Capítulo 274 — A Fúria de um Pai
Damien Knight
O velocímetro marcava mais de cento e quarenta na descida da avenida. Minhas duas mãos esmagavam o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, sem sangue.
Ao meu lado no banco do carona, Tristan mantinha o celular colado ao ouvido, a mandíbula tão travada que o músculo saltava ritmicamente no rosto pálido. Atrás, Ambrose se inclinava para a frente entre os nossos bancos, com a respiração curta, os olhos fixos na pista e o olhar carregado de um desespero mudo.
Nenhum de nós três era homem de armas. Não éramos policiais, não éramos agentes federais, não éramos do submundo. Éramos empresários, homens de negócios que construíram um império no asfalto limpo de Manhattan.
Mas naquele segundo, com o eco da voz trêmula de Emma preso na minha cabeça:
“Damien, por favor, toma cuidado…”
Qualquer civilidade que existia em mim ruiu por completo. O dinheiro, os contratos, os prédios… nada daquilo valia uma fração de poeira se a minha família fosse destruída.
Entrei na rampa de acesso do estacionamento do shopping cortando a curva de forma brutal. Os pneus cantaram no concreto do subsolo dois, exatamente no mesmo instante em que o SUV preto com um dos seguranças do Gayer estacionava.
Freei de forma brusca, puxei o freio de mão e saltei para fora com o motor ainda roncando.
O cenário era de pura destruição.
O SUV onde Emma e as crianças estavam tinha a frente completamente prensada contra uma coluna de concreto. Uma nuvem esbranquiçada de pó químico dos airbags ainda pairava no ar denso, e o cheiro enjoativo de líquido de radiador queimado tomava conta de tudo. A fita de pregos perfurantes jazia estendida no chão, estraçalhada.
Thomas, o motorista, estava caído de joelhos ao lado da lataria amassada, com a mão na cabeça ensanguentada. Mais à frente, Gael tentava se levantar com os olhos vidrados, respirando com dificuldade, arrancando do peito a fiação de um dardo de choque.
E, ajoelhados ao lado da porta traseira aberta… estavam os meus filhos.
Ellie chorava de soluçar, com as mãozinhas no rosto, as pernas pequenas tremendo sem parar. Luca a abraçava de lado, pálido feito cera, com o corpinho miúdo sacudindo em pânico absoluto.
Mas a cabine traseira do carro estava deserta.
O mundo girou. Uma onda gelada e sufocante subiu pelo meu estômago e explodiu na minha garganta.
— CADÊ ELA?! — o rugido rasgou as minhas cordas vocais, animalesco, ecoando por cada canto de concreto daquela garagem. — CADÊ A EMMA, GAEL?!
Gael ergueu o rosto lívido, com a voz quebrando pela fraqueza física e pela culpa devastadora
— Damien… Foi uma emboscada perfeita na curva… Eles usaram taser militar, furaram os pneus… Eram quatro… Verônica e Dylan estavam no comando…
— NÃO! NÃO, NÃO! — avancei três passos cambaleantes, as mãos na cabeça, o peito subindo e descendo em espasmos. Minha mente entrou em colapso. Chutei a lateral amassada do carro com toda a fúria que existia em mim, descarregando o terror nas ferragens. — COMO VOCÊS DEIXARAM ELES LEVAREM A EMMA?! ELA TÁ GRÁVIDA, PORRA! O CORAÇÃO DO BEBÊ… O ELI DISSE QUE ELA NÃO PODE PASSAR POR NENHUM SUSTO!
— Damien, calma! — a voz firme do meu primo cortou meu desespero.
Duas viaturas descaracterizadas encostaram derrapando logo atrás de nós. Dominic saltou do carro do FBI.
— CALMA O CARALHO, EU QUERO A MINHA MULHER!!
Dominic se aproximou e segurou os meus dois ombros com uma pegada de ferro, me chacoalhando para me obrigar a encará-lo.
— Olha pra mim, Damien! Fúria desgovernada não vai ajudar a Emma agora! O Gael e o Thomas foram neutralizados por equipamento tático. Eles não falharam, foram pegos numa emboscada planejada!
— Ela levou a minha mulher, Dom… — a minha voz quebrou, o desespero cru me partindo ao meio. — Ela levou a Emma, minha mulher está grávida dos meus filhos…
— Nós vamos achar ela, cara. Eu te juro pela minha vida que nós vamos. — Dominic respondeu com os olhos duros, convictos. — O cerco tático já foi ativado. O departamento inteiro está mobilizado. A cidade está fechada.
— Papai… — um fio de voz, trêmulo e frágil, cortou o som distante dos rádios da polícia.
Virei o corpo depressa.
Luca e Ellie tinham dado alguns passos vacilantes na minha direção. Luca segurava a mão da minha garotinha com tanta força que os dedinhos estavam brancos. O rosto do meu menino estava manchado de lágrimas e fuligem, e Ellie soluçava baixinho, com os lábios arroxeados de medo.
Toda a fúria que ardia no meu sangue se desfez em cinzas, dando lugar a uma dor dilacerante de pai.
Caí de joelhos no asfalto frio da garagem, abrindo os braços.
Os dois correram e se jogaram contra o meu peito ao mesmo tempo, colidindo comigo com uma força desesperada. Envolvi os dois em um abraço esmagador, afundando o rosto nos cabelos deles, sentindo o tremor violento daqueles corpinhos tão pequenos.
Ellie enterrou a boca molhada de lágrimas na curva do meu pescoço, soluçando em desespero.
— Papai Dam… a mulher feia levou a Em! Ela colocou uma arma na cabeça dela… A Emma falou que se ela não levasse a gente, ela ia embora boazinha no carro… Ela salvou a gente, minha irmã salvou a Ellie e o Luquinha.
Luca apertava a minha camisa com os punhos cerrados, o queixinho tremendo em um pavor que me quebrou por dentro.
— Papai… a mamãe Em vai morrer igual a mamãe Clara? Aquele homem vai matar ela, papai? Ela nunca mais vai voltar pra casa?
Aquelas palavras foram como duas adagas cravadas no fundo do meu coração.
Ele já tinha passado por essa ferida. Já tinha visto a mãe partir naquele acidente, deixando um vazio que quase nos engoliu. E então, Deus tinha colocado Emma nas nossas vidas. Uma jovem doce, luminosa e corajosa que resgatou o sorriso do meu filho, que ensinou o Luca a sonhar de novo e que preencheu cada canto escuro da nossa casa com amor puro.

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