Capítulo 278 — Onde o Ódio Perdeu o Nome
Damien Knight
Eu fiquei parado na soleira daquela porta por minutos intermináveis, sem ousar respirar mais alto do que o farfalhar do vento nas cortinas.
Ouvir a voz suave e quebradiça da Emma conversando com o porta-retrato, assisti-la honrar os pais e, com uma pureza que beirava o sagrado, pedir a bênção da Clara para continuar nos amando… foi como se alguém estivesse desarmando, peça por peça, qualquer resquício de dor que ainda existia cravado no meu peito.
Quando os olhos azuis dela encontraram os meus em um sobressalto doce, minhas pernas se moveram por puro instinto.
Caminhei descalço pelo carpete macio, me sentei na beirada daquele colchão e segurei o rosto pálido da mulher da minha vida entre as palmas quentes das minhas mãos. O contato da pele macia da Emma contra os meus dedos enviou um choque elétrico que fez o meu coração bater na garganta.
— E nunca vai existir nesse mundo mulher que mereça mais o meu amor… do que você — repeti em um sussurro rouco, colando a minha testa na dela.
Emma soltou um soluço fraco, as lágrimas mornas voltando a molhar as minhas palmas enquanto ela fechava os olhos para sentir o meu toque.
— Damien… — ela murmurou, a voz falhando em meio ao alívio.
— Quando eu vi aquele carro batido na garagem do shopping… quando o Gael disse que eles tinham levado você… — engoli a seco, sentindo a garganta em carne viva pela lembrança do pavor cego que quase me arrancou a sanidade. — O chão desapareceu sob os meus pés, Emma. Eu já vivi o luto, eu já senti a dor de ver a morte levar alguém que eu amava… Mas o que eu senti hoje ao pensar na possibilidade de perder você e os nossos filhos… aquilo foi o inferno na terra. Eu morri e renasci cem vezes naquela estrada até a ponte. Se alguma coisa acontecesse com você, não sobraria nada de mim para contar a história. Absolutamente nada.
— Eu sabia que você viria. — ela sussurrou, abrindo os olhos límpidos, brilhando com uma devoção que desarmava qualquer tempestade. — Em nenhum segundo dentro daquele furgão escuro eu duvidei de você, meu amor. Eu só colocava a mão na barriga e pedia a Deus para manter o coração do bebê batendo… porque eu sabia que você viria nos salvar.
Não aguentei a distância de meio palmo entre nós. Inclinei o rosto e tomei os lábios dela em um beijo profundo, lento, molhado de lágrimas e carregado de uma adoração infinita. Minhas mãos deslizaram para a nuca da Emma, segurando-a com delicadeza reverente, sentindo o calor e a respiração doce dela preencherem a minha boca.
Cada beijo era uma promessa de vida; cada suspiro era a confirmação de que o pior havia ficado para trás. Separei nossas bocas devagar, encostando o queixo em seu ombro enquanto ela acariciava meus cabelos com as pontas dos dedos finos.
Fiquei alguns segundos ali, ouvindo a respiração suave dela se estabilizar, até que uma certeza avassaladora e urgente tomou conta de cada célula do meu corpo.
Me afastei delicadamente, deixando um beijo rápido na ponta do nariz arrebitado da Emma.
— Espera aqui um segundo — pedi em voz baixa.
Ela franziu a testa delicada em uma dúvida curiosa, mas assentiu, ajeitando o edredom sobre as pernas.
Levantei da cama e caminhei em direção ao closet. No fundo da gaveta trancada da cômoda, passei a mão por trás de alguns documentos até que as pontas dos meus dedos tocaram a superfície aveludada e quadrada da caixinha preta.
Apertei a caixa entre os dedos.
Eu havia mandado confeccionar aquela joia há semanas. Na minha cabeça metódica de homem de negócios, eu vinha planejando o cenário perfeito: uma viagem para a Itália assim que o terceiro trimestre passasse sem sustos, um jantar à luz de velas em um terraço debruçado sobre a costa de Positano, um mar de orquídeas e músicos dedilhando melodias clássicas.
Mas ao olhar para a porta aberta do quarto e ver a mulher que salvou a minha alma usando uma camisola de algodão simples, descalça, com os cabelos bagunçados e o ventre abrigando o milagre dos nossos gêmeos… eu entendi tudo.
Não existia dia ideal. Não existia lugar perfeito no mundo. O único momento que importava era o agora. A única urgência da minha existência era garantir que ela soubesse, sem sombra de dúvidas, que eu pertencia a ela por todos os dias que me restassem nesta terra.
Coloquei a caixinha no bolso da calça de linho e voltei para a penumbra aconchegante da suíte.
Emma me observava com aqueles olhos azuis atentos, acompanhando cada movimento meu.
Em vez de me sentar de volta na cama, parei ao lado do colchão. Dobrei os joelhos com calma e me ajoelhei no chão macio, ficando exatamente na altura do olhar dela.
O queixo da Emma tremeu no mesmo instante. Os olhos dela se arregalaram em uma surpresa úmida e deslumbrante.

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