Capítulo 198 — A Lógica de uma Princesa
Ellie Anderson
Eu não me lembro da voz do papai, e nem do cheiro da mamãe. Na verdade, a Ellie só lembra do rostinho deles dois porque a Em deixa uma foto bem bonita de nós quatro na cabeceira da nossa cama.
Mas a Ellie lembra perfeitamente da voz do tio Dam. Quando ele tá bravo, a voz dele é alta e parece som de trovão no céu; mas quando ele tá feliz, a voz dele fica rouca no final de cada palavra, e é muito engraçado.
Eu lembro também do cheiro da Em. Ela tem um cheiro doce, bem gostoso… É estranho, mas eu já tive vontade de comer o cabelo dela uma vez só para saber se tinha o mesmo sabor do cheiro! Só que, quando ela me viu colocando os fios dourados na boca, chamou a minha atenção bem séria e me fez rir.
Eu lembro de cada pedacinho do rosto da Em: ela tem os olhos azuis que me acalmam e tem também um narizinho pequeno que é igualzinho ao meu. Ela passa sempre o nariz pelo meu rosto antes de me abraçar bem forte e falar: “Te amo, minha pequena…”
O tio Dam também tem os olhos azuis bem bonitos. A Ellie adoraaaa acordar de manhã e ver ele olhando para mim na cama, sorrindo e dizendo: “Bom dia, minha princesinha…”
Mas agora… eu vou ter que esquecer a voz deles. Vou ter que esquecer o rosto deles, o sorriso da Em que dá uma vontade gigante na Ellie de sorrir junto, e o colinho do tio Dam, que é o colinho quentinho de um papai de verdade.
Porque… porque agora eles vão ter um bebê. Um não, dois bebês de uma vez só! E os bebês vão ter um papai e uma mamãe para eles.
E o Luquinha? A Ellie ama ele muito, muito, muito! Mas ele também vai ter dois bebês na casa dele. E a Ellie… a Ellie não vai ter ninguém. Porque a Ellie não tem mais papai, não tem mais mamãe, e a Emma não vai mais poder ser a irmã da Ellie… ela vai ser a mamãe dos bebês e do Luquinha. E o tio Dam agora vai ter dois filhinhos de verdade, e a Ellie… a Ellie vai ficar totalmente sozinha.
As lágrimas já estavam molhando todo o peito do meu vestido colorido. Olhei ao redor e percebi que já não sabia mais como tinha chegado até ali. Eu fiquei muito, muito triste quando ouvi o tio Dam falar dos bebês no café da manhã.
Eu ia gostar de ajudar a cuidar de dois bebês; eu sou muito boa nisso! Eu ajudo a tia Sa e a tia Tay a cuidarem da pequena Arianna, e ela parece até uma das bonecas bonitas que o tio Dam me deu de presente.
Mas eu fiquei triste porque percebi que não vou mais ter uma família de verdade. A tia Sa me disse um dia desses que, quando as pessoas se casam e têm filhos, ali elas formam uma família…
Então a Emma vai ter a família dela, e o tio Dam não vai poder mais chamar a Ellie de princesinha e nem me pegar no colo de manhã. Ele não vai mais entrar no meu quarto para dizer “vamos tomar café, minha princesinha”.
A Emma não vai poder mais contar histórias de princesas para a Ellie antes de dormir porque vai ter que ficar cuidando dos dois bebês. E o Luquinha… ele nem vai amar mais a Ellie.
Não! O Luquinha vai me amar sim! Porque eu disse bem brava para ele me amar sempre! E ele sempre obedece a Ellie… Ou será que agora ele só vai obedecer os bebês?
Minhas perninhas já estavam ficando muito cansadas de andar. Eu não pensei que a floresta atrás da mansão fosse tãooo grande assim! Eu saí de fininho por debaixo da mesa e quando cheguei lá fora não deixei nenhum daqueles tios altos vestidos de preto me verem, mas agora a Ellie já estava se arrependendo bastante de ter entrado no meio das árvores.
Olhei de novo ao redor, cravando a mãozinha no queixo para pensar:
— A Ellie veio dali… — apontei com o dedinho para o espaço entre duas árvores grandes. — Ou foi dali? — apontei para outras duas árvores do outro lado. — Ah, não… A Ellie não sabe mesmo de onde veio!
Cruzei os meus braços, ficando brava e irritada comigo mesma por não conseguir lembrar do caminho. Por que a Ellie saiu para a floresta mesmo? Ah, lembrei! Porque eu estava muito, muito triste lá dentro. É isso. Mas o que foi que eu vim fazer aqui no meio do mato?
Sentei no chão de folhas secas e comecei a chorar de novo, cobrindo o rosto.
— Eu vim aqui para ninguém ver a Ellie chorando… — falei bem baixinho para mim mesma. — Mas agora eu tô perdida… e ninguém vai me achar nessa floresta tão grande!
Puxei minhas perninhas pro meu peito, encostei a minha cabeça nos joelhos e não consegui parar de chorar. Eu estava completamente perdida.
De repente, ouvi o barulho de um passarinho cantando em um galho em cima de mim. Levantei a cabeça, limpei os olhos com a manga do vestido e olhei para o bichinho.
— Você pode me levar de volta até a casa do tio Dam?
O passarinho só assobiou para mim.
— Isso por acaso é um sim, senhor passarinho?
Ele assobiou de novo, bem rápido.
— Essa nossa conversa está muito difícil, senhor passarinho! — falei, brava. — Vamos fazer assim: quando eu perguntar uma coisa, você responde só sim ou não, tá bom?
Ele deu mais um assobio curto. Soltei o ar, desanimada.
— Então vai ser diferente, senhor passarinho. Você faz fiu-fiu para 'sim' e fiuuu-fiuuu para 'não', combinado?
Ele cantou de novo e eu olhei para ele bem confusa.
— Isso foi um fiu-fiu ou um fiuuu-fiuuu? A Ellie não entendeu nada! — falei, sentindo as minhas lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto outra vez.
O senhor passarinho bateu as asas e começou a voar alto. Fiquei de pé num pulo e comecei a correr atrás dele pelo mato.
— SENHOR PASSARINHO! NÃO DEIXA A ELLIE, POR FAVOR!!
Comecei a correr sem parar entre os troncos. Por todo lado que eu olhava só tinha árvores gigantescas, e elas eram tão grandes e fechadas que eu nem conseguia ver o sol direito no céu.
— SENHOR PASSARINHO!! — gritei bem alto, e o senhor passarinho apareceu voando perto. Pelo menos parecia com ele… ou talvez fosse um irmão dele.
Os meus soluços começaram a ficar muito altos e ecoar pela mata.
— EMMA!! — comecei a gritar com toda a força do meu peito. — TIO DAM!!
Gritei e gritei até a minha garganta doer, mas ninguém veio. Ninguém me ouviu.
O senhor Passarão desceu do galho alto com um rasante e pousou no chão, bem ao meu lado. Ele era realmente enorme! Eu me encolhi todinha, com medo de ele me machucar.
Mas ele só ficou ali do meu lado, me encarando com o olho brilhante, como se estivesse me perguntando o que uma garotinha fazia ali sozinha.
— Eu fugi… porque não queria que ninguém visse a Ellie chorando. — expliquei para ele, fungando.
Ele tomou a cabeça de lado, como quem pergunta o porquê.
— Eu fiz isso porque… porque eu estava muito triste, e eles estavam tão felizes lá na mesa! E a Emma sempre diz que a gente tem que ficar feliz pelas pessoas que a gente ama… Mas… mas a Ellie não conseguia ficar feliz de jeito nenhum!
O Passarão não falava nada, mas era um ouvinte muito atencioso.
— A Ellie tá com muito medo, Passarão… Não é só do machucado no joelho e nem da floresta escura… — as lágrimas continuavam caindo sem parar. — A Ellie tá com medo de ficar sozinha de novo… Antes era só a Ellie e a Emma, porque o papai e a mamãe viraram estrelinhas no céu. Depois a gente foi morar com o Luquinha, com o tio Dam e com mais um monte de gente legal.
Apertei a minha boquinha com a mão para segurar o soluço forte.
— Mas agora eles vão ter dois bebês… — fiz o número dois com os dedinhos para ele ver como era bastante gente. — E aí eles vão formar uma família completa. E… e família é só o papai, a mamãe e os filhinhos deles… E a Ellie não é filhinha de ninguém!
Voltei a chorar forte, cobrindo os olhos. Olhei para cima e vi que o céu entre as folhas já estava ficando escuro, com a noite chegando.
— Passarão… você pode ficar aqui com a Ellie? Por favor… eu não quero ficar sozinha no escuro!
Puxei a minha perninha de novo, mas não consegui soltar do espinho. Eu desisti. Olhei lá para o alto do céu e, bem longe, entre os galhos, vi uma pontinha de luz de uma estrela acendendo. Pensei que pudesse ser o meu papai… Ou talvez eu só quisesse muito, muito mesmo que fosse ele ali me olhando.
— Papai… — chamei em um fio de voz fraco, olhando para a luzinha. — O senhor pode chamar o tio Dam para mim?… Por favor. Mesmo se ele já tiver os filhinhos dele…
O Passarão deu uma bicada no chão e comeu um bichinho que estava rastejando nas folhas. Olhei para a escuridão das árvores ao redor, sentindo o frio da noite começar a bater no meu vestido, e chamei do fundo da minha alma:
— Tio Dam… vem buscar a sua princesinha…

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