Capítulo 252 — O que eu quero
Bruno Coletti
O cheiro de desinfetante hospitalar já estava me dando nos nervos. Três dias. Três malditos dias preso em uma cama estreita, com o ombro esquerdo amarrado em uma tipoia rígida que parecia um colete de força medieval, enquanto um dreno nojento ainda puxava o resto de líquido da minha articulação.
Eu era um agente especial do FBI. Minha rotina era invadir galpões, perseguir alvos e descarregar adrenalina na academia de tiro. Estar aqui, usando uma camisola ridícula aberta nas costas e dependendo de campainha para tomar água, estava me enlouquecendo.
— Dá para você parar de se mexer feito um bicho enjaulado, grandalhão? — Kelly, a enfermeira do plantão, repreendeu enquanto ajustava o gotejamento do soro no suporte de metal ao lado da cama. Ela usava um óculos de aro redondo e exibia uma expressão divertida que só me deixava mais irritado. — Se você repuxar esse ponto cirúrgico de novo, o doutor Hayes vai te deixar internado até a semana que vem só de castigo.
— Eu já estou ótimo, Kelly — bufei pela décima vez nessa manhã, cruzando o braço direito sobre o peito e trincando os dentes. — A minha pressão está normal, a febre passou há quarenta e oito horas e a porra da dor de cabeça já sumiu. Eu tenho trabalho acumulado, relatórios para assinar e um apartamento para gerenciar. Eu preciso da minha alta hoje.
Kelly soltou uma risada debochada, batendo de leve na prancheta plástica que segurava.
— Ah, com certeza. Você vai sair correndo por aí para prender bandidos com um ombro reconstruído por parafusos de titânio. Paciência, agente Coletti. Homens grandes como você são sempre os pacientes mais chorões do hospital.
— Eu não sou chorão — rosnei de volta, tentando ajeitar os travesseiros com a mão boa sem mover a escápula esquerda. — Eu só quero sair deste quarto.
Antes que ela pudesse retrucar, duas batidas suaves ecoaram na porta de madeira.
A maçaneta girou devagar e a porta se abriu.
Katlyn entrou.
No mesmo segundo, a carranca pesada que colava no meu rosto perdeu metade da força. Ela usava uma calça jeans clara, uma blusa fina azul-bebê e os cabelos dourados estavam presos em um rabo de cavalo frouxo, deixando à mostra o pequeno curativo que ainda protegia a têmpora direita.
Havia uma leveza no andar dela, uma serenidade nos traços do rosto que fazia o ar daquele quarto hospitalar parecer dez vezes mais respirável.
— Bom dia, Kelly — Katy cumprimentou com um sorriso doce e aberto, caminhando até a beira da cama com uma sacola de papel pardo nas mãos. Depois, virou os olhos azuis para mim, com um brilho divertido. — Bom dia, paciente rabugento.
— Graças a Deus você chegou, Katlyn! — Kelly comemorou, fingindo alívio e jogando as mãos para o alto. — O seu namorado já acordou distribuindo ordens e querendo peitar a equipe médica inteira. Não aguento cinco minutos desse mau humor matinal.
Seu namorado.
A palavra bateu contra os meus ouvidos com a força de um soco.
Katy deu uma risadinha sem graça, as bochechas corando de leve no mesmo segundo, mas desconversou com naturalidade.
— Deixa ele comigo, Kelly. Eu trouxe frutas frescas e paciência extra hoje.
— Boa sorte, você vai precisar — a enfermeira piscou para ela, pegou o termômetro e caminhou até a porta. — Volto em uma hora para checar o dreno. Se ele tentar levantar da cama sozinho, usa a força!
A porta se fechou atrás da mulher, e o silêncio da sala foi quebrado apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado.
Fiquei observando Katy colocar a sacola sobre a mesinha de cabeceira, a minha mente girando em torno daquele título que a Kelly jogou no ar com tanta naturalidade.
Desde o instante em que acordei da sedação pesada na UTI e vi o rosto dela me esperando na transição para o quarto, Katlyn não saiu do meu lado. Ela vinha todos os dias, passava horas sentada ali, ajudava com água, conversava sobre amenidades e me olhava com um carinho que me desarmava por completo. Mas havia uma barreira invisível entre nós.
No dia seguinte à cirurgia, quando eu ainda estava sonolento e com a fala arrastada, ela me contou com o rosto vermelho que Dominic a registrou como minha namorada na recepção para furar o protocolo rígido do hospital.
Ela foi rápida em emendar uma justificativa constrangida, dizendo que eu não precisava me preocupar, que ela sabia que o Dom só fez aquilo pelo calor do momento e que jamais cobraria nada de mim, afinal, mal nos conhecíamos fora daquele caos.
Na hora, anestesiado e sem saber como processar a avalanche de sentimentos novos que ela me causava, a minha resposta foi um seco:
"Sem problemas, o Dom é exagerado mesmo."
Eu fui um imbecil.
Aquelas poucas palavras caíram como uma ducha de água fria sobre ela. Vi a expressão de Katy murchar no mesmo segundo. Ontem à tarde, quando Dominic e Gael vieram me visitar e notaram a postura tímida e recuada dela, os dois quase me jogaram da janela do quarto.
Gael me chamou de a**o insensível, e Dominic cravou que, por não ter assumido de imediato que queria exatamente aquilo, eu fiz a mulher se fechar em uma concha de insegurança.
E mesmo com a minha resposta estúpida, ela estava ali. Cuidando de mim.
— Bruno? — a voz suave dela me puxou para fora do transe.
Pisquei, voltando a focar na mulher parada ao lado do meu colchão. Ela me encarava com uma ponta de preocupação nos olhos azuis.
— Você está com dor? Está tão quieto… Precisa de alguma coisa?
— Estou bem, Katy — soltei o ar devagar, ajeitando a coluna com cuidado. — Só estava pensando.
Ela deu um meio sorriso compreensivo, puxando a mesinha móvel com rodas para mais perto de mim.
— Quer ajuda para se sentar um pouco mais reto? O médico disse que você precisa movimentar o tronco aos poucos para não atrofiar a lombar.
— Não precisa de ajuda, eu consigo… — tentei empurrar o corpo com a palma da mão direita, mas no segundo em que o meu peso forçou o lado esquerdo, a articulação operada repuxou e um gemido involuntário escapou entre os meus dentes cerrados.
— Para, Bruno! Deixa de ser teimoso por um segundo na sua vida! — Katy interveio imediatamente, passando a mão com cuidado pelas minhas costas e me dando apoio pelo ombro são. O perfume doce e suave de baunilha que vinha dos cabelos dela invadiu os meus sentidos, me paralisando. Ela ajeitou as duas almofadas atrás da minha cabeça com uma precisão delicada e depois puxou o lençol sobre as minhas pernas. — Pronto. Melhor?
— Bem melhor — admiti a contragosto, soltando um resmungo baixo que a fez rir.
— Viu só? Não caiu nenhum pedaço do seu orgulho de agente federal — ela zombou de leve, pegando um potinho de vidro da sacola e abrindo a tampa, revelando pedaços de maçã e morango frescos. — Quer que eu te dê na boca? O seu braço esquerdo não mexe e o direito está com a agulha do soro.
— Nem fodendo, Katlyn — retruquei na mesma hora, arregalando os olhos. — Eu tomei um tiro no ombro, não perdi a coordenação motora. Eu ainda sei usar um garfo.
— Eu não quero que você se acostume com isso. Você não merece que ninguém desconte nada em você, muito menos eu. Quando eu sair deste inferno de quarto, eu vou compensar você por cada minuto de paciência que você teve comigo nesses últimos dias.
Katy balançou a cabeça devagar, afastando o rosto da minha mão com gentileza, mas desviando o olhar para a janela do quarto.
— Você não precisa me compensar de nada, Bruno. Não me deve absolutamente nada. O que eu fiz aqui não foi por obrigação e nem por favor. Eu queria estar aqui.
— Eu sei que queria — respondi firme, sem desviar o olhar do perfil dela. — Mas eu ainda preciso compensar você. E, além do mais… eu ainda devo um jantar decente para a minha namorada.
No mesmo segundo em que a palavra saiu da minha boca, Katlyn congelou.
Ela virou o rosto para mim com os olhos arregalados em choque, as bochechas esquentando em uma cor escarlate vívida. Ela engoliu em seco, puxou as mãos para o próprio colo e soltou um riso nervoso, cheio de receio.
— Bruno… por favor, para com isso. Você não precisa levar essa história a sério.
— Que história? — perguntei, a voz endurecendo uma fração.
— Essa história de namorada — ela respondeu em um sussurro aflito, evitando encarar o fundo dos meus olhos. — Eu sou imensamente grata ao Dominic por ter pensado rápido naquela noite. Se ele não tivesse dito aquilo na portaria, eu teria passado a madrugada inteira do lado de fora daquele corredor sem saber se você ia sobreviver à cirurgia. Aquilo foi um recurso de emergência. Mas eu já disse para você… você não é obrigado a nada, Bruno. Você não tem que manter essa farsa ou se sentir preso a um compromisso só porque as pessoas no hospital estão comentando. Você não é obrigado a assumir um papel por pena ou consideração.
A irritação que a Kelly não conseguiu me causar subiu de uma vez só pela minha espinha.
Pena? Farsa? Compromisso por consideração? Aquela garota era inteligente para quase tudo na vida, mas quando o assunto era o próprio valor, ela conseguia ser absurdamente cega.
Não pensei duas vezes.
Estendi o braço direito, passei a mão grande e firme por trás do pescoço dela, envolvendo a sua nuca e afundando os dedos na base dos seus cabelos macios. A puxei com autoridade para frente, quebrando a distância entre os nossos corpos até que o rosto dela ficasse a menos de um palmo do meu, forçando-a a encarar cada detalhe da minha expressão séria.
Katlyn prendeu a respiração, as mãos pousando abertas sobre o meu peito, os lábios entreabertos em surpresa pura.
— Olha bem nos meus olhos, Katlyn Pratt — ordenei com a voz baixa, grossa e tão cortante que o ar pareceu vibrar entre nós. — Se você ainda não percebeu nesses dias todos que passamos juntos, guarda isso de uma vez por todas na sua cabeça: ninguém me obriga a porra nenhuma.
Ela piscou, o peito subindo e descendo acelerado contra a palma da minha mão.
— Eu não faço nada por pena — continuei, apertando a nuca dela com firmeza, sentindo o pulso rápido na lateral de sua garganta. — Eu não finjo sentimentos por consideração e eu não entro em farsa nenhuma. Eu sou um homem de trinta e quatro anos, porra. Eu faço exatamente o que eu quero, na hora em que eu quero e com quem eu decido.
A respiração dela bateu quente contra os meus lábios, trêmula e descompassada. Os olhos azuis estavam dilatados, brilhando com um misto de medo e uma entrega crua que ela não conseguia mais mascarar.
— E… o que você quer, Bruno? — ela perguntou em um sussurro quase inaudível, a voz falhando na garganta.
Puxei a nuca dela mais uma fração de centímetro para a frente, sentindo a boca dela a milímetros da minha, sustentando o olhar da única mulher que conseguiu virar o meu mundo do avesso:
— Você.

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