Capítulo 180 — A Dor do Despertar
Tristan Blackwood
— BREE!! — o meu grito de puro pavor rasgou o hall da mansão.
O meu coração parecia disparado contra as costelas, o desespero absoluto tomando conta de cada centímetro do meu corpo. Me dobrei sobre ela, passei os braços com firmeza por baixo das suas pernas e das suas costas e a peguei no colo num salto.
Comecei a subir os degraus da grande escadaria em disparada, com a Fernanda correndo ao meu lado. Ela se adiantou pelo corredor do andar superior, abriu a porta do meu quarto e eu entrei como um furacão, depositando a minha mulher com um cuidado infinito no centro da cama de casal.
Me sentei de joelhos no colchão, bem ao lado dela, e segurei o seu rosto pálido entre as minhas mãos trêmulas.
— Amor… Por favor, acorda… — pedi, deixando selinhos desesperados na sua testa, nas bochechas e na sua boca gelada. — Por favor, Bree… Fala comigo!
Puxei o meu celular do bolso com as mãos sacudindo e disquei diretamente para a Esther.
— Stan? — a voz da nossa amiga médica veio no segundo toque da linha.
— Pelo amor de Deus, Esther! A Bree travou no pé da escada aqui do hall, pareceu se lembrar de alguma coisa do acidente, começou a falar frases desconexas e desmaiou na minha frente! Ela simplesmente não acorda, tá gelada pra cacete e eu estou surtando de medo aqui!! — desabafei, a voz rouca e trêmula.
— Fica calmo, Stan! Eu já estou saindo do hospital e estou indo aí agora mesmo. — ela tentou me tranquilizar.
Neguei com a cabeça na mesma hora, encarando o corpo inerte da minha mulher.
— Não! Eu acho muito melhor eu colocar a Aubrey no carro e levá-la de volta para o hospital agora mesmo, e você me encontra lá na emergência!
Ouvi o som da Esther soltando o ar devagar do outro lado da chamada.
— Stan, você vai me escutar e vai se acalmar agora. Deixe a Bree acordar no tempo dela de forma natural e me espere na mansão porque eu já estou chegando.
E, sem me dar margem para contestar ou dar chiliques, minha amiga simplesmente encerrou a ligação.
Joguei o celular de qualquer jeito sobre as cobertas e voltei a acariciar o rosto da Aubrey, me inclinando sobre o seu corpo.
— Meu amor… Por favor, só acorda para mim, tá bom?… — beijei os seus olhos fechados, o nariz, os lábios rosados, mas nada do que eu fazia a trazia de volta daquela inconsciência profunda.
A porta do quarto se abriu devagar. Fernanda, que tinha saído por alguns instantes para pedir ajuda, retornou trazendo a Emma, a Taylor e a Savannah ao seu lado. A Savannah, na sua postura profissional de enfermeira, correu de imediato para o outro lado da cama, segurou o pulso da minha mulher e colocou os dedos no seu pescoço para checar os sinais vitais.
— A pressão arterial dela caiu drasticamente. — Savannah informou em tom calmo, acomodando a mão da Aubrey com extremo cuidado de volta sobre o colchão. — A queda de pressão aconteceu provavelmente devido ao choque emocional que o cérebro sofreu.
— Por que diabos ela não acorda de uma vez, Savannah?! — perguntei, encarando a enfermeira com os olhos ardendo em aflição.
— Eu não conheço a fundo todos os detalhes do histórico neurológico recente dela, Stan, mas pelo pouco que acompanhei da UTI, imagino que tenha sido o próprio cérebro dela desligando por segurança ao notar que o impacto emocional foi infinitamente maior do que o organismo suportaria. — Savannah explicou com paciência. — É apenas um mecanismo de defesa natural do corpo humano. E, para ser bem sincera com você dentro da situação que temos, ela permanecer desacordada por alguns minutos é o melhor cenário possível para estabilizar a mente.
Taylor deu um passo à frente no quarto, o olhar preocupado.
— Esther… Logo antes de apagar totalmente, ela colocou a mão na barriga e disse ‘o nosso bebê’. Você acha que a memória antiga dela voltou por completo?
Esther negou devagar com a cabeça, o olhar cheio de cautela.
— Não, Stan. Acredito firmemente que tenham sido apenas fragmentos soltos do subconsciente… Como se fossem espasmos de memória. A memória de um trauma neurológico assim não vai voltar de uma vez só, meu amigo, e você não pode se apegar a essa ilusão para não sofrer. As lembranças dela podem sim ir retornando em pequenas peças isoladas, e ela mesma terá que ir encaixando esse quebra-cabeça aos poucos com o tempo. Mas… Se a lembrança da existência do bebê realmente voltou para a superfície da mente dela agora, você vai precisar se preparar psicologicamente, Stan.
Encarei a minha amiga, o cenho franzido em absoluta confusão.
— Como assim me preparar, Esther?
Esther soltou o ar devagar pelos lábios, me olhando com profunda compaixão antes de soltar a verdade que me cortou ao meio.
— A Aubrey não viveu o luto pela perda do filho até hoje, Stan… Porque a mente dela simplesmente não se lembrava de que ela estava grávida. Mas se essa lembrança específica retornou agora…
Olhei para o rosto calmo da minha mulher adormecida no colchão e uma dor absurda atravessou a minha alma no mesmo milésimo de segundo.
— Ela vai sentir a dor da perda agora… — eu completei, a minha voz saindo em um fio rasgado, quase inaudível.
Esther me encarou com uma profunda tristeza no olhar e assentiu em silêncio.
— Exatamente, meu amigo… Agora a Aubrey vai finalmente chorar pelo filho que perdeu.

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