Felipe
Acordei com o cheiro de café.
Não era incomum , o papai fazia café toda manhã, era uma das primeiras coisas que eu tinha aprendido sobre a rotina da casa. Mas havia algo diferente naquele café, ou talvez fosse o horário, mais cedo do que o normal, ou talvez fosse o silêncio que vinha junto, um silêncio diferente do que eu estava acostumado.
Quando não se enxerga, todos os seus outros sentidos precisam suprir o que os olhos não veem, e isso treinou meu ouvido. Eu sempre presto mais atenção no que escuto do que no que vejo.
Fiquei parado na cama por um momento, prestando atenção.
Vozes lá embaixo. Baixas demais para entender as palavras, mas eu reconhecia os tons antes das palavras, aprendi isso antes de aprender qualquer outra coisa. A voz do papai tinha aquela cadência de quando ele está falando de algo que importa, devagar, escolhendo. A da mamãe estava diferente, mais rouca do que o normal, daquele jeito que aparece depois de choro.
Ela tinha chorado.
Me levantei, peguei uma camiseta, e desci.
A cozinha estava com aquela luz de manhã cedo que eu ainda estava aprendendo a reconhecer, mais suave, mais dourada do que a do meio-dia, entrando pelas janelas daquele jeito que eu tinha descoberto que era bonito só depois que comecei a ver.
Eles estavam abraçados perto da bancada.
Não me ouviram chegar, ou me ouviram e preferiram ficar assim por mais um segundo, que era o tipo de coisa que eu entendia. Fiquei parado na entrada da cozinha, observando.
Meu pai estava com o queixo em cima da cabeça dela, os braços ao redor das costas dela, daquele jeito que eu já sabia que significava que ele estava segurando ela e sendo segurado ao mesmo tempo. A mamãe tinha o rosto enterrado no peito dele.
Me aproximei devagar.
E quando eles se separaram e me viram, eu vi.
Ainda estava aprendendo a ler rostos, havia tanto para aprender, tantas expressões que eu tinha construído pela voz e que agora precisava reconstruir pelos olhos, e às vezes as duas versões não eram idênticas de um jeito que me surpreendia. Mas aquilo eu reconheci.
Olhos vermelhos.
Bochechas úmidas.
Os dois tinham chorado.
Não era o choro de coisa ruim, aprendi essa diferença rápido, porque havia algo na postura deles, no jeito como estavam um perto do outro, que não era tensão. Era o outro tipo.
"Bom dia", eu disse, olhando de um para o outro.
"Bom dia", meu pai respondeu.
Minha mãe me olhou com aquela expressão que ela tem quando está tentando não demonstrar alguma coisa e não está conseguindo completamente.
Fui até a mesa, sentei, peguei uma torrada do prato que estava no centro, e fiquei mastigando devagar, olhando para os dois com aquela atenção que eu sabia que às vezes os deixava levemente desconfortáveis.
"O que aconteceu?", eu perguntei.
Eles se olharam.
Aquele olhar rápido de casal que é uma conversa inteira em meio segundo.
"Por que acha que aconteceu alguma coisa?", meu pai perguntou, com aquela neutralidade que era claramente estudada.
"Vocês dois choraram."
Minha mãe piscou algumas vezes.
"Como você..." ela começou.
"Os olhos de vocês estão vermelhos." Olhei para ela. "E sua voz está mais rouca do que de manhã normalmente." Me virei para o papai. "E você está com aquela expressão que você faz quando está tentando parecer calmo."
Eles me encararam por um momento e depois olharam-se tentando decidir o que fazer agora.
Ele me olhou com aquela expressão que eu tinha aprendido a reconhecer como orgulho misturado com aquela coisa que ele não conseguia nomear quando eu fazia alguma coisa que ele não esperava.
"Você percebe demais", ele disse.
"É um dos meus superpoderes", eu disse, de ombros, rindo. Tentando aliviar de alguma forma o que estava acontecendo ali. Mas de verdade, eu já estava ficando preocupado.
Minha mãe deixou escapar um riso pequeno, o que já me deixou mais tranquilo. Ela se limpou o canto do olho com o indicador e se sentou na cadeira do lado, de frente para mim.
"Felipe." A voz dela estava daquele jeito específico, aquele tom que ela usa quando vai me explicar algo importante. "Tem uma coisa que precisamos te contar."
Eu pousei a torrada no prato. Eu a tinha pego apenas para ocupar as mãos.
Papai veio se sentar também, do outro lado da mesa, e por um segundo nos três ficamos assim, ele e ela de frente para mim, eu olhando de um para o outro, tentando ler o que estava ali antes que as palavras chegassem.
Havia algo neles que eu não sabia nomear ainda.
Parecia que algo realmente grande tinha acontecido, mas não parecia ser uma coisa ruim. Parecia apenas que... que eles não sabiam como me explicar e comecei a ficar agoniado com a demora.
"Você sabe o quanto é importante para a gente, não sabe." Meu pai começou a dizer. "O quanto estamos completos desde que você chegou."
"Eu sei pai, mas aconteceu alguma coisa? Eu vou ter que voltar para o orfanato?" ele levantou da cadeira e disse.
"Nunca mais você vai voltar para lá. Não quero que pense nisso quando te chamarmos para conversar." olhei para ele e concordei.
"É que vocês estão fazendo suspense demais e eu... eu aprendi assim lá, que quando enrolam pra falar é porque pode ser uma coisa ruim." Minha mãe segurou minhas mãos com carinho.
"Aqui a gente enrola, por que não sabemos quais palavras usar. Nós somos pais novatos, dá um desconto pra gente." dei risada e papai me abraçou de lado.


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