Aelyn
O carro cheirava ao perfume dele.
Eu nunca tinha prestado atenção nisso antes, ou tinha prestado e escolhido não registrar, que era uma distinção importante, mas agora, sentada no banco do passageiro com a cidade passando do lado de fora e a música baixa no rádio, era impossível não notar.
A conversa tinha começado estranha.
Aqueles primeiros dois minutos de quem sabe que precisa falar, mas ainda está calibrando o tom, testando se o chão era firme o suficiente para pisar. Eu tinha comentado sobre o trânsito. Ele tinha concordado. Eu tinha perguntado se ele tinha comido alguma coisa desde o almoço. Ele tinha dito que não, que tinha esquecido.
E então alguma coisa tinha cedido.
Eu não soube identificar o momento exato, foi gradual, daquele jeito que as coisas mudam quando você para de tentar controlar e deixa acontecer. A conversa foi ficando mais natural, mais leve, daquele tipo que flui sem que ninguém precise empurrar.
Ele me contou sobre um caso complicado que tinha fechado na semana anterior. Eu contei sobre uma paciente que tinha aparecido na clínica depois de dois anos, dizendo que finalmente tinha se reconhecido no espelho.
Ele me ouviu com aquela atenção toda que eu tinha aprendido a reconhecer como completamente dele, aquele silêncio de quem está realmente presente e não só esperando a vez de falar.
O peso tinha sumido.
Ou estava mais leve, pelo menos, do jeito que era quando éramos crianças inocentes e o peso do mundo não nos inundava.
Olhei para a janela.
A cidade tinha ficado para trás há alguns minutos, e a paisagem estava mudando, menos prédio, mais verde, aquela abertura que acontece quando você sai do centro e o horizonte começa a aparecer de verdade.
"Onde você está me levando?"
Ele sorriu de lado, aquele sorriso que eu conhecia, que eu tinha memorizado sem querer ao longo de anos.
"É uma surpresa."
"Felipe."
"Confie em mim, eu disse que te levaria a um lugar mágico."
"Pelo visto, é bem longe da cidade."
"É." Ele me olhou rapidamente antes de voltar para a estrada. "É um pouco mais afastado. Mas vale cada minuto, eu prometo."
Fiquei olhando para ele por um segundo.
Para o perfil dele na luz de fim de tarde, para aquela postura relaxada que era diferente de como ele estava ontem, para aquele Felipe que estava fazendo tudo aquilo parecer mais leve do que eu esperava que fosse.
Estava mais bonito.
Eu não sabia se era o contexto ou se era algo que tinha mudado de verdade, mas havia algo diferente nele naquela noite, menos armadura, mais presente, daquele jeito de quem tomou uma decisão e está em paz com ela.
"Eu confio em você", eu disse.
Ele me olhou.
"Em quem eu não confio é em mim mesma", acrescentei, antes de pensar.
Ele ficou quieto por um segundo.
"Por quê?"
Porque você está diferente e eu estou completamente inebriada, e se você sorrir mais uma vez daquele jeito, eu não respondo pelo que faço.
"É só uma sensação que estou sentindo. Não sei explicar o motivo." eu disse.
Ele não insistiu.
Mas o sorriso de lado apareceu de novo, aquele que me dizia que ele tinha entendido mais do que eu tinha dito, e eu olhei para a janela antes que o meu rosto entregasse o resto.
Quando o restaurante apareceu na curva da estrada, eu parei de respirar por um segundo.
Não era o tipo de lugar que aparece em listas de recomendação, era o tipo que você encontra quando está procurando algo específico, quando sabe exatamente o que quer e pesquisa até achar.
Uma estrutura baixa quase escondida pela vegetação, com aquelas luzes quentes que tornavam tudo âmbar, e por fora já era possível ver as plantas por toda parte, trepadeiras nas paredes, vasos suspensos, aquele tipo de jardim que não parece decoração porque parece crescido de verdade.
"Felipe..."
"Eu disse que valia a pena."
Entramos, e foi ainda melhor por dentro.
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