Branca
Victor Krieger saiu da mesma forma que entrou, sem pressa, com aquele peso nos ombros que eu imaginava que ia acompanhar ele por um bom tempo ainda.
Na porta, antes de ir, ele me olhou uma última vez.
"Mande o projeto quando estiver pronto", disse. "Escolha o prédio, a equipe, o que precisar. Eu arcarei com tudo."
Assenti.
E então ele foi embora, deixando uma coisa diferente em mim.
Fiquei parada por um segundo depois que o portão fechou, ouvindo a casa voltar ao próprio ritmo, e então me virei para os outros.
O André estava com os braços cruzados, processando, aquela expressão que ele tem quando está organizando alguma coisa na cabeça antes de falar. A Laís estava ao lado dele, quieta, atenta. E minha mãe estava sentada no sofá com aquele olhar de quem já viu muita coisa na vida e reconhece quando uma página vira de verdade.
"Então", o André disse por fim. "O que foi combinado?"
Contei.
Cada parte, o centro, a proposta, o que eu havia pedido e por quê. Quando cheguei na parte da equipe jurídica, o André se endireitou antes que eu terminasse a frase.
"Eu quero fazer parte."
Olhei para ele.
"André..."
"Entra no quê?" A Laís olhou para ele, e então para mim, e então de volta para ele.
"No projeto de proteção a mulheres e crianças que sofrem violência doméstica."
"Contem comigo." Falou com aquela simplicidade dela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Você é assistente social, eu sou advogada, ele é advogado. Se existe uma equipe que faz sentido para esse projeto, somos nós."
O André sorriu para ela, daquele jeito rápido e cheio que ele tem quando alguém diz exatamente o que ele estava pensando.
"É o que eu disse."
Eu olhei para os dois, e para o Cássio ao meu lado, e senti alguma coisa que estava há dias guardada em algum lugar fundo começar a afrouxar.
"Eu sei tudo que precisa ter num lugar assim", falei, e a voz saiu diferente, não mais pesada, não mais segurando. "Sei o que faltou pra mim. Sei o que falta pra maioria. A estrutura, o acolhimento, os recursos que ninguém te diz que existem porque ninguém está lá para te dizer." Respirei fundo, tentando acalmar a emoção. "O Pedro vai estar em cada mulher que sair dali de pé."
Minha mãe fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, estava sorrindo.
"Meu neto vai ter o legado mais bonito que uma criança pode ter", ela disse, baixinho.
Ninguém respondeu.
Não precisava.
"Agora, a senhora vai descansar." Cássio sussurrou no meu ouvido e concordei, por que sim, meu corpo estava pedindo uma trégua.
Cássio segurou minha mão na escada.
Subimos devagar, sem pressa, e quando a porta do quarto fechou atrás da gente eu fiquei parada no meio do quarto por um segundo, olhando para o nada, deixando tudo pousar de uma vez.
Os dois presos.
O Victor aqui.


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