Capítulo 218 — Cicatrizes Visíveis
Ambrose Blair
A minha mente parecia uma panela de pressão a ponto de explodir. Eu estava no meu limite absoluto de paciência, estresse e autocontrole.
Primeiro veio aquele veneno sutil da mensagem do Mike no celular da Fernanda, plantando uma semente maldita de dúvida e insegurança no meu peito que eu tentei a todo custo sufocar; depois, a aparição completamente inconveniente, perigosa e descabida da Katlyn na mansão , trazendo de arrasto todo o lixo do meu passado que eu lutei anos para enterrar; e agora, para coroar a loucura desse sábado, eu estava no meio de um confronto aberto com a mulher da minha vida dentro da nossa própria suíte.
A teimosia da Fernanda em querer oferecer abrigo à minha ex debaixo do teto do Damien tinha elevado a nossa conversa a um patamar insuportável de tensão. Cada palavra nossa saía mais afiada que a anterior, com mágoas sendo desenterradas e vozes se elevando, até que eu perdi completamente a razão e cobrei aos gritos:
— Que merda, Fernanda! Para de fugir e me diz logo o que você viu na porra daquela mulher?!
E então, o mundo parou de girar.
— EU!!
Aquele grito rasgado, visceral e ensurdecedor ecoou pelas paredes do quarto com a força de uma detonação.
Eu travei no lugar como se tivesse levado um tiro à queima-roupa no meio do peito. O ar simplesmente se recusou a entrar nos meus pulmões. As lágrimas grossas e descontroladas que lavavam o rosto da Fernanda brilhavam com uma dor tão crua, tão antiga e tão dilacerante que cada fibra do meu ser se encolheu em pura vergonha e choque.
Dei dois passos vacilantes na direção dela, estendendo os meus braços para tentar acolher o seu corpo:
— Fer… amor…
No milésimo de segundo em que as pontas dos meus dedos quase tocaram os seus ombros, Fernanda deu um salto para trás, batendo as palmas das mãos contra o meu peito e me afastando com uma firmeza desesperada.
— Não, Ambrose! Não chega perto de mim agora! — ela implorou, a voz falhando e quebrando em um soluço agudo que partiu a minha alma ao meio.
Recuei dois passos com o peito sangrando, engolindo a bile amarga da minha própria estupidez.
— Me perdoa, meu amor… Me perdoa, por favor. Eu… eu fui um cego desgraçado. Eu não tinha enxergado as coisas por esse ângulo… Eu juro por tudo o que é mais sagrado que não percebi.
Fernanda encostou as costas na parede fria do quarto, deslizando devagar até abraçar a própria cintura com as duas mãos, curvando o tronco para a frente como se tentasse se proteger de um golpe físico invisível.
O choro dela vinha do fundo das entranhas, arrastando um arfar doloroso a cada respiração.
— Você não faz ideia, Ambrose… Você não tem a menor noção de como é viver no inferno, o quanto é difícil tentar escapar das garras de um abusador! Você não sabe o que é acordar todos os dias sentindo um pavor paralisante, uma impotência que parece queimar os seus ossos e uma sensação esmagadora de incapacidade que te faz acreditar que você é menos do que um pedaço de lixo no chão!
Cada palavra que saía da boca da minha noiva entrava como uma lâmina quente na minha carne. Eu queria me ajoelhar aos pés dela, queria arrancar aquela dor do peito dela e puxar para dentro de mim, mas permaneci ali, estático, obrigado a encarar a realidade dos fantasmas que ela ainda carregava.
Ficamos ali no chão por longos minutos, abraçados em silêncio, deixando apenas o som das nossas respirações preencher o quarto. O peso sufocante da desconfiança e da raiva foi sendo lavado pelas nossas lágrimas, dando lugar a uma cumplicidade ainda mais sólida, madura e inquebrável.
Passei as palmas das mãos pelas costas macias dela, subindo até o seu rosto delicado. Afastei os fios colados à sua testa e ergui o seu queixo com ternura. Nossos olhares se cruzaram e desci a minha boca até a dela em um beijo profundo, lento, reverente e carregado de um pedido mudo de redenção.
Nossas línguas se tocaram com calma, selando a nossa paz e reafirmando o amor gigantesco que nos unia. Quando nos separamos pela falta de ar, mantive as minhas mãos apoiadas nas bochechas dela, acariciando a sua pele com os polegares.
Encarei aquele par de olhos verdes intensos e magnéticos que tinham o poder absoluto de me desmontar por inteiro e me fazer o homem mais rendido deste planeta.
Respirei fundo, deixando qualquer resquício de orgulho ou mágoa para trás, e perguntei com total seriedade e respeito.
— Você tem certeza absoluta disso, Fer? Quer mesmo que a gente faça isso por ela?
Fernanda não vacilou. Não hesitou por um milésimo de segundo. Ela sustentou o meu olhar com aquela firmeza doce e inabalável que me fez se apaixonar por ela desde o primeiro dia.
— Eu tenho, Ambrose. Eu tenho certeza absoluta.
Dei um sorriso manso de canto, inclinei o rosto e depositei um selinho calmo e carinhoso nos lábios avermelhados da minha noiva antes de me colocar de pé e puxá-la pela mão.
— Então vamos lá querida, vamos fazer isso.

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