Cássio
Eu me casei.
Estava de pé no meio do salão, com a minha esposa ao lado. Minha esposa, palavra que eu estava testando mentalmente com aquela estranheza boa de coisa nova e ainda estava processando que aquilo tinha acontecido de verdade.
Não que eu duvidasse. Nunca duvidei.
Era só que alguns momentos são grandes demais para entender de uma vez, e aquele era um desses.
"Você está bem?", a Branca disse, me olhando com aquele sorriso de canto que ela tem quando me pega perdido nos próprios pensamentos.
"Estou tentando absorver", eu disse.
"Absorver o quê?"
"Que agora você é a senhora Ravelli."
Ela ficou quieta por um segundo.
E então sorriu de um jeito que eu guardei imediatamente.
"Senhora Ravelli", ela repetiu, testando. "Vai precisar de um tempo para acostumar."
"Você tem o resto da vida."
"Que conveniente."
Eu a puxei pelo braço e a beijei ali mesmo, no meio do corredor entre o altar e a saída, antes que chegássemos à festa, antes que o mundo ao redor voltasse com toda a velocidade que eu sabia que ia voltar.
Ela riu dentro do beijo.
E eu guardei isso também.
O salão da festa estava diferente do da cerimônia, mais quente, mais barulhento, com aquela energia específica de quando muita gente que se gosta está num lugar só.
As mesas estavam dispostas ao redor da pista de dança central, com aquelas flores brancas e velas que a Branca tinha escolhido com uma precisão que eu tinha testemunhado de perto na véspera. No centro do teto, um lustre de cristal lançava pontos de luz por todo o ambiente. A banda estava no palco lateral, tocando algo suave enquanto as pessoas se acomodavam.
Entramos juntos, e eu ouvi quando o murmúrio da sala mudou, aquele som coletivo de quando as pessoas viram a noiva, que era diferente do som de quando viram qualquer outra pessoa.
Eu olhei para ela de lado.
Ela estava olhando para o salão com aquela expressão de quem está vendo o resultado de muito trabalho e permitindo para si mesma gostar do que vê.
"Ficou lindo", ela disse, baixo.
"Ficou", eu concordei. "Você deixou lindo."
Ela me olhou, sorrindo sem conter a emoção.
O mestre de cerimônias pediu atenção e anunciou a primeira dança dos noivos com aquela voz que carregava o salão inteiro, e eu ofereci a mão para ela com aquela formalidade que era meio brincadeira e meio não.
"Senhora Ravelli."
Ela colocou a mão na minha com aquela seriedade que também era meio brincadeira.
"Senhor Ravelli."
Fomos até o centro da pista.
A banda começou, uma música que ela tinha escolhido e que eu tinha ouvido tantas vezes nas semanas de preparativo que agora era impossível dissociar do seu rosto e eu coloquei a mão na cintura dela com aquele cuidado extra que a Serena exigia, que tinha se tornado automático.
Ela pousou a cabeça no meu ombro.
Dançamos devagar, sem pressa, enquanto o salão ao redor ficava quieto naquele silêncio específico de quem está observando algo que prefere não interromper.
"Está sentindo alguma coisa?", eu perguntei, baixo.
"Não." ela ergueu o rosto. "Por quê?"
"Você fez uma careta há pouco."
"Você estava me observando durante a cerimônia inteira?"
"Estou te observando desde que você entrou pelo corredor."
Ela levantou levemente a cabeça para me olhar.
"Estou bem", ela disse. "A Serena está ativa hoje. Deve ser a música."
"Ou o estresse."
"Ou a alegria." Ela encostou a cabeça de volta. "Deixa eu escolher alegria."
Deixei.
As fotos duraram mais do que eu esperava, que era o que sempre acontecia com fotos.
O fotógrafo era bom, sabia quando pedir pose e quando apenas registrar, e havia algo reconfortante nessa distinção. Fomos fotografados chegando, dançando, cortando o bolo, brindando com o André e a Laís. Todos os convidados também queriam um pedacinho de nós.
A Aelyn apareceu em metade das fotos sem que ninguém pedisse, simplesmente inserindo-se com aquela naturalidade que era completamente dela, e o fotógrafo claramente tinha desistido de controlar esse elemento e estava abraçando.
Em várias delas, ela estava ao lado do Felipe.



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