Branca
Acabei de fazer 80 anos.
Sentada na minha velha espreguiçadeira, no jardim da casa que Cássio e eu construímos há uma vida inteira, observo a luz dourada do fim da tarde escorrer entre as árvores. O vento balança os galhos com delicadeza, trazendo o perfume doce do jasmim que plantei quando Aelyn ainda era uma menininha correndo descalça pelo quintal.
Às vezes parece que foi ontem. Outras vezes, parece que vivi mil vidas.
Ao meu lado, sobre a mesinha de madeira, fotografias antigas contam nossa história sem precisar de palavras. Rostos sorridentes. Abraços congelados no tempo. Instantes que se recusaram a desaparecer.
O amor. As perdas. Os recomeços.
Passo os dedos sobre uma das fotos e sinto o peito apertar com uma ternura antiga.
Lembro do dia em que perdi meu Pedro. A dor foi tão profunda que pensei que nunca mais conseguiria respirar sem ela. Mas a vida, com sua teimosia generosa, encontrou um jeito de me devolver um pedaço dele.
Então Aelyn chegou.
Primeiro como a garotinha que ganhou o coração do meu filho. Depois como a filha que conquistou o meu.
Eu a vi lutar pela vida desde os seis anos. Vi sua força quando o mundo parecia querer derrubá-la. Vi o medo em seus olhos quando carregava um milagre no ventre e seu coração ameaçava parar. E, mesmo assim, ela venceu.
Hoje, quando olho para ela, vejo fios grisalhos entre os dourados, marcas sutis do tempo e um sorriso que ainda ilumina qualquer lugar onde entra. Minha menina. Minha filha. Meu milagre.
Pedro, meu neto, já tem trinta e seis anos. Um homem feito, alto como o pai, com o sorriso doce da mãe. Seguiu os passos de Felipe na advocacia e construiu sua própria história. Casou-se ano passado com uma moça encantadora e em breve me dará bisnetos.
Serena, minha filha mais nova, encontrou seu caminho com a mesma determinação de sempre. Tornou-se juíza, como o pai e o tio, mas à sua maneira, teimosa, vibrante, impossível de conter. Ao lado dela está Guilherme Rossi, o único homem capaz de acompanhar o furacão que ela sempre foi. Juntos, tiveram Calvin e Carolina, que enchem a casa com o mesmo barulho alegre que Serena fazia quando era pequena.
André, meu irmão querido, também fez parte de toda essa história. Quando nossa mãe faleceu, ele ficou profundamente abalado. Foram meses difíceis, de silêncio e saudade. Mas, como sempre fizemos enquanto família, transformamos a dor em memória viva. Laís esteve ao lado dele em cada passo, com paciência e amor. Hoje, mesmo com os cabelos brancos, André continua sendo o pilar sereno que sempre foi, presente nos aniversários, nos jantares de domingo e em todos os momentos importantes.
E Sophia… minha linda sobrinha. Casada com Rangel, seu amor da adolescência Eles tiveram gêmeos, Anthony e Gabriel, dois meninos idênticos, cheios de energia e do charme do pai. Rangel se aposentou da delegacia há pouco tempo e ainda olha para Sophia como se ela fosse o centro do universo. Ela, por sua vez, continua sorrindo para ele como a adolescente apaixonada que nunca deixou de ser.
Enquanto observo todos reunidos no jardim , rindo, conversando, vivendo, percebo algo que levei décadas para entender.
Nada aconteceu como planejamos. Nada.
A vida nos desviou inúmeras vezes. Levou pessoas que amávamos. Quebrou nossos corações. Nos obrigou a recomeçar quando não queríamos. E, mesmo assim, nos trouxe exatamente para onde precisávamos estar.
Cássio aparece ao meu lado, como sempre faz. Traz um copo de chá gelado e se senta na cadeira ao meu lado. Aos oitenta e nove anos, seus cabelos estão completamente brancos, mas para mim ele continua sendo o homem mais bonito que já conheci.
"Sonhando acordada outra vez?", pergunta, com aquele sorriso que nunca mudou.
Dou uma risada baixa.
"Talvez."
Ele segura minha mão. O mesmo gesto. Depois de tantos anos. A mesma sensação de estar em casa.
"Estava lembrando da nossa vida", digo.
Seu polegar acaricia meus dedos enrugados.
"Foi uma boa vida."
Sorrio.
Não. Boa não era a palavra certa.
Penso em todas as noites em claro. Nas lágrimas. Nos medos. Nas despedidas que quase nos destruíram. Penso em Felipe dormindo no chão do hospital, em Aelyn lutando para sobreviver, no vazio deixado pelo meu Pedro.

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