Branca
O carro ficou parado na garagem por alguns segundos depois que o Cássio desligou o motor.
Nenhum dos dois se mexeu.
Era aquele tipo de silêncio que não precisa ser preenchido, que apenas no toque e no olhar a gente entende que precisa de um pouco mais de tempo para colocar tudo no lugar.
Eu fiquei olhando para frente, as mãos no colo, sentindo a Serena se mexer de leve como se ela também estivesse se acomodando depois de um dia longo.
"Tudo bem?", o Cássio perguntou, baixo.
"Tudo." Virei o rosto para ele. "Agora eu sinto que tudo vai ficar bem."
Ele me olhou por um segundo com aquela expressão que eu tinha aprendido a reconhecer, não era alívio exatamente, era algo mais fundo, aquele tipo de coisa que aparece quando uma tensão que você carregou tanto tempo some e o corpo ainda não sabe bem como se comportar sem ela.
Ele pôs a mão no meu rosto.
Eu encostei nela.
E ficamos assim por um momento, no silêncio da garagem, antes de entrar.
"Quando você estiver pronta para enfrentar a família."
"Eu só não acredito que finalmente acabou. Que tudos os culpados estão presos, e que finalmente, vamos poder ter paz, assim como meu menino." Cássio se aproximou de mim e beijou com carinho minha boca.
"Eu quero que agora você só aproveite o tempo para cuidar de você e das meninas. Quero que curta o final da sua gravidez, e a chegada da nossa pequena. Quero que fique tranquila com relação a tudo o que aconteceu. Não esquecer, porque sei que é impossível, mas tentar deixar o mais no passado possível."
Concordo, porque é isso que eu quero.
Quero cuidar de mim e das minhas filhas, e do Instituto do Pedro que está quase pronto para ser inaugurado.
Saimos do carro e andamos de mãos dadas até a entrada da casa.
A porta ainda estava se abrindo quando ouvi minha mãe.
Não a voz, o movimento. Aquele passo rápido que ela tem quando está contendo alguma coisa há tempo demais e finalmente pode soltar.
Ela apareceu no corredor antes que eu chegasse à sala, e quando me viu parou por um segundo, só um segundo e então veio.
O abraço dela chegou antes de qualquer palavra, firme e completo, daquele jeito que só mãe abraça quando está aliviada, de um jeito que vai além do que consegue expressar.
Eu me deixei ficar.
"Acabou", eu disse, com o rosto no ombro dela. "Finalmente acabou."
Ela não respondeu. Só me abraçou mais forte.
Quando nos separamos, os olhos dela estavam molhados, e ela não fez nenhum esforço para esconder.
"Eu fiquei aqui rezando o dia inteiro", ela disse, a voz embargada. "Nosso menino recebeu a justiça que merece."
"Eu sei, mãe."
"Aquela mulher..." Ela parou, apertou os lábios, decidiu não terminar. "Não importa. Acabou."
André e a Laís estavam na sala.
Ele estava de pé perto da janela com aquela postura de quem ficou andando de um lado para o outro e parou só porque ouviu a porta. A Laís estava sentada, mas com aquele jeito dela de quem estava presente, mas com a cabeça em outro lugar, processando em silêncio.
Quando nos viram entrar, os dois se levantaram ao mesmo tempo.
O André veio até mim primeiro, sem cerimônia, sem preparação, só veio e me abraçou do jeito que irmão abraça quando passou o dia inteiro querendo estar junto e não pôde.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Ele soltou o ar de uma vez, fundo, daquele jeito que eu sabia que ele estava segurando desde a manhã.
Quando nos separamos, a Laís estava ali, e ela me abraçou sem precisar de convite, aquele abraço dela que é discreto mas completo.


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