Capítulo 253 — De Corpo e Alma
Bruno Coletti
A palavra pairou entre nós como um rastilho de pólvora que acabava de encontrar fogo.
Katlyn não recuou. Seus olhos azuis, antes tomados por aquela hesitação dolorosa que me dava nos nervos, dilataram de vez. A respiração dela vinha curta, batendo quente contra a minha boca, e as mãos pequenas que estavam espalmadas sobre o meu peitoral fecharam-se devagar no tecido fino da camisola hospitalar, segurando-se a mim como se temessem que eu desaparecesse.
Não esperei por um convite formal. Aproximei o rosto e tomei os lábios dela para mim.
Foi um beijo faminto, desesperado pelo tempo perdido e pela distância forçada daqueles três dias de silêncio engasgado. Katlyn soltou um suspiro trêmulo contra a minha boca e se entregou por inteiro, abrindo espaço para a minha língua com uma urgência que me fez esquecer onde estávamos.
Minha mão direita afundou nos cabelos soltos da nuca dela, puxando-a para mais perto, querendo colar cada centímetro dela ao meu corpo.
Ela colocou a mão no meu ombro direito, buscando equilíbrio, mas em um sobressalto de carinho tentou se apoiar na lateral da cama, perto demais da imobilização. No mesmo segundo, o pânico tomou conta dela; Katy quebrou o beijo com um puxão suave, os lábios vermelhos e inchados, as bochechas queimando.
— Cuidado, Bruno! — ela repreendeu baixinho, a voz entrecortada, os olhos descendo apavorados para a tipoia no meu braço esquerdo. — Você acabou de sair de uma cirurgia, pelo amor de Deus. Se esse ponto estourar…
Passei o polegar pela curva do lábio inferior dela, puxando o queixo de leve para cima para obrigá-la a me olhar.
— Não se preocupa, querida — murmurei com a voz rouca, sem paciência para cuidados excessivos. — Me machuca mais ter você longe de mim do que qualquer dor nessa porra de ombro.
Um brilho úmido e quente tomou conta do olhar dela. Katlyn não discutiu. Ela sorriu de canto, um sorriso doce, rendido, e voltou a descer a boca na minha. Desta vez foi mais fundo, mais lento, com uma sede mútua que fazia o quarto parecer pequeno demais. Ela se empolgou, subindo a mão pela lateral do meu pescoço, enroscando os dedos na minha nuca e inclinando o corpo sobre o meu peito com mais força.
O peso dela contra a quina da cama repuxou os ligamentos recém-costurados do meu ombro esquerdo.
Uma pontada aguda e crua me atravessou de ponta a ponta.
Soltei um gemido abafado entre os dentes trincados contra a boca dela.
— Porra…
Katy se afastou em um salto, arregalando os olhos azuis em pura aflição enquanto levava as mãos à própria cabeça.
— Eu avisei! Eu não falei para você parar?! — ela me repreendeu, a voz esganiçada entre a preocupação e a raiva de si mesma, os olhos cheios de lágrimas em um segundo. — Você é um idiota inconsequente, Bruno Coletti! Você não tem juízo nenhum! Machucou muito? Eu vou chamar a Kelly agora mesmo…
Soltei uma risada baixa, mesmo com o suor frio brotando na testa pela pontada, estendi a mão direita e agarrei o pulso dela com firmeza, puxando-a sem cerimônia de volta para o colchão.
— Volta aqui, mulher desesperada.
— Bruno, você acabou de gemer de dor! — ela tentou puxar o braço, mas eu apertei com calma, trazendo-a para colar a testa na minha.
— Foi só uma fisgada do músculo esticando, para de drama — dei um sorriso de canto, sentindo o ar quente dela se misturar ao meu novamente. — E você beija bem demais para eu me importar com uma fisgadinha de nada.
— Você é impossível… — ela murmurou, mas o alívio quebrou a pose brava e ela não resistiu, descansando as mãos no meu peito enquanto eu tomava a boca dela mais uma vez, em um beijo mais tranquilo, profundo e ritmado, esquecendo completamente o mundo lá fora.
O trinco da porta de madeira fez um estalo seco.
— Quando as pessoas dizem "procurem um quarto", eu tenho absoluta certeza de que não é de um quarto de hospital que elas estão falando.
A voz feminina, carregada de ironia elegante e autoridade médica, cortou o ar como um bisturi afiado.
Katlyn praticamente deu um pulo para trás, quase caindo da beirada do colchão em um sobressalto de pânico. As bochechas dela explodiram em um vermelho tão vivo que dava para ver a quilômetros de distância.
Ela tentou ajeitar a blusa e o rabo de cavalo desgrenhado com as duas mãos trêmulas, encolhendo-se com a cabeça baixa.
Não deixei que ela fugisse para o outro lado do quarto. Estendi a mão direita e segurei os dedos dela sobre a cama, entrelaçando os nossos dedos com firmeza e mantendo-a colada ao meu lado.
Olhei para a porta e vi a Esther parada no vão, acompanhada pela doutora Violet. As duas usavam jalecos brancos impecáveis sobre roupas sociais elegantes. Esther tinha aquele meio sorriso sarcástico desenhado nos lábios finos, arqueando uma sobrancelha para a cena.
Soltei uma risada cínica, recostando a cabeça no travesseiro sem soltar a mão da minha mulher.
— Sutil como sempre, doutora Cross Rivera. A sua delicadeza com os pacientes é comovente.
Esther deu de ombros com naturalidade, entrando no quarto com passos medidos, enquanto Violet a acompanhava segurando um riso discreto.
— Eu sou médica, Coletti. Não tenho culpa se o meu melhor paciente de trauma prefere gastar o oxigênio dele agarrando visitas em vez de descansar a musculatura operada.
— Não era uma visita qualquer — devolvi de pronto, apertando de leve a mão da Katy, que parecia querer enfiar a cabeça debaixo do lençol de pura vergonha.
Violet parou aos pés da cama com um sorriso simpático.
— Bom dia, Katy. É bom ver que você conseguiu fazer esse homem parar de rosnar para a equipe de enfermagem. A Kelly estava quase sedando ele por conta própria mais cedo.
Katy engoliu em seco, rindo sem graça.
— Bom dia, meninas… Eu só estava… ajudando ele a se distrair.
— A gente notou o nível da distração — Esther alfinetou, os olhos azuis brilhando de diversão antes de assumir uma postura profissional. Ela puxou a ponta do estetoscópio e checou os curativos do dreno com as mãos enluvadas com precisão cirúrgica. — Muito bem, agente. Vim diretamente da sala do doutor Hayes. Conversamos longamente sobre o seu caso, revisamos as imagens do pós-operatório e o último painel de coagulação sanguínea.
— E então? — perguntei, sentindo a ansiedade queimar na boca do estômago. — Posso ir embora já?
Esther soltou um suspiro resignado, guardando o aparelho no bolso do jaleco.
— Nem pensar. A sua alta já está assinada e garantida, mas apenas para amanhã de manhã. O dreno precisa cumprir o ciclo de vinte e quatro horas de baixa oscilação para ser retirado com segurança antes de você colocar os pés na rua. Se eu te liberar hoje e esse hematoma acumular na sua casa, você volta direto para a mesa de cirurgia.
Bufei alto, jogando a cabeça para trás no travesseiro.
— Porra, Esther… Mais uma noite nesta cama de tortura? Eu já estou pronto para sair!
Antes que a médica pudesse me dar uma bronca sobre paciência, senti uma mão macia e delicada cobrir a minha mão direita. Olhei de lado. Katlyn me encarava com uma doçura nos olhos azuis que parecia desarmar cada grama de irritação que eu acumulava.
— Bruno… é só mais uma noite — ela pediu baixinho, a voz mansa acariciando os meus ouvidos. — Por favor. Faz o que os médicos estão mandando. Você esperou até agora, aguenta firme até amanhã cedo. Pela sua recuperação. Por mim.
Sustentei o olhar dela por três segundos. A tensão no meu maxilar cedeu aos poucos. Soltei o ar pelo nariz, derrotado.
— Tá bom. Amanhã de manhã.
Esther trocou um olhar cúmplice com Violet, abafando uma risada irônica.
— Impressionante. Dez anos de ordens do Dominic Costello nunca fizeram esse homem baixar a crista em dez segundos desse jeito. Você tem talento para adestradora, Katlyn. Deveria considerar isso como carreira.
Katy riu sem graça, o rosto corando de novo.
— Para com isso, Esther. É só meu jeito de falar…
— Você não vai lutar sozinha para porra nenhuma — cortei a fala dela com firmeza, a voz grossa e convicta. — Escuta bem o que eu vou te dizer: você não tem que se preocupar com teto, com dinheiro ou com o seu recomeço. Assim que eu colocar os pés para fora deste hospital amanhã, nós vamos resolver isso juntos. Eu vou te ajudar em tudo o que você precisar. Com apartamento, com contatos profissionais, com montagem de portfólio… com tudo.
Katy arregalou os olhos, balançando a cabeça em recusa imediata.
— Não, Bruno! De jeito nenhum! Eu não posso aceitar isso. Você já tomou um tiro por mim, já quase morreu para me salvar daquele monstro… Eu não vou me transformar em um fardo na sua vida. Não quero te dar trabalho e você não tem obrigação nenhuma de resolver os meus problemas. Não precisa se preocupar com nada meu.
Passei a mão direita pela nuca dela com autoridade, puxando-a para a frente sem deixá-la terminar aquela ladainha de independência assustada.
Tomei os lábios dela em um beijo profundo, calmo e seguro. Foi um beijo que calou qualquer objeção que ela tentava erguer, transmitindo em cada toque a certeza de que ela não estava mais desamparada no mundo.
Katlyn cedeu de imediato, suspirando contra a minha boca, deixando os medos derreterem aos poucos. Quando nos separamos devagar, mantive meu rosto a centímetros do dela, encarando o fundo daquelas íris azuis:
— Que tipo de namorado eu seria se não ajudasse a minha mulher?
Katlyn soltou o ar devagar, os olhos marejando em pura emoção. Ela ergueu a mão trêmula e pousou a palma suave contra a minha bochecha áspera pela barba por fazer, acariciando a minha pele como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— Repete… — ela pediu em um sussurro quase inaudível, com a voz embargada.
Soltei um riso rouco, achando graça da fragilidade linda dela.
— Qual parte, loira?
Katy encostou a testa na minha com delicadeza, fechando os olhos.
— Você sabe muito bem qual parte…
Passei a ponta do meu nariz no dela em um carinho suave, respirando o cheiro doce que vinha da pele dela antes de responder com toda a clareza e convicção que existiam dentro do meu peito.
— Namorado. É exatamente isso o que eu sou seu, querida. Seu namorado. E você é a minha mulher.
Ela permaneceu de olhos fechados por um segundo inteiro, absorvendo cada letra daquela certeza, antes de sussurrar com um suspiro trêmulo de puro alívio:
— Meu…
Inclinei o rosto e pousei os meus lábios sobre os dela em um selinho longo, terno e carregado de promessas silenciosas. Quando me afastei apenas o suficiente para que ela sentisse a minha respiração colada à sua boca, encerrei com a verdade mais crua da minha vida:
— Seu. De corpo e alma, Katlyn… Só seu.
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Minhas maravilhosas, deixa eu esclarecer uma coisinha com vocês. 🥹❤️
As plataformas nos pedem capítulos de mil palavras, mas eu começo a escrever e me empolgo… principalmente porque minha escrita é bem detalhada. Eu gosto que vocês realmente se sintam dentro da cena, vivendo tudo junto com os personagens.
Meus últimos capítulos, por exemplo, nenhum teve menos de duas mil palavras. 🫣🫣🫣
Por isso, quando consigo, eu posto mais de um capítulo. Mas quando vocês perceberem que saiu somente um, podem ter certeza de que é porque ele está mais robusto e cheio de detalhes. ❤️
Então tenham um pouquinho de paciência comigo, minhas lindas. Eu prometo que cada palavrinha a mais é porque eu quero entregar a história do jeitinho que vocês merecem. 🥹❤️
Beijos, minhas maravilhosas! 😘

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