Capítulo 171 — Se ela falar...
Verônica Ortega
Eu sempre entro em qualquer jogo para ganhar. Sempre foi assim, desde que me entendo por gente. Eu não perco. E se porventura alguma situação parece temporariamente perdida, eu encontro um meio de recuperá-la e virar o tabuleiro a meu favor, não importa quais recursos ou métodos eu precise utilizar para isso.
Faz parte da minha natureza.
Enquanto descansava os dedos sobre a superfície de mogno da mesa do escritório da mansão do meu tio, em Hoboken, meus pensamentos se voltaram para a ligação desesperada da Giovanna no dia anterior.
Que raiva. Eu me arrependia profundamente de ter me aliado a uma criatura tão terrivelmente estúpida, insignificante e sem cérebro como aquela garota.
Duas batidas secas na porta de madeira interromperam o meu fluxo de pensamentos.
— Entre. — ordenei.
O Dylan, meu fiel assistente e homem de confiança para os serviços mais sujos, cruzou o portal e parou em uma postura impecável diante da mesa.
— Senhora Ortega, tenho atualizações recentes sobre a situação da Giovanna na custódia. — ele anunciou de pronto.
Fiz um sinal discreto com a mão para que ele prosseguisse.
— Ela está, neste exato momento, sendo submetida a um interrogatório formal conduzido pelo próprio agente encarregado Dominic Costello. Parece que ele abandonou oficialmente o período de férias para assumir a linha de frente do caso.
Levantei a cabeça devagar, encarando-o com o cenho levemente franzido.
— E aquele homem por acaso tem jurisdição para isso? É uma ocorrência do departamento dele? — perguntei, surpresa pela ousadia do federal. Usando seus recursos para ajudar os “irmãos de alma” como eles se rotulam. Nojo de todos eles.
Dylan assentiu com um movimento rígido de cabeça.
— Ele é o Agente Encarregado da Divisão de Homicídios do FBI, senhorita. Qualquer caso de alta gravidade sob investigação federal ele tem o poder de avocar para si.
Assenti com um leve aceno, mantendo a minha expressão impassível.
— E a garota? Ela já falou alguma coisa? Abriu aquela boca grande?
— Eu não temo a inteligência daqueles policiais. As minhas mensagens para ela sempre foram subentendidas, curtas, frias, quase monossilábicas. E se for estritamente necessário em um tribunal, eu posso simplesmente alegar que aquela mentirosa estava se aproveitando da minha antiga amizade e da minha extrema benevolência… — falei em um tom teatral, colocando a mão sobre o peito. — …para tentar se safar de uma acusação grave e jogar a culpa dos próprios crimes em mim. E claro que sairei limpa, já que quem mentiu sobre o bebê foi ela, e que empurrou a copeira também. Ela não tem moral contra mim.
Dylan assentiu com a cabeça, mas a hesitação estampada em suas feições deixou claro que ele não concordava com a minha ingenuidade jurídica.
— Quer me dizer mais alguma coisa, Dylan? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
Ele me encarou por alguns segundos torturantes antes de responder.
— O que conseguimos limpar, nós limpamos com perfeição, senhora… Mas o celular do segurança executado nos fundos da propriedade ainda não foi localizado pela nossa equipe. E os nossos informantes me relataram que, minutos antes de o nosso homem cumprir o serviço de queima de arquivo, o rapaz estava na companhia da namorada.
— E o que isso significa, Dylan?
Ele fez uma pausa antes de responder.
— Que a moça está foragida. E pior, ela está com o celular dele.

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