Capítulo 174 — O Coração Não Esquece (Parte I)
Tristan Blackwood
Depois da notícia libertadora de que o filho da Giovanna definitivamente não era meu, seguida pela confirmação de que a desgraçada havia finalmente confessado os seus crimes ao Dominic na delegacia, o peso esmagador daquela maratona de horror me cobrou a conta.
Deitei por um único minuto no sofá de apoio para esticar as costas e simplesmente apaguei pelo esgotamento físico.
Mas o descanso durou pouco. Acordei com a chegada do Elijah trazendo uma notícia tão devastadora e dolorosa quanto a de que o nosso bebê tinha partido: a Aubrey havia perdido a memória de forma permanente.
Ela não se lembraria de que esperava um filho nosso, e muito menos se lembraria de mim, do nosso amor ou da nossa história. Naquele exato segundo, o meu mundo simplesmente desabou em ruínas.
— Me diz que isso é mentira, cara… Me diz que… que ela vai voltar para mim inteira… implorei, a voz rasgando a minha própria garganta.
Elijah me encarou e o que vi no fundo das suas pupilas azuis me partiu ao meio: vi pena. O meu amigo e irmão de alma estava com pena de mim.
— Queria do fundo do meu coração poder te dizer isso, Stan, mas infelizmente não posso. — Eli lamentou, adotando o tom mais humano e cauteloso possível. — O neurologista explicou que o sangramento intracraniano ainda está presente de forma moderada. Existe sim uma chance remota de que, assim que o organismo dela absorver tudo por completo, as conexões se refaçam e a memória volte. Mas, por hora, do ponto de vista clínico, a amnésia será tratada oficialmente como algo permanente.
O meu peito apertou de tal forma que faltou ar nos meus pulmões. Experimentei uma dor crua e física que nunca havia sentido antes na minha existência. Era uma agonia tão avassaladora quanto a que senti quando soube da perda do meu filho; era como se, além do meu bebê, eu estivesse perdendo a Bree, perdendo o único e verdadeiro amor da minha vida.
Damien, como sempre atento a cada microexpressão minha, notou a minha reação de colapso, deu dois passos rápidos na minha direção e me puxou com força para os seus braços.
— Ei, irmão… Não segura essa porra sozinho, não. Deixa sair, Stan… Só deixa sair.
E foi como se o meu cérebro, a minha alma e o meu espírito estivessem apenas esperando a permissão daquelas palavras para desabar de vez. Porque foi exatamente isso o que aconteceu: eu desabei por completo.
E não foi bonito de se ver. Foi um choro primal, visceral, rasgado de dor. O meu pranto ecoava abafado contra o ombro da jaqueta do Damien, enquanto a tristeza me consumia vivo.
Minha mulher não se lembrava de mim, e talvez nunca mais se lembrasse. Antes, o meu maior pavor era ter que olhar nos olhos dela e contar que o nosso bebê havia partido; agora, o meu pavor supremo era saber que ela nunca saberia, ou melhor, nunca se lembraria de que um dia tivemos um filho crescendo no seu ventre.
Ela não choraria comigo a partida do nosso bebê porque, para a mente dela, a existência dele nunca aconteceu. E isso… doía pra caralho.
Damien não me soltou por um único segundo sequer enquanto eu me desfazia em lágrimas. Como sempre fez em todos os momentos sombrios da minha vida, ele me segurou firme e mostrou o motivo de sermos irmãos de alma.
Quando a tempestade da dor deu uma trégua e o meu choro foi ficando mais silencioso, a porta se abriu devagar. Ester entrou na sala, caminhou com passos suaves até o meu lado e me puxou com carinho para os seus braços.
— Vai dar tudo certo, meu bem… Só confia. — ela sussurrou no meu ouvido.
— E se… E se essa nova Aubrey que está aí dentro simplesmente não gostar de mim, Dam? E se ela… se ela não conseguir me amar?
Damien sorriu com um carinho genuíno, me encarando nos olhos.
— Então você vai conquistá-la do zero, exatamente como fez da primeira vez.
— E se eu não conseguir? — perguntei, a minha voz saindo em um fio imperceptível.
— Você vai conseguir, Stan. Sabe por quê? Porque a mente dela pode até não se lembrar do seu nome agora, mas o coração dela nunca te esqueceu. Eu tenho a absoluta certeza disso.
Assenti para o meu amigo, respirei fundo, empurrei as portas e entrei no quarto.
Assim que a folha de madeira se fechou suavemente atrás de mim, esqueci até a forma correta de puxar o ar para os pulmões. Aubrey estava acordada na cama. Aqueles olhos verdes intensos perfeitamente emoldurados por seus cabelos negros estavam cravados diretamente em mim.
Ficamos alguns segundos suspensos no tempo, apenas nos encarando, até que os lábios dela se moveram.
— Oi… — ao ouvir sua voz, meu mundo… meu mundo parou.

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