Capítulo 173 — Sombras na Memória
Damien Knight
O domingo mal havia começado e eu decidi reunir os caras no escritório para contar a eles sobre as últimas descobertas do Vicent. O lado bom de ter a porra de um irmãos de alma, um como agente encarregado do FBI e dois operando com maestria nas sombras do submundo é que as coisas tendem a caminhar em uma velocidade infinitamente mais rápida do que normalmente seria na vida real.
O Dominic já havia conseguido a confissão completa da Giovanna na cela de custódia. O Snake tinha acabado de descobrir que a namorada do meu falecido segurança da mansão tinha informações valiosas e sigilosas sobre a queima de arquivo. E o Chris já tinha colocado gente nas ruas rastreando a localização do cretino que sabotou a tubulação dos freios do carro da Clara há dois anos.
Todo esse pesadelo parecia finalmente estar chegando ao seu desfecho inevitável. Eu sabia disso no fundo da minha alma. Mas até que a última peça desse quebra-cabeça fosse devidamente colocada em seu lugar, eu simplesmente não conseguia negar a mim mesmo o medo real que continuava apertando o meu peito.
Um medo cru pelo meu filho, pela minha mulher e pela nossa pequena Ellie. Um medo que abraçava a segurança de toda a minha família.
Eu estava no hospital geral acompanhado do Ozzie e dos caras, aguardando no quarto de apoio para que o Eli e a Ester retornassem com atualizações clínicas sobre a Aubrey, quando o meu celular começou a vibrar na minha mão.
Olhei para a tela e só de ler o nome registrado no visor a minha irritação subiu a níveis perigosos. Imagina a raiva que eu sentiria quando ouvisse a voz dessa mulher.
Atendi a chamada, a voz caindo para um tom frio.
— Izabel. — foi tudo o que eu disse.
— Eu quero ver o meu neto! — ela disparou do outro lado da linha, usando o seu habitual e insuportável tom de arrogância.
Soltei o ar devagar pelos lábios, mantendo o autocontrole.
— No momento isso simplesmente não será possível, Izabel. Eu não estou em Nova Jersey. Estou resolvendo urgências em um hospital de Nova York.
Ouvi o som dela bufando de pura frustração do outro lado da chamada.
— Sendo assim, eu irei até a sua mansão amanhã de manhã para encontrar o menino. — ela rebateu de forma autoritária.
Apertei o aparelho contra a orelha, travando o maxilar.
— Amanhã é segunda-feira, Izabel. Eu trabalho, o Luca tem a rotina dele e eu estou com a cabeça cheia de problemas graves para resolver. No sábado… No sábado eu deixo tudo devidamente organizado com a governanta para você ir ver o meu filho.
Izabel surtou na linha, a voz subindo dois tons.
— No sábado eu já pretendo estar devidamente acomodada na minha casa em Londres, Damien! Eu simplesmente não posso e não vou viver à sua disposição!
Me ajeitei na poltrona do quarto, descarregando a minha autoridade na ligação.
— E nem eu posso, ou vou, viver à sua disposição, Izabel. — rebati no mesmo segundo, o tom cortante e ríspido. — Se você realmente faz tanta questão assim de ver o meu menino antes de viajar, será nos meus termos e no dia em que eu determinar, e não nos seus. Caso não queira aceitar isso, tenha uma excelente viagem de volta.
E, sem dar a ela a menor margem para tréplica ou chiliques, eu simplesmente encerrei a ligação.
Ozzie, que estava sentado na beirada da mesa de apoio me observando, balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Essa velha arrogante não cansa nunca de passar vergonha, não? — ele perguntou em seu tom irônico.
Bufei de pura irritação, guardando o telefone. Mas o meu aparelho nem sequer chegou ao fundo do bolso; ele vibrou novamente indicando a chegada de uma mensagem de texto dela:
“Tudo bem. Sábado estarei em sua casa para almoçar com o meu neto.”
Eu nem perdi o meu tempo digitando uma resposta. Apenas ignorei o texto e guardei o celular de vez.
Foi nesse exato instante que o telefone do Ambrose começou a tocar alto no cômodo. Ele atendeu rapidamente de forma carinhosa: era a Fernanda na linha. No entanto, à medida que os dois conversavam, notei as feições do meu primo mudarem drasticamente, a sobrancelha franzindo em uma preocupação nítida.
Assim que ele encerrou a chamada, olhei para ele com atenção.
— O que foi que aconteceu, Ozzie?
Ele passou a mão de forma rápida pelos cabelos loiros, o semblante confuso.
— A Fernanda acabou de me ligar dizendo que precisa ir urgentemente até o endereço onde ela morava. Eu perguntei o motivo da viagem repentina e ela simplesmente desconversou e mudou de assunto. Mas deixou claro que estava indo.
Olhei para ele, achando a atitude dela estranha.
Stan abaixou a cabeça, a sua voz saindo quebrada, trêmula e embargada por uma dor que destruiu todos no quarto.
— Em outras palavras… Vocês vão precisar entrar lá e tirar meu filho morto de dentro do corpo dela…
Coloquei a minha mão espalmada sobre o ombro dele de forma firme, me unindo ao Chris em um gesto de suporte absoluto.
Elijah apenas assentiu com um movimento lento de cabeça, respeitando o luto do amigo, antes de continuar o seu relato médico com cautela.
— Mas… Infelizmente tem mais uma informação crucial que eu preciso reportar a todos vocês sobre o estado neurológico da Aubrey neste momento.
O clima dentro do quarto ficou instantaneamente denso. Todos nós prendemos a respiração, atentos.
— Ela acabou de acordar do estado de sedação profunda. — Eli informou. — E eu solicitei imediatamente a presença de um colega neurologista para avaliá-la na UTI.
Chris, que até então vinha acompanhando tudo em silêncio, deu um passo à frente e perguntou.
— A avaliação é por conta da pancada da queda da escada? Ou pelas sequelas da parada cardiorrespiratória?
Elijah manteve os olhos fixos no nosso amigo.
— Por ambos os fatores, Chris. Mas principalmente por conta do quadro de amnésia retrógrada que ela já havia apresentado antes da parada. A grande questão é que… — ele fez uma pausa tensa, o olhar pesando. — …após despertar da sedação, a Aubrey se manteve em um estado severo de agitação psicomotora e, infelizmente, sem o resgate de uma única lembrança sequer.
Tristan fechou as duas mãos em punhos apertados ao lado do corpo, as juntas dos dedos ficando brancas de tanta força.
— Como é que é, Elijah?… — ele perguntou, a voz falhando e rasgando no meio da frase.
Elijah soltou o ar de forma profunda e pesada, como se as palavras seguintes fossem tão dolorosas de pronunciar para ele quanto havia sido dar a notícia da perda do bebê.
Ele encarou o Stan por longos e agonizantes segundos antes de soltar a sentença final que despedaçou o resto das nossas esperanças.
— Sinto muito, Stan… Mas a avaliação do neurologista confirmou que o quadro de amnésia da Aubrey não é mais considerado uma condição temporária do organismo. O dano neurológico e o trauma tornaram a perda de memória… permanente.

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