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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 281

Laís

Acordei antes do alarme.

Antes do André, antes do Felipe, antes de qualquer barulho da casa. O quarto estava ainda naquele escuro de madrugada que vai cedendo devagar, e eu fiquei parada por um segundo com os olhos abertos olhando para o teto, tentando identificar o que tinha me acordado.

E então entendi.

O mesmo de ontem, aquela onda, daquele jeito que não avisa, que não negocia. Me levantei da cama num movimento rápido e fui para o banheiro com aquela urgência silenciosa de quem está tentando não acordar ninguém.

Fiquei ajoelhada por alguns minutos.

Quando passou, me levantei, lavei o rosto, e me olhei no espelho.

O André estava dormindo. Eu tinha visto quando passei pela cama, aquela respiração tranquila, o braço no travesseiro onde eu estava um minuto antes. Ele não tinha ouvido nada.

Preferi assim.

Saí do banheiro com cuidado, peguei uma roupa do armário no escuro, me troquei em silêncio, e fui até o corredor.

A porta do Felipe estava entreaberta. Espiei.

Ele estava dormindo de lado, o rosto relaxado daquele jeito que eu tinha aprendido a associar com paz, não a quietude de quem está contendo alguma coisa, mas a de quem está realmente descansando.

Fiquei olhando por um segundo.

E então desci.

A chave do carro estava no gancho da entrada onde sempre ficava.

Peguei, peguei também a bolsa no banco, e saí pela porta da frente tentando manter a calma, mas sabendo que o coração está na boca.

O ar da manhã estava frio daquele jeito específico de cedo, não o frio da noite, mas o outro, aquele que antecede o sol e que tem um cheiro próprio que eu sempre gostei. Entrei no carro, liguei o motor, e fui.

A farmácia mais próxima ficava há uns 5 minutos de casa.

As ruas estavam vazias naquele momento e minha cabeça ficava girando em torno da possibilidade cristalina em minha frente.

"Oi bom dia, posso ajudá-la?" ela questionou, e concodei

"Preciso de três testes de gravidez", eu disse, com aquela voz de quem está pedindo café.

Ela foi buscar sem pestanejar.

Três, eu tinha decidido no caminho. Não por desconfiança da marca, era por mim. Eu precisava de certeza. Precisava que os três concordassem, que não houvesse margem, que quando eu olhasse para aquele resultado não houvesse nenhuma brecha para dúvida.

"Mais alguma coisa?" neguei.

"Obrigada."

Paguei, coloquei na bolsa, voltei para o carro.

No caminho de volta, fiquei em silêncio.

Não porque não havia pensamentos, havia tantos que se cancelavam uns aos outros, cada um chegando antes que o anterior terminasse, e o resultado era aquele tipo de barulho interno que é indistinguível de silêncio.

E se fosse verdade?

E se não fosse?

Eu tomava anticoncepcional há anos. Sempre cuidadosa, sempre no mesmo horário, nunca esquecia. Não havia razão para ser verdade.

Mas o enjoo de ontem.

E o de hoje.

E aquela conta que eu tinha feito na cabeça na noite anterior e que não queria fazer de novo porque os números não mudavam por mais que eu tentasse.

Entrei na garagem e assim que abri a porta, a casa continuava quieta. Tudo igual a quando eu tinha saído.

O lavabo do andar de baixo era pequeno e eu gostava dele por isso.

Fechei a porta, coloquei os três testes em cima da bancada, li as instruções que eu já sabia de cor de alguma memória distante, e preparei os três potinhos com aquela concentração de quem está fazendo alguma coisa muito técnica e muito importante ao mesmo tempo.

Coloquei os testes.

E saí. Precisa de 5 minutos para ter certeza, e eu não podia ficar ali esse tempo todo, ou iria enlouquecer.

A cozinha estava fria e quieta quando entrei.

Fui até a pia, bebi um copo de água gelada, e fiquei parada por um segundo olhando para o nada.

Cinco minutos.

Eu podia fazer alguma coisa em cinco minutos.

Puxei a cadeira, sentei, e então me levantei de novo porque ficar parada não funcionava. Fui até a geladeira, abri, fechei sem pegar nada, abri de novo, e desta vez peguei os ovos, a manteiga, o pão de forma.

Se tinha cinco minutos, eu faria café da manhã.

Coloquei a chaleira para ferver, passei manteiga no pão, pus na torradeira. Separei as xícaras, duas grandes para mim e o André, a menor do Felipe. Coloquei o café no coador com aquele movimento automático de quem fez aquilo centenas de vezes.

Olhei o celular.

Três minutos.

Fui mexer os ovos na frigideira, fui colocar a fruta que tinha na fruteira, fui organizar os pratos na mesa com uma atenção que o café da manhã não precisava e que eu estava dando porque era a única coisa que segurava minha cabeça no lugar.

Olhei o celular de novo.

Cinco minutos.

Parei.

Desliguei o fogão, respirei fundo e então reuni a coragem que tinha fugido por algum motivo, e caminhei em direção ao lavabo.

Os três testes na bancada, alinhados, esperando.

281. Eu sabia 1

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