André
Fiquei olhando para a mensagem mais tempo do que precisava.
Não era longa. Eram poucas linhas do Delegado Souza, diretas, do jeito que ele sempre escreve. Mas eu li três vezes como se as palavras fossem mudar entre uma leitura e outra.
Emily Morrow localizada. Estado grave. Hospital San James. Me ligue quando puder.
O Cássio leu por cima do meu ombro em silêncio.
Nenhum de nós falou por um segundo.
"Vou ligar para o Souza", ele disse por fim, já com o celular na mão.
Eu não respondi. Fiquei parado no corredor com o meu celular ainda aberto, ouvindo o Cássio falar baixo alguns metros à frente, a voz dele controlada, fazendo as perguntas certas, absorvendo as respostas com aquela eficiência que ele tem quando entra no modo de resolver.
Eu não conseguia entrar em nenhum modo.
Ficava tentando pensar no que sentir e não encontrava nada organizado, era tudo misturado, camadas que não tinham nome, e por baixo de tudo aquela coisa que eu não queria admitir, mas que estava lá:
Ela ainda era a mãe biolágica do Felipe.
Mesmo depois de tudo. Mesmo depois do dinheiro e da frieza e dos anos que ela passou sem perguntar onde ele estava. Mesmo depois de eu ter desligado o telefone e dito coisas que eu não me arrependo de ter dito.
Ela era a mãe do Felipe. E o meu filho não sabia.
O Cássio voltou.
"Ela foi achada numa área industrial na margem da cidade", ele disse, a voz baixa, de costas para a porta da da sala de jantar. "Estado grave. Politraumatismo, sinais de agressão. Está em coma induzido desde ontem à noite." Parou por um segundo. "Não sabem se vai acordar."
Eu fechei os olhos.
"Meu Deus. Quem fez isso?" Branca falou e Cássio negou com a cabeça.
"Vamos à delegacia primeiro", ele continuou. "O Souza quer nos passar os detalhes pessoalmente. Depois vamos ao hospital."
"Ok." A voz saiu automática, de algum lugar que não estava completamente presente.
"André." Ele me olhou com aquela calma direta que ele tem. "Você não precisa ir."
"Preciso."
"Não precisa... deixa que eu resolvo isso..."
"Ela é a mãe do meu filho." As palavras saíram mais firmes do que eu esperava, e eu não soube dizer se era convicção ou só o único argumento que fazia sentido naquele momento. "Preciso ir e descobrir o que aconteceu. Ele ainda não me perguntou dela, mas vai, eu sei que vai. E o que eu vou dizer quando isso acontecer?"
"Ele tem razão, Cássio. Vocês dois tem que ir, eu resolvo as coisas aqui em casa."
Ele ficou me olhando por um segundo.
E então assentiu.
Voltei até a sala de jantar, e chamei a Laís de canto contando o que tinha acontecido. Seus olhos se arregalaram, e ela me abraçou.
"Eu vou lá com o Cássio, fica aqui com o Felipe. Qualquer coisa você me liga." ela concordou.
"Te digo o mesmo. O que precisar, você me avisa." Concordei.
Saí sem conseguir olhar para o Felipe.
***
A delegacia tinha aquele movimento de manhã, gente chegando, gente saindo, o barulho de sempre. O Delegado Souza nos recebeu numa sala pequena no fundo, fechou a porta, e foi direto.
"Foi achada por um vigilante que fazia ronda numa área de armazéns desativados." Abriu uma pasta, virou alguns documentos na nossa direção, eu olhei de longe, não consegui olhar de perto. "Sinais de agressão consistentes com o que foi visto nas câmeras do hotel. Alguém a manteve em cativeiro por dias antes de..." Ele pausou. "Antes de descartar."
A palavra caiu no silêncio da sala.
Descartar.

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