Branca
O espelho me devolveu uma imagem que eu ainda estava aprendendo a reconhecer.
Não era vaidade, era aquela sensação estranha e boa de ver a versão de você mesma que existe só em alguns momentos contados, aquela que aparece quando tudo está no lugar certo ao mesmo tempo.
O vestido era simples da forma certa. Justo até a cintura, onde abria levemente para acomodar a Serena que estava presente em tudo, na forma do tecido, no jeito que eu me movia, no modo como a Laís tinha insistido em mandar ajustar duas vezes até ficar perfeito.
"Está lindo", a Laís disse, de pé atrás de mim no espelho, os olhos já brilhando daquele jeito que ela tinha quando estav maravilhada com alguma coisa.
"Não chora ainda", eu disse.
"Não estou chorando."
"Seus olhos estão mentindo."
"Meus olhos estão úmidos. É diferente."
Minha mãe veio ajustar o véu com aquela precisão de quem fez isso mil vezes na cabeça antes de fazer de verdade, os dedos movendo com um cuidado que me desarmou antes que eu esperasse.
"Mãe", eu disse, baixo.
"Fica quieta, deixa eu terminar."
"Você está bem?"
Ela deu uma última ajustada e ficou parada por um segundo, olhando para o meu reflexo no espelho com aquela expressão que ela tem quando está sentindo coisa demais para colocar em palavras.
"Estou", ela disse. E a voz estava firme, mas os olhos eram a Vânia inteira. "Você está linda, minha filha."
Eu respirei fundo.
E foi exatamente nesse momento que a Aelyn apareceu pela porta do banheiro com o vestidinho de daminha, o cabelo preso com aquelas pequenas flores que a cabeleireira tinha colocado, e os olhos arregalados do jeito que ela fica quando está impressionada com alguma coisa mas tentando parecer casual.
"Uau", ela disse.
"Uau bom ou uau ruim?", eu perguntei.
"Uau muito bom." Ela veio até mim com aquela desenvoltura dela e ficou me olhando de baixo para cima. "Você parece uma princesa de verdade. Não uma de desenho. Uma de verdade mesmo."
"Obrigada, meu amor."
"O papai vai cair no chão quando te ver."
A Laís deu uma risada.
Minha mãe fez aquela expressão de quem concorda, mas está mantendo a compostura.
"Vamos torcer para que não", eu disse. "Eu não conseguiria levantá-lo."
Quinze minutos depois, estava tudo pronto.
Ou quase tudo.
Eu estava de pé perto da porta, o buquê nas mãos, as três ao meu redor fazendo os últimos ajustes. Laís endireitando o véu pela terceira vez, minha mãe verificando se o vestido estava caindo certo por trás, a Aelyn segurando a cestinha das pétalas com uma seriedade de quem foi designada para uma missão importante.
E então senti.
Aquele desconforto familiar, baixo e lento, que percorreu as costas e ficou por alguns segundos antes de ir.
Fechei os olhos por um momento.
"Branca." A voz da Laís chegou imediata, aquela atenção dela que não perdia nada.
"Estou bem", eu disse, antes que ela terminasse.
"Você ficou pálida."
"Eu sempre sou pálida."
"Branca." Ela me olhou com aquela firmeza dela. "O que foi?"
"Contração de treinamento." Respirei fundo, devagar, deixando passar. "Acontece com frequência nas últimas semanas."
"E por que não nos contou?" minha mãe repetiu, com aquela entonação específica.
"O médico disse que é normal." Abri os olhos, endireitei os ombros, olhei para as três. "Estou bem. A Serena está bem. E eu vou me casar hoje."
Silêncio por um segundo.
"Se você sentir mais alguma coisa..." a Laís começou.
"Eu falo." Olhei para ela. "Prometo."
Ela me encarou por um momento com aquela expressão avaliativa.
E então assentiu.
"Tá bom." Endireitou o véu uma última vez. "Então vamos."
O corredor que levava à entrada do salão era mais longo do que eu lembrava.
Ou talvez parecesse mais longo porque cada passo era deliberado, porque eu estava prestando atenção em coisas que normalmente passavam despercebidas. O barulho suave da música chegando pelo vão da porta, o perfume das flores que eu tinha escolhido flor por flor, o peso leve do buquê nas mãos.
Minha mãe parou ao meu lado.
Eu a olhei.
Ela pegou minha mão livre, apertou uma vez, e soltou.
Não precisava de mais nada do que isso.
A Aelyn estava na minha frente, a cestinha pronta, quando ela de repente parou e virou o rosto para o lado com aquela expressão de quem acabou de lembrar de algo importante.
"O Felipe está lá?", ela perguntou.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz