Felipe
Às duas da tarde, eu já tinha desistido de fingir que estava trabalhando.
Fechei a última pasta, avisei a assessora que ia encerrar o dia mais cedo, e ignorei o olhar dela, que dizia que ela sabia exatamente o que estava acontecendo, mas que tinha profissionalismo suficiente para não comentar.
Saí do escritório com aquela leveza específica de quem tomou uma decisão e está em paz com ela.
O apartamento estava quieto quando cheguei.
Me sentei no sofá com o celular na mão e comecei a pesquisar.
Não ia ser na cidade, isso eu tinha decidido antes de abrir qualquer site. Na cidade havia Luciano, havia possibilidade de ele aparecer, havia o relógio contando o tempo até ela precisar ir embora para o compromisso seguinte. Eu não queria relógio. Não queria compromisso seguinte. Queria um lugar onde o tempo funcionasse diferente, onde ela pudesse ficar imersa e esquecer que havia outras coisas esperando.
Queria um lugar que ela nunca tivesse ido comigo.
A Aelyn amava a natureza. Amava coisas diferentes, aquelas experiências que saem do óbvio, que têm alguma coisa que você não esperava encontrar. Eu sabia isso de anos, de cada viagem de família, de cada conversa em que ela descrevia com aquele entusiasmo específico dela algum lugar que tinha descoberto.
Eu queria que ela olhasse para aquele lugar e pensasse que eu a conhecia.
Porque eu conhecia.
Melhor do que eu tinha admitido por muito tempo.
Pesquisei por quarenta minutos, abri e fechei abas, li avaliações, olhei fotos. Quando encontrei, soube antes de terminar de ler a descrição.
Era perfeito.
Reservei a mesa.
Olhei o horário.
E percebi que sair às oito seria ruim. Os melhores eventos da noite já estariam acabando quando a gente chegasse. Eu não queria perder nada, então mandei uma mensagem para ela.
'Vou te buscar às sete. Pode ser?'
A resposta veio rápido.
'Isso tudo é vontade de ficar a sós comigo? kkk ...Pode.
Ri de sua resposta, mas sim, se eu pudesse, a gente saía agora mesmo, mas eu sabia que ela ainda estava trabalhando. Não ia interromper, mas, como eu disse. Desde que minha vida virou de cabeça para baixo, eu só queria estar com ela.
Fui tomar banho.
Quando saí do banheiro e olhei para o relógio, ainda faltava uma hora.
Sessenta minutos.
Três mil e seiscentos segundos.
Tentei sentar. Me levantei. Fui até a janela. Voltei. Peguei o celular, larguei, peguei de novo.
Não havia nada útil que eu pudesse fazer naquela hora que tornasse o tempo passar mais rápido, e ficar parado no apartamento estava claramente fazendo-o passar mais devagar.
Eu não conseguia mais ficar ali esperando, apenas decidi que se fosse para esperar, era melhor na casa dela do que na minha.
Peguei as chaves.
E fui.
***
A Serena abriu a porta.
Ficou parada por um segundo, aquele segundo específico de avaliação rápida que ela tinha herdado de algum lugar da família, e então abriu o sorriso mais largo que eu tinha visto nela em muito tempo.
"Olha só", ela disse. "Finalmente."
"Fica quieta."
Ela riu, se afastando para me deixar entrar.
"Minha irmã ainda não está pronta." Ficou me olhando com aquela expressão. "E de verdade, você está gato demais, primo."
Eu a olhei.
"Você acha que ela vai gostar?"
Era uma pergunta idiota, eu sabia que era, mas saiu antes que eu pensasse direito.
A Serena me olhou como se eu tivesse dito algo que confirmava uma teoria que ela tinha há tempo.
"Se ela já gostava de você antes", ela disse, "imagina agora. Você foi lerdo demais."
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