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O CEO de Gelo e a Mulher Que Ele Jurou Odiar romance Capítulo 249

Capítulo 249 — O Peso do Passado

Katlyn Pratt

O cheiro de éter e desinfetante hospitalar parecia impregnado nas paredes frias daquele corredor. A placa luminosa sobre a porta dupla do centro cirúrgico continuava acesa em um vermelho incandescente, uma sentinela muda que contava os minutos da vida do Bruno.

Eu não conseguia ficar sentada nas longas fileiras de cadeiras plásticas. Andava de um lado para o outro, sentindo o curativo na minha têmpora repuxar a cada passo acelerado e o corpo inteiro doer pelo resquício dos golpes do Estevan.

Minhas roupas ainda carregavam marcas escuras do sangue do Bruno. Toda vez que eu olhava para as minhas próprias palmas, tinha a impressão de sentir a pele dele esfriando sob os meus dedos.

— Katy! — uma voz feminina e afoita cortou o zumbido do corredor.

Virei o corpo em um solavanco e vi as quatro vindo em passos rápidos na minha direção. Taylor vinha na frente, com o casaco aberto e o olhar afiado varrendo o meu corpo de cima a baixo; logo atrás, Emma, Fernanda e Aubrey pareciam ter corrido uma maratona para chegar até ali.

Taylor praticamente se jogou sobre mim, envolvendo os braços fortes ao redor dos meus ombros com uma firmeza que quase me fez perder o equilíbrio.

— Graças a Deus, meu gasparzinho! Graças a Deus você está inteira!

Fernanda tocou meu rosto com os olhos marejados, examinando o curativo e a boca machucada com uma delicadeza que fez meu peito apertar de vez.

— Meu Deus, Katy… Você está com dor? O que fizeram com você naquele lugar?

— Eu estou bem, Fer… Os médicos já me examinaram, a tomografia não deu nada grave — minha voz saiu em um fiapo rouco, os olhos voltando involuntariamente para as portas duplas fechadas. — Mas o Bruno… O Bruno está lá dentro há horas. Ele perdeu muito sangue. A bala estilhaçou a articulação do ombro dele e eles tiveram que abrir às pressas.

Emma colocou a mão no meu braço, notando o tremor incontrolável dos meus dedos.

— Vem cá, amiga. Você não pode ficar em pé desse jeito no meio desse vaivém. Tem uma sala de espera reservada para as famílias logo ali no canto. Vamos para lá, você precisa se sentar e respirar um pouco.

Aubrey pegou a minha mão fria e as quatro me conduziram com cuidado pelo corredor até uma pequena sala com sofás confortáveis, luz baixa e uma porta de vidro fosco que nos isolava do movimento frenético dos enfermeiros e médicos.

Assim que me sentei no estofado, afundei o rosto nas mãos e deixei os soluços contidos escaparem pela primeira vez com força total.

Fernanda sentou-se à minha direita, me abraçando de lado, enquanto Taylor puxou uma cadeira para a minha frente, sentando-se com os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar atento cravado em mim. Emma me alcançou um copo de água mineral e Aubrey se sentou no braço do sofá, acariciando os meus cabelos com ternura.

— Bebe um pouco, Katy — Emma pediu baixinho. — Bebe devagar.

Tomei dois goles pequenos apenas para molhar a garganta seca.

— Eu achei que ele fosse morrer ali na minha frente… — confessei, encarando o fundo do copo de plástico descartável com o peito subindo e descendo em descompasso. — Ele desmaiou bem na minha frente. O sangue não parava de sair… Eu tentava segurar com as minhas duas mãos, mas parecia inútil. Era muito sangue.

— O Dominic me contou por telefone — Taylor disse, a voz mais calma do que o habitual. — Mas aquele crertinão é feito de ferro, Katy. Ele é o agente mais casca-grossa da equipe do Dom. Não vai ser um tiro de um engomadinho mimado que vai derrubar o Coletti.

Limpei o rosto com as costas da mão, sentindo o lábio partido arder com o sal das lágrimas. A imagem dos últimos segundos antes do Bruno apagar me veio à mente com uma intensidade tão viva que as minhas bochechas arderam em calor.

— Antes dele desmaiar… Eu perdi completamente a cabeça.

As quatro pararam no mesmo segundo, me encarando com curiosidade.

— Como assim, amiga? — Aubrey perguntou, tombando a cabeça para o lado.

Engoli em seco, sentindo a vergonha disputar espaço com a dor dentro do meu estômago.

— Ele estava quase apagando, e eu… eu não sei o que deu em mim. Eu olhei para ele, vi a vida dele escapando por minha causa e simplesmente… Eu beijei ele.

Um silêncio de dois segundos tomou conta da pequena sala antes que o caos feminino se instalasse.

Aubrey arregalou os olhos verdes, levou as duas mãos à boca e soltou um gritinho abafado de pura empolgação.

— AI, MEU DEUS! VOCÊ BEIJOU O FEDERAL?!

— Mentira! — Taylor berrou, abrindo um sorriso imenso e batendo uma palma estalada no ar. — Eu sabia! Eu sabia que a loira tinha fogo na roupa! No meio do tiroteio, com sangue para todo lado e você lascou um beijo no cretino?! Minha aluna perfeita, caralho!

— Taylor, modera essa língua, estamos em um hospital! — Emma repreendeu rindo, com os olhos brilhando de surpresa. — Mas nossa… Isso foi corajoso demais, Katy.

Fernanda deu uma risadinha doce, apertando o meu ombro.

— E o que ele fez? Ele correspondeu?

— A Emma tem toda razão — Aubrey interveio com doçura, apertando os meus dedos. — Tudo na vida é uma questão de tempo, amiga. Tempo para as feridas fecharem, tempo para a poeira baixar e, principalmente… tempo para você aprender a se perdoar pelos erros do passado. Você se cobra demais, Katy.

As palavras da Bree me desarmaram, fazendo um soluço doído escapar dos meus lábios. Eu tentava respirar, mas a sensação de culpa era física, pesada, quase palpável.

Foi aí que Taylor se ajeitou na cadeira, respirou fundo e me encarou com uma seriedade rara, despida de qualquer deboche ou ironia.

— Agora você vai calar a boca e vai me ouvir muito bem, loira — Taylor começou, a voz cortando o ar da sala com uma firmeza avassaladora. — A vida é feita de escolhas, Katlyn. Ponto final. No passado, você era uma garota imatura, insegura e tomou uma sucessão de escolhas péssimas. Você errou com o Ambrose? Errou, e errou feio pra caralho. Gerou sofrimento, causou dor e gerou um trauma nele sim. Ninguém aqui vai passar a mão na sua cabeça e fingir que você foi santa. Mas adivinha só? Ele era um homem adulto, ele superou, ele reconstruiu a vida dele e hoje é o homem mais feliz do mundo ao lado da Fernanda. Aquele ciclo fechou!

Engoli em seco diante da franqueza nua e crua da Taylor, mas ela não parou.

— E você não tem o direito de comparar o que aconteceu lá atrás com o Coletti hoje. Eu conheço aquele federal melhor do que a maioria das pessoas. O que aconteceu naquela serra foi pura e exclusivamente opção dele! Ele optou por ir atrás de você. Ele optou por invadir aquela propriedade na linha de frente. Ele optou por peitar o meu marido e não vestir a porra do colete balístico para ter cem por cento da agilidade e do tempo de resposta para tirar você da mira daquele desgraçado! Tudo o que ele fez foi uma decisão consciente, calculada e pessoal de um homem treinado que escolheu proteger a mulher que ele decidiu que é dele.

— Mas a escolha dele foi motivada por mim, Taylor! — gritei em um fiapo de voz, as lágrimas escorrendo livres. — Ele estava lá por minha causa! E isso quase custou a vida dele! Exatamente como a escolha do Ambrose lá atrás em continuar insistindo comigo foi porque eu fui covarde demais para mandar ele parar! Eu levei o Ambrose àquele limite, e hoje eu empurrei o Bruno até o limite da morte! O ponto em comum em toda essa destruição sou eu! Eu sempre sou a culpada! No fundo… no fundo eu sou culpada até pelo que o Estevan fez comigo! Se eu não tivesse assinado aquele contrato maldito, se eu tivesse cancelado tudo no começo, nada disso teria acontecido!

— PARA! — Fernanda interveio, a voz subindo de tom pela primeira vez, com os olhos faiscando de revolta. — Não ouse dizer isso de novo, Katlyn! O Estevan era um psicopata, um criminoso sádico e escroto! Absolutamente nada do que você viveu, nada do que você sofreu e nenhuma marca que aquele monstro deixou no seu corpo foi culpa sua! Você foi a vítima de um predador doentio. Colocar a responsabilidade da maldade dele nas suas costas é aceitar a mentira que ele passou meses enfiando na sua cabeça para te destruir!

— A Fer está coberta de razão — Taylor reforçou, gesticulando com as mãos. — O Bruno é um dos melhores agentes da divisão de operações especiais do FBI. Se ele agiu daquela forma imprudente e visceral, é porque ele sabia perfeitamente dos riscos e calculou que valia a pena pagar o preço para te ver respirando. E quanto ao Ambrose? O Ambrose já seguiu em frente, Katy. Ele já esqueceu o que aconteceu há muito tempo.

Soltei uma risada curta, rascante e completamente desprovida de humor, balançando a cabeça devagar enquanto secava o queixo molhado.

— Eu sou grata… Eu sou eternamente grata a cada uma de vocês por estarem aqui comigo. E sou grata ao Ozzie por ter me estendido a mão quando eu não merecia nem o olhar dele. Mas esquecer… esquecer não é o mesmo que perdoar, Taylor.

As quatro ficaram em silêncio, me observando com olhares pesarosos.

— O Ambrose é um homem nobre — continuei, sentindo as lágrimas voltarem com um peso ainda mais cruel. — Ele encontrou o amor da vida dele na Fernanda, construiu um futuro lindo e simplesmente decidiu deixar tudo de lado. Ele engoliu a mágoa do passado para conseguir seguir a vida dele em paz. Mas no fundo… eu sei que ele nunca me perdoou de verdade. Eu sei o quanto fui desprezível com ele. E mesmo que eu tenha me arrependido de joelhos, mesmo que eu carregue essa vergonha na minha alma todos os dias… ele nunca, em momento nenhum, me deu o seu perdão.

A sala mergulhou em uma quietude absoluta. O único som era o da minha respiração entrecortada pelo choro.

Foi então que com uma voz mansa, rouca e firme cortou o silêncio:

— Eu te perdoo, Katlyn.

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