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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 265

Branca

Falar que eu consegui dormir aquela noite, era mentira. Eu não via a hora de ver a Ana ser condenada. De ver ela pagar por seus crimes, então assim que o celular despertou, eu me levantei e fiquei pronta, esperando apenas que o Cássio me levasse para o julgamento.

Mas para o meu azar, o julgamento estava atrasado.

Vinte minutos de espera na sala já preenchida, e eu fiquei sentada ao lado do Cássio observando meu avô, Victor Krieger do outro lado do corredor central. Ele estava na fileira da frente, de terno escuro, as mãos entrelaçadas no colo, olhando para frente com aquela expressão fechada que eu já tinha aprendido a ler, não era frieza, era contenção. O tipo de contenção que custa.

Ele sentiu meu olhar e virou o rosto.

Assentiu para mim como se isso fosse o máximo que ele conseguia naquele momento.

Eu assentei de volta.

O Cássio pôs a mão no meu joelho por um segundo, só um segundo, só pra dizer que estava ali e então a porta lateral abriu.

Ana Krieger entrou.

Eu não sabia o que esperava.

Talvez a mesma compostura do Jonathan, aquela armadura de quem se preparou para a performance. Mas Ana era diferente, sempre foi, eu devia ter percebido isso antes. Onde o Jonathan usava frieza, ela usava calor. Onde ele intimidava, ela seduzia.

Ela entrou com os ombros levemente curvados, o rosto com aquela expressão de quem está carregando um peso injusto, o olhar varrendo a sala com aquela velocidade de quem está calculando a audiência antes de começar o espetáculo.

E então viu o avô.

E foi lá que os seus olhos se fixaram, não para o juiz, não para o promotor, não para mim. Para o avô, com aquela expressão de neta arrependida que eu imaginava que ela tinha praticado no espelho por semanas.

O Victor não moveu um músculo.

"Vovô..." as palavras saíram baixas e arrastadas, mas nós ouvimos.

Ele não se incomodou.

Ela foi levada até seu lugar, mas ela continuava buscando qualquer migalha do avô.

A leitura das acusações começou, e eu ouvi cada item com aquela atenção de quem sabe que vai precisar guardar aquilo.

Homicídio doloso. Vítima: Pedro Bayron Krieger, cinco anos e Maria Gonzales, 54 anos. Associação criminosa. Fraude. Manipulação de herança.

A sala ficou quieta.

Ana fechou os olhos por um segundo, dramaticamente, aquele fechar de olhos que não é dor, é encenação. A mão dela foi para a boca. Para que, de alguma forma, as pessoas tivessem pena dela.

"A ré é acusada de ser a mandante que vitimou as duas pessoas no carro. Na data, o acidente foi considerado como batida de trânsito ocorrida pelo motorista embriagado, porém com as investigações ainda em andamento, foi descoberta a sabotagem no carro, e que o homem que acertou o carro com os dois ocupantes, foi contratado pelo atual motorista da ré."

Eu respirei fundo pelo nariz.

O promotor continuou, e a cada item eu via a Ana fazendo pequenos ajustes na expressão, um tremor aqui, uma lágrima contida ali, aquela arquitetura emocional que ela construía em tempo real para quem estava olhando.

O problema era que eu estava olhando.

E eu a conhecia.

Quando o advogado dela falou, foi quase difícil de ouvir.

Não pelo conteúdo, pelo tom. Aquela voz mansa construindo uma narrativa de mulher fragilizada pelo ambiente familiar, pressionada pelo avô desde criança, moldada por expectativas impossíveis, vítima de uma dinâmica que a tinha deformado sem que ela percebesse.

Havia uma parte microscópica de mim que entendia que algumas daquelas coisas podiam ser verdade.

E havia uma parte muito maior que pensava no Pedro.

Fiquei olhando para a Ana enquanto o advogado falava, e ela ficou com aquela expressão de quem está ouvindo a própria história contada com compaixão pela primeira vez, os olhos úmidos, o queixo levemente tremido.

Ela era boa. Eu precisava reconhecer isso, ela era muito boa.

Mas o Victor Krieger estava do outro lado da sala com aquela expressão que não se movia, e eu sabia que ele tinha visto cada performance dela na vida, e que não estava comprando nenhuma parte daquilo.

O momento mais absurdo veio quando o juiz deu a palavra para que ela se pronunciasse.

Ana se levantou. Olhou para o juiz com aquela expressão de humildade calculada. E começou.

Falou sobre a infância, sobre o avô que a tinha criado para ser uma herdeira e não uma pessoa, sobre a pressão, sobre o Jonathan que sempre teve mais liberdade, sobre a solidão de crescer sabendo que seu valor estava atrelado a um sobrenome e a um patrimônio.

A voz dela quebrava nos momentos certos.

Ela pausava nos momentos certos.

E então, como se fosse uma virada natural e não uma estratégia calculada, ela se virou para o Victor.

265. Julgamento da Ana 1

265. Julgamento da Ana 2

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