavra milagre.
Sorri através do espelho, engolindo a emoção que insistia em apertar a minha garganta.
Pouco a pouco, as meninas foram descendo para ajudar a organizar os convidados e as crianças no jardim. Taylor desceu bufando de mentira porque Dominic já estava chamando, Emma saiu de braços dados com Aubrey para descer os degraus devagar, e o quarto finalmente mergulhou em um silêncio calmo.
Fiquei sozinha diante da janela que dava para a lateral do jardim dos fundos.
Afastei a cortina de linho com a ponta dos dedos trêmulos, observando a movimentação lá embaixo. O gramado verde aparado, as cadeiras rústicas de madeira dispostas sob as copas das árvores centenárias, os fios de luzes amareladas já acesos para o crepúsculo que se aproximava… O cenário era um sonho perfeito.
Mas os meus olhos vagaram, involuntariamente, até a primeira fileira do lado esquerdo do corredor.
Havia uma cadeira de encosto trabalhado, decorada com um pequeno ramo de lírios brancos, com uma plaquinha delicada de caligrafia dourada reservando o assento.
Estava vazia.
O ar pareceu faltar nos meus pulmões por um segundo. Aquele aperto antigo, frio e pontiagudo que me acompanhou por quase toda a infância e juventude subiu pela minha espinha.
Eu havia enviado o convite. Havia escrito uma carta curta, sem cobranças, sem mágoas antigas, apenas dizendo que eu me casaria com o homem que salvou a minha vida e que ela teria o primeiro neto nos braços em poucos meses.
Eu alimentei a esperança ingênua de que a chegada de uma nova geração pudesse derreter o gelo da mulher que me colocou no mundo. Que ela finalmente pudesse ter mudado. Que deixaria tudo de lado e me levaria até o altar.
Mas ela não veio. A indiferença da minha mãe aos meus sentimentos continuava sendo a sua resposta mais cruel.
Engoli o gosto amargo do abandono, pestanejei com força para impedir que as lágrimas estragassem a maquiagem e apertei o caule do buquê de flores silvestres entre os dedos enluvados.
Eu sou forte, repeti para mim mesma em um sussurro inaudível. Eu não estou sozinha. Eu tenho o Ambrose. Eu tenho o meu filho. Eu tenho minha família escolhida.
Respirei fundo, ajeitei a postura e comecei a descer a escadaria.
O som suave do quarteto de cordas já ecoava pelo térreo, anunciando que a cerimônia estava prestes a começar. Parei no hall de entrada, diante das portas de vidro francesas que davam para o início do caminho de juta estendido sobre o gramado.
Eu ia entrar sozinha. Sempre fui uma mulher que aprendeu a andar com as próprias pernas, a lutar as próprias batalhas e a não depender de ninguém para dar o próximo passo. Mas, naquele segundo específico, enquanto a música tocava e o mundo lá fora esperava pela noiva, o peso de caminhar sem ninguém ao lado doeu como uma bofetada silenciosa.
Fechei os olhos por dois segundos, preparando o coração.
— Fer?
A voz doce e suave chamou pelo meu nome logo atrás de mim.
Virei o corpo devagar.
Katlyn estava parada a dois passos de distância. Ela usava um vestido longo em tom lilás suave que contrastava lindamente com seus olhos claros e cabelos delicados. Bruno já devia estar posicionado na fileira dos padrinhos, mas ela havia ficado para trás.
Katy olhou para o meu rosto, e bastou uma fração de segundo para que ela compreendesse cada gota do que se passava dentro de mim. Nós éramos parecidas demais nisso: duas mulheres que sabiam exatamente o que era a dor de não ter um porto seguro no próprio sangue, duas almas que foram quebradas antes de encontrarem abrigo naquela irmandade.
Ela deu dois passos lentos até parar diante de mim. Com uma ternura infinita, Katy levou a mão ao meu braço, acariciando o tecido da minha manga com os dedos quentes.
— Eu vi a cadeira vazia lá fora, meu amor. — a voz dela saiu baixa, mas carregada de uma firmeza que me desarmou por completo.
Abaixei os olhos, sentindo o queixo tremer.
— Eu achei que… por um milagre… ela pudesse querer me ver entrar. Bobagem minha, né?
— Não é bobagem querer ser amada por quem deveria nos proteger, Fer. — Katlyn respondeu com os olhos marejados, mas com um sorriso acolhedor e luminoso nos lábios. Ela deu um passo para o meu lado esquerdo, alinhando o ombro ao meu, e curvou o braço em um convite mudo. — Mas você nunca mais vai andar sozinha neste mundo. Se você quiser… e se você me der essa honra… você aceita a minha companhia para caminhar até o homem que te ama mais do que a própria vida?
O choque paralisou o meu peito por um instante, seguido por uma onda avassaladora de gratidão que fez as minhas defesas ruírem como pó.
As lágrimas escaparam dos meus olhos e desceram quentes pelas minhas bochechas, lavando cada resquício de mágoa, cada sombra de rejeição que minha mãe havia deixado para trás.
Olhei para aquela mulher que o destino havia colocado no meu caminho, alguém que começou como uma presença tímida e machucada e que havia se tornado uma fortaleza de lealdade e afeto. A família que o sangue me negou, Deus havia me entregado em forma de amigas.
Enganchei o meu braço no de Katlyn com força, apertando os dedos contra o tecido macio do seu vestido.
— Com você… eu vou até o fim do mundo, Katy. Muito obrigada… de verdade.
Ela me deu uma piscadela cúmplice, limpando uma lágrima fugitiva com a ponta dos dedos livres.
— Agora ergue esse queixo de leoa, dona Fernanda Garcia. O seu homem está quase tendo um treco lá no altar esperando por você.
As portas de vidro francesas foram abertas pelos cerimonialistas.
O quarteto de cordas subiu o tom, dedilhando as notas vibrantes e emocionantes de uma melodia instrumental doce e profunda.

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