Capítulo 256 — Se fomos premiados
Fernanda Garcia
Olhar para a Katlyn conversando baixinho com a Taylor sem aquele pavor constante nos olhos azuis, aquecia o meu peito de um jeito que eu mal sabia explicar.
Depois de tudo o que passamos na semana anterior, de todo o sangue e da dor que quase destruíram o Bruno, ver a Katy inteira e em paz era um milagre.
Nós tínhamos construído uma conexão tão bonita, tão sincera e palpável nos últimos dias, que eu já a considerava uma irmã de alma. Uma mulher que passou pelo inferno e agora merecia colher apenas calmaria.
Se ao menos a minha própria cabeça permitisse que eu sentisse essa mesma paz.
Pousei a mão sobre a boca do estômago, sentindo outra onda incômoda de queimação subir pela garganta. O enjoo não me largava desde o início da semana. Qualquer aroma mais forte parecia um gatilho para revirar as minhas entranhas, e, por mais que a razão tentasse me convencer de que era apenas o meu corpo cobrando a conta do estresse acumulado, bem lá no fundo da minha alma existia uma fagulha teimosa. Um desejo silencioso, doce e assustador de que aquele mal-estar não fosse doença. De que houvesse uma vida nova, um pedacinho meu e do Ambrose crescendo dentro de mim.
A verdade é que as últimas semanas tinham sido uma montanha-russa emocional. Minha mãe continuava tentando quebrar o bloqueio, enviando mensagens de números desconhecidos que eu simplesmente apagava antes de terminar a primeira linha. Eu não estava pronta para encará-la. Não depois de tudo o que ela permitiu que acontecesse.
E havia o Mike. O silêncio dele me perturbava muito mais do que qualquer ameaça direta. Eu sabia que a mão de ferro do Juan Rivera tinha pesado sobre o meu ex-namorado, o encurralando na sarjeta, mas eu conhecia o veneno daquele homem. Eu custava a acreditar que ele simplesmente desistiu de me atormentar com tanta facilidade. A sensação de que uma tempestade podia desabar a qualquer instante ainda me mantinha em alerta.
Quando as meninas praticamente me arrastaram para a clínica do Elijah, achei que estivesse apenas cedendo à insistência protetora delas. Mas encontrar o Ambrose aqui na recepção mudou tudo. Ver o brilho infantil e desmedido que tomou conta dos olhos azuis do meu noivo quando a Taylor soltou a piada do atraso menstrual fez o meu coração derreter.
Ele queria ser pai. Ele sonhava com isso. E vê-lo tão radiante com a simples hipótese me fez desejar com todas as forças que fosse verdade.
O clique da maçaneta da porta de exames cortou a quietude da recepção.
Damien saiu primeiro, mantendo a porta aberta para que Emma passasse. No segundo em que bati os olhos no rosto da minha amiga, o ar faltou nos meus pulmões.
As bochechas de Emma estavam manchadas por lágrimas recentes e os olhos azuis estavam vermelhos, inchados. Havia um brilho no olhar dela, mas não era o brilho deslumbrado e radiante de uma mãe que acabou de ver os filhos pela tela do ultrassom. Era uma tristeza crua, dilacerante e contida.
Damien a mantinha abraçada de lado com uma firmeza quase desesperada, os traços dele rígidos como rocha.
Nós quatro nos levantamos das poltronas no mesmo segundo.
— Em? — me aproximei a passos rápidos, com o coração disparando de preocupação. — O que foi, amiga? Aconteceu alguma coisa com os bebês?
Taylor se aproximou e segurou a nuca da Emma com carinho, encostando a testa na dela com aquela intensidade bruta que sempre transmitia tanta segurança.
— Engole esse pânico agora, garota. Seus filhos têm o sangue do Damien e a sua coragem. Esse coraçãozinho teimoso vai aguentar firme, e se precisar de reza, briga ou médico especialista no inferno, a gente move o planeta. Entendeu?
Emma deu um sorriso trêmulo em meio ao choro, assentindo devagar.
— Entendi… Obrigada, meninas.
A porta do corredor interno abriu-se novamente e Elijah surgiu no batente. Ele trocou um olhar cúmplice e sereno com a Emma, reafirmando em silêncio o suporte incondicional dele, antes de virar os olhos na minha direção:
— Muito bem, dona Fernanda. Chegou a sua vez no tribunal da obstetrícia. Ambrose, venha com ela.
Senti as pernas bambearem de nervoso. Ambrose deu dois passos rápidos até mim, entrelaçou os dedos grandes nos meus e beijou a minha têmpora, me ancorando no chão:
— Vamos lá, querida. Agora é a nossa vez de vermos se fomos premiados.

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