André
A Laís estava na sala quando cheguei.
Sozinha, as crianças deviam estar no andar de cima, minha mãe na cozinha pelo cheiro que vinha de lá, e quando ela me viu entrar ela largou o que estava fazendo e veio até mim antes que eu dissesse qualquer coisa.
Não perguntou nada.
Só abriu os braços, e eu fui, e ficamos assim por um momento no meio da sala com o barulho da casa ao redor e aquele silêncio entre a gente que não precisava ser preenchido. O abraço dela parecia me curar mais do que qualquer outra coisa.
Quando me afastei, ela me olhou.
"É grave?"
"Coma induzido." A voz saiu rouca. "Não sabem se vai acordar."
Ela fechou os olhos por um segundo.
Fomos sentar no sofá, e ela ficou de lado na minha direção, ouvindo enquanto eu contava sobre a delegacia, o Souza, o hospital, o corredor com a porta de vidro que eu não consegui atravessar. Ela ouviu tudo sem me interromper, só com a mão na minha o tempo inteiro.
Quando terminei, o silêncio durou um pouco.
"Você vai contar para o Felipe?", ela perguntou, baixo.
E ali estava. A pergunta que eu estava carregando desde o corredor do hospital, desde a delegacia, desde o momento em que li a mensagem do Souza naquela manhã e soube que ia ter que decidir alguma coisa.
"Não sei." Passei a mão no rosto. "Não sei se conto. Não sei como conto. Não sei se ele precisa saber agora ou se..." Parei. "Ela pode não acordar, Laís. Posso contar pra ele e ela morrer antes que ele possa..." Não terminei.
"Ou ela pode acordar", ela disse, com aquela calma dela. "E aí ele descobre de outro jeito."
Eu sabia disso.
Era o que me prendia.
"Se eu contar e ela morrer..."
"Você não pode controlar isso." Ela apertou minha mão. "Você só controla como ele recebe a informação. E receber de você é melhor do que de qualquer outra pessoa."
Fiquei olhando para o nada por um momento, pesando.
"Eu não quero machucá-lo."
"Eu sei." Ela me olhou com aquela ternura que sempre me desarmava. "Mas guardar também machuca, André. Só machuca diferente."
Respirei fundo.
E foi quando ouvi.
Um movimento sutil perto da escada, aquela pisada leve que eu já estava aprendendo a reconhecer, diferente da Aelyn que nunca pisava leve na vida.
Felipe estava parado no último degrau.
Laís e eu nos olhamos ao mesmo tempo.
"Contar o quê?", ele perguntou, a voz cautelosa, daquele jeito que ele tem quando está processando antes de perguntar.
O silêncio que veio depois durou tempo demais.
Ele desceu o último degrau devagar, com uma mão na parede, orientando o espaço, e parou no começo da sala.
Me levantei.
"Felipe." Fiz uma pausa, e então decidi, porque a Laís estava certa, e eu sabia disso, e às vezes saber é o suficiente para agir mesmo quando você não quer. "Você quer saber sobre sua mãe biológica?"


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