Branca
O hospital tinha aquele cheiro que eu conhecia de visitas, de consultas, daquelas noites em que a Serena resolvia me dar um susto e a gente acabava no pronto-socorro só para ouvir que estava tudo bem.
Mas dessa vez era diferente.
Dessa vez eu estava chegando de vestido de noiva.
A enfermeira que veio nos receber na entrada olhou para mim com aquela expressão de quem viu muita coisa no trabalho mas aquilo estava em outra categoria.
"A senhora é..." ela começou.
"Noiva", eu disse. "Minha filha achou que era um bom momento para nascer no meio da festa."
Ela piscou.
"Eles sempre sabem o melhor momento, mãezinha", ela disse, com uma profissionalidade admirável. "Vamos cuidar da senhora e da sua pequena."
O Cássio estava ao meu lado com aquela expressão de quem está tentando parecer controlado e não está conseguindo completamente, a mão na minha com uma firmeza que dizia mais do que qualquer palavra.
"Eu vou com ela", ele disse, como se alguém tivesse sugerido o contrário.
"Eu sei", eu disse.
"Não vou a lugar nenhum."
"Eu sei, Cássio."
"Só estou avisando."
"Eu sei, amor. Nós vamos ficar juntos o tempo todo."
A enfermeira nos guiou pelo corredor com aquela eficiência de quem faz aquilo todos os dias, e empurrando minha cadeira com cuidado.
O quarto de pré-parto era pequeno e claro.
Eles me ajudaram a me trocar. O vestido de noiva foi dobrado com um cuidado que eu apreciei mais do que esperava, aquela coisa de não querer que o dia ficasse amassado, mesmo que o dia estivesse claramente indo numa direção que ninguém tinha planejado, e quando me deitei na cama e a médica veio fazer a primeira avaliação, eu respirei fundo e tentei me lembrar de tudo que eu tinha vivido no nascimento do Pedro.
Parecia igual, mas era diferente. Hoje eu não tinha medo, como naquela época. Eu não estava sozinha, como estive quando tive o Pedro.
Serena tinha um pai presente, um pai amoroso e que estava quase infartando com toda a situação.
"Oito centímetros", a médica disse, com aquela calma profissional que eu invejei profundamente naquele momento.
"Oito?", o Cássio repetiu, do meu lado.
"Oito", ela confirmou. "Está bem avançada. Vamos preparar a banheira para o parto."
Ele me olhou.
Eu o olhei de volta.
"Eu disse que ela estava descendo", eu disse.
"Você disse que era alarme falso."
"Eu me enganei no tempo. O diagnóstico estava certo."
Ele ficou quieto por um segundo que era claramente ele pesando se aquela era a hora de continuar aquela discussão.
Não era.
Ele escolheu bem.
As contrações foram ficando mais próximas, mais longas, e nem a água da banheira ajudou. Eu tentava achar posição. Tentava achar um jeito de ficar mais confortável, mas não tinha como.
O Cássio ficou do meu lado o tempo inteiro, até o momento em que a médica disse que ele poderia entrar para me dar apoio.
O cuidado dele e a proteção foram reconfortantes. Saber que ele estava ali com a gente, me deixava mais calma de alguma forma, mesmo que a dor estivesse presente.
Quando foi mais difícil, quando a dor ficou daquele jeito que não tem descrição precisa, que é só grande e urgente e completamente presente, eu fechei os olhos e apertei a mão dele com força, que eu sabia que estava além do confortável.
Ele não reclamou nenhuma vez.
"Estou aqui, amor", ele disse, baixo, perto do meu ouvido. "Pode apertar."
"Já estou apertando."
"Pode apertar mais."
"Vou quebrar seus dedos."
"Não vai."
"Não tenho certeza disso."


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