Branca
O tribunal era maior do que eu imaginava.
Na verdade não sei o que eu esperava, talvez algo menor, mais contido, mais proporcional ao tamanho do que aquele homem tinha feito na minha vida. Mas era grande, com aquelas madeiras escuras nas paredes e o teto alto e o silêncio específico de lugar que lida com coisas pesadas todo dia e aprendeu a absorver sem demonstrar.
Sentei ao lado do Cássio na fileira reservada, e ele pôs a mão na minha sem dizer nada.
A sala foi enchendo devagar, advogados, promotores, familiares, jornalistas no fundo com aqueles blocos de nota que eles seguram como escudo. Eu olhei para cada pessoa que entrava sem realmente ver nenhuma, porque estava esperando uma só.
E então ele entrou.
Jonathan Krieger estava diferente de quando eu o tinha visto na delegacia. Mais composto, o terno arrumado, o cabelo penteado, como se tivesse passado semanas se preparando para essa performance específica. O advogado dele ia na frente, e ele vinha atrás com aquela postura que eu conhecia de anos, aquela que dizia que ele era o homem mais importante em qualquer sala que entrasse.
E então ele me encontrou.
O olhar dele parou em mim e ficou.
Não desviou. Não piscou. Só ficou, daquele jeito que ele tinha que não era olhar, era posse.
Senti o Cássio endurecer ao meu lado.
Eu não desviei.
Logo seus olhos desceram por minha barriga e coloquei a bolsa na frente. Não queria que minha filha sentisse a energia ruim que vinha daquele homem. E então ele sorriu, de um jeito nojento, e assustador ao mesmo tempo.
A leitura das acusações durou mais do que eu esperava.
O promotor tinha uma voz monótona que contrastava com o peso de cada item que pronunciava, e eu fui ouvindo um por um com aquela clareza de quem já processou cada coisa dessas tantas vezes que não dói mais da mesma forma, dói diferente, mais fundo, mais permanente.
Sequestro. Cárcere privado. Violência doméstica sistemática. Agressão física. Ameaça. Perseguição.
E então:
Homicídio doloso. Vítima: Glória Mendes.
Eu me lembrei da Glória, daquela mulher que tinha chegado na casa do Cássio antes de mim, que tinha construído uma obsessão própria, que tinha tentado me machucar de um jeito que ainda me fazia arrepiar quando eu deixava. Ela era perturbada, tinha sido perigosa.
"Você sabia?" questionei ao Cássio no mesmo instante e ele negou.
"Não tive acesso aos altos do processo. Mas eu desconfiava dele." o olhei por mais um segundo e voltei a olhar para o juiz.
Jonathan a tinha matado.
Não porque se importava comigo. Porque achava que só ele tinha direito sobre o que acontecia comigo. Como se eu fosse uma propriedade que só podia ser destruída pela mão certa.
O promotor continuou.
Tentativa de sequestro. Ameaça a terceiros. Associação criminosa.
Jonathan continuava me olhando.
O Cássio se inclinou levemente para mim.
"Você está bem?", ele murmurou, tão baixo que só eu ouvi.
"Estou", eu disse.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz