Aelyn
O banheiro era tão bonito quanto o resto do lugar.
Claro que era. Num restaurante assim, até o banheiro tinha plantas nas paredes e aquela iluminação que fazia qualquer pessoa parecer bem descansada, mesmo quando não estava.
Me olhei no espelho por um segundo antes de atender.
Estava radiante.
Não era maquiagem, era aquela outra coisa, aquela que aparece quando você está bem de um jeito que o corpo decide demonstrar antes que você autorize. Os olhos mais vivos, as bochechas com aquela cor que eu não tinha colocado lá.
Atendi.
"E aí?" A voz do Luciano chegou com aquele tom de quem está se divertindo à distância. "Quer que eu te busque ou vai me dar um bolo?"
Eu ri.
"Nunca na vida que você vai me buscar." Encostei-me na pia, olhando para o meu reflexo. "Estou num lugar mágico com ele, Luciano. Estou sem palavras. É tudo perfeito, de verdade."
"Perfeito como?"
"Ele pesquisou. Encontrou um restaurante temático, imersivo, com plantas por todo lado e pratos com história e..." Parei, porque estava sorrindo demais para continuar sendo articulada. "Ele me conhece. Isso foi tudo pensado pra mim."
"Meu Deus", o Luciano disse.
E então outra voz chegou por cima da dele.
"Amiga." O Tales. "Não cai na dele, hein. Lembre-se de que você está aí só como amiga. Nada de romance ainda. Temos que educar seu boy."
"Exatamente", o Luciano confirmou.
"Eu sei, eu sei." Olhei para o teto. "Mas está difícil. Essa versão do Felipe é a melhor de todas. Eu estou quase cedendo."
"NÃO."
Os dois gritaram ao mesmo tempo.
Eu explodi em risada, daquele tipo que você tenta segurar no banheiro de um restaurante bonito e não consegue de jeito nenhum.
"Vocês dois são demais", eu disse, quando consegui falar de novo.
"É por amor", Tales disse.
"Ok." O Luciano voltou ao modo estrategista. "Vamos fazer assim. Você volta lá e fala que conseguiu mais um tempinho para ficarem ai. Eu vou ligar a cada quinze minutos."
"Luciano..."
"Vamos perturbar a vida de vocês. Quero ver até onde ele aguenta."
Olhei para o meu reflexo no espelho, para aquela versão de mim que estava visivelmente feliz e tentando não demonstrar o quanto.
"Ok", eu disse. "Mas se eu não atender..."
"A gente vai ter que se conformar", ele completou, com aquele sorriso que eu ouvia mesmo sem ver. "A gente sabe. Mas aguente firme, você está quase lá."
"Obrigada por tudo, vocês são demais."
"Se cuida, e se for o caso, use camisinha."
Desliguei no mesmo momento, em choque com a última palavra dele. Eu não tinha pensado em nada disso. Não que eu não quisesse, mas... não... ainda não, né?
"Meu Deus o que eu to fazendo?" fiquei um tempo olhando para a parede do fundo, antes de me virar e olhar para o espelho e para a corrente que ele tinha me dado, ela termnava bem em cima de onde começava a minha cicatriz.
Mesmo depois de vários procedimentos, ela ainda era bem aparente.
Eu não tinha vergonha dela, era a minha vitória, a forma que meu irmão me deu para eu continuar vivendo. Mas... eu nunca soube o que o Felipe pensava dela.
Ele nunca disse.
Dei uma última olhada no espelho, tentando afastar aquela insegurança, endireitei o coque frouxo, verifiquei a corrente, respirei e voltei para a mesa.
Felipe estava olhando para o cardápio de sobremesas quando me sentei, mas levantou o olhar imediatamente.
"Está tudo bem?"
"Está." Me acomodei. "Desculpa por isso. Eu tinha combinado algo com o Lu, mas ele entendeu. Podemos ficar mais um pouco."
Ele fez uma careta.
Não foi discreta, foi daquele tipo que escapa quando você não está completamente no controle da expressão, aquela que diz mais do que a pessoa pretendia.
"Depois da sobremesa tem um tour pela propriedade", ele disse, com aquela voz casual que não era casual. "Não acho que vamos conseguir fazer isso correndo."
Inclinei a cabeça de lado.
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