André
Eu não sabia que ia ser assim.
Tinha imaginado aquele momento centenas de vezes nos últimos meses, na sala de espera, nas noites em que o sono não vinha, nas consultas onde o doutor Henrique falava sobre possibilidades e eu tentava não construir expectativas grandes demais. Tinha imaginado o alívio, talvez algum choro, aquela sensação de peso saindo.
Não tinha imaginado isso.
Não tinha imaginado ficar completamente parado enquanto meu filho olhava para mim pela primeira vez, com aqueles olhos que estavam aprendendo a ver, e eu não conseguia fazer nada além de deixar as lágrimas escorrer sem pedir licença.
Ele ficou me olhando por um tempo que eu não soube medir.
Não falou nada.
Só olhou, daquele jeito dele, atento, absorvendo, construindo alguma coisa por dentro que eu não sabia nomear. E eu fiquei ali, deixando ele olhar, deixando ele ter aquilo, porque era dele e só dele e eu não ia tirar nem um segundo daquele momento.
Então ele estendeu a mão.
Devagar, como quem está verificando que aquilo é real, os dedos encontraram meu rosto e eu entendi que ele precisava das duas coisas ao mesmo tempo, toque e visão juntos, confirmando um ao outro.
Eu cobri a mão dele com a minha.
E foi aí que eu desmoronei de vez.
Não foi um choro contido, não foi aquele tipo discreto que a gente tenta esconder. Foi fundo, do lugar que fica represado quando você segura coisa demais por tempo demais, e quando finalmente sai não tem mais jeito de controlar.
O Felipe ficou parado por um segundo.
E então, sem dizer nada, sem avisar, sentou-se na beira da cama, abriu os braços, e me abraçou.
Eu me abaixei e fui.
Ficamos assim, eu ajoelhado na frente da cama com os braços ao redor dele e os dele ao redor de mim, e o quarto ao redor de nós dois em silêncio, e eu pensei em tudo que tinha levado até ali, cada escolha, cada medo, cada momento em que eu não sabia se estava fazendo certo e fazia mesmo assim, e senti aquilo acentar de uma vez.
"Eu posso ver, papai. Eu posso..." as palavras dele sairam embargadas.
"Eu estou tão feliz por você, meu menino. Você consegiu." falei olhando para ele e segurando seu rosto com cuidado entre meus dedos.
"Eu consegui.... por que você e a mamãe me ajudaram." ele olhou para a Laís e estendeu a mão, a segurando. "Vocês dois me ajudaram." sorri para ele e para minha mulher.
"Ei, e eu?" a voz de Aelyn dominou tudo, e rimos da situação.
Ela estava analisando tudo. Interpretando tudo
Quando eu me levantei e me afastei um pouco, ela chegou mais perto dele.
"Eu não ajudei você, é?" falou colocando a mão na cintura.
Ele a olhou de volta.
Por um tempo, os dois ficaram assim, ele aprendendo o rosto dela com os olhos, ela deixando, mas com a expressão fechada, como se seu esforço não tivesse sido reconhecido.
E então o Felipe falou, pela primeira vez desde que a proteção tinha saído.
"Você é mais baixa do que eu pensava."
O quarto inteiro riu.
A Aelyn franziu o cenho com aquela seriedade dela.
"Eu ainda vou crescer."
"Eu sei."
"E quando eu crescer, eu vou ser mais alta que você."
"Não vai."
"Vou sim."
Eu olhei para a Laís, que estava com a mão na boca tentando não rir, e ela olhou de volta com aquela expressão: "não quero ver como vai ser na adolescência".
"Mas responde, eu não te ajudei? Eu fiquei com vocÊ o tempo todo, te ajudei em casa, fiz um monte de brincadeiras com você. Isso também é ajuda sabia?"
"Ajudou só um pouquinho." Felipe falou para irritá-la e conseguiu. Ela se afastou dele e se virou para Branca, que estava tão emocionada quanto nós.


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