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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 274

Branca

A sala estava num estado que só podia ser descrito como catástrofe organizada.

Amostras de tecido na mesa de centro. Listas impressas com anotações à mão por cima das anotações impressas. Duas caixas de sapato abertas no chão que eu jurava que tinham chegado fechadas há vinte minutos. O notebook da Laís aberto com quatro abas diferentes, cada uma com uma planilha diferente, e ela digitando em todas ao mesmo tempo de alguma forma que eu não entendia.

E a minha mãe.

A minha mãe estava no meio de tudo isso com aquela energia de quem acordou cedo e não vai parar até que tudo esteja perfeito, segurando uma lista que ela tinha feito à mão e que tinha pelo menos três páginas.

"Então", ela disse, ajustando os óculos. "Flores da entrada. Confirmado com a floricultura?"

"Confirmado", a Laís respondeu sem tirar os olhos do notebook.

"Cardápio da recepção. A Tamara já sabe dos ajustes?"

"Sim, ela sabe."

"Bem-casados. São quatrocentos?"

"Quatrocentos e cinquenta, eu aumentei a margem, vai que alguém quer repetir."

"Bem pensado." Minha mãe fez um visto na lista com aquela satisfação de quem está no elemento dela. "E o buquê?"

"Amanhã cedo, direto da floricultura para..."

"Para mim", eu interrompi, levantando a mão.

As duas me olharam.

"Não deveria estar descansando?", minha mãe perguntou, com aquele tom que não era pergunta.

"Não, meu casamento é amanhã e eu quero participar."

"Branca..."

"Mãe, eu estou de oito meses de gravidez, não estou doente."

"Não, está perto de parir minha neta", ela corrigiu, "Deveria descansar mais e deixar isso com a gente."

"Dona Vânia tem razão", a Laís disse, ainda digitando.

"Obrigada, Laís."

"De nada, dona Vânia."

Eu olhei de uma para a outra.

"Vocês duas se uniram contra mim?"

"Nós nos unimos a favor de você", minha mãe disse, com uma lógica impecável. "É diferente."

Suspirei e me levantei do sofá com aquele esforço que oito meses de barriga exigem, aquele movimento de balanço que eu tinha aprendido porque era impossível levantar reto.

"Tá bom, tá bom. Mas preciso ver o arranjo da mesa principal. A foto que mandaram está diferente do que eu pedi."

"Eu vejo..."

"Laís, você tem quatro planilhas abertas."

"Cinco, na verdade."

"Então eu mesma vejo." Peguei o celular da mesa e abri a conversa com a cerimonialista, passando as fotos com aquela atenção de quem sabe exatamente o que quer e não está disposta a aceitar aproximação. "Aqui. Olha essa flor no canto direito. Eu pedi branca, não creme."

A Laís veio olhar por cima do meu ombro.

"É quase a mesma coisa."

"Não é a mesma coisa."

"Branca..."

"Laís, eu sei que você está me poupando energia, mas a diferença importa." Já estava digitando para a cerimonialista. "Amanhã é meu casamento. Eu quero branco."

Minha mãe fez aquela expressão de quem concorda, mas não vai dizer em voz alta.

A Laís levantou as mãos em rendição e voltou para o notebook.

Trinta minutos depois, eu estava de pé na frente da janela com uma lista na mão, a Laís estava ao telefone com o fotógrafo confirmando horários, e minha mãe estava reorganizando as caixas de sapato com uma eficiência que eu nunca ia entender completamente, quando senti.

Uma dor baixa, lenta, que percorreu as costas e foi até a frente.

Parei e respirei fundo e esperei ela passar.

"Está tudo bem?", minha mãe perguntou, sem olhar.

"Tudo. Só cansaço da gravidez."

Ela me olhou, analisando cada detalhe e soltou o ar.

"Não vai adiantar eu dizer nada, não é?"

"Não... não vai."

"Ok, mas se você continuar assim, não teremos uma noiva amanhã."

"Eu preciso..."

"Branca." A voz dela saiu mais suave agora, e era pior do que quando era firme. "A Serena precisa que você descanse. O casamento vai ser lindo de qualquer jeito. Mas a sua filha precisa de uma mãe descansada amanhã."

Fiquei em silêncio por um segundo.

Ela tinha razão.

Eu odiava quando ela tinha razão.

"Mais meia hora", eu disse.

"Quinze minutos."

"Vinte."

"Dezessete e meio."

A Laís soltou uma risada do telefone que ela claramente tentou disfarçar de tosse e não conseguiu.

Cássio chegou quando a situação já estava consideravelmente mais organizada, o que significava que agora as coisas estavam empilhadas em vez de espalhadas, que era um progresso inegável.

Ele parou na entrada da sala, olhou para o ambiente, olhou para nós três, e teve a sabedoria de não comentar nada.

"Boa tarde", ele disse.

"Boa tarde", as três respondemos ao mesmo tempo.

Ele veio até mim, beijou minha testa, desceu a mão para a barriga da Serena com aquele gesto que ele tinha e que eu tinha deixado de notar porque tinha virado tão natural quanto respirar.

274. Um dia antes 1

274. Um dia antes 2

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