Branca
Fui até o André quando ele não se mexeu.
Cheguei ao lado dele, olhei pela porta aberta, e dei um passo para trás antes de perceber que estava fazendo isso.
Victor Krieger estava na soleira.
Mais velho do que eu lembrava, ou talvez eu nunca tivesse olhado para ele de verdade, sempre de longe, sempre através do filtro do que ele representava. Alto, reto, com aquele peso nos olhos que eu não sabia dizer se era culpa ou só cansaço.
O Cássio chegou ao meu lado na mesma hora, silencioso, e eu senti a presença dele antes mesmo de ver.
Victor me olhou.
"Podemos conversar?"
Fiz uma pausa de um segundo, só um, e então abri espaço.
"Pode entrar."
Ele entrou devagar, olhando ao redor com aquele jeito de quem está lendo o ambiente, e então viu a minha mãe.
Vânia estava de pé no meio da sala, com aquela postura dela quando está segurando alguma coisa grande.
"A família toda está reunida", ele disse, e havia algo na voz que não era observação, era quase alívio.
"Não." A voz da minha mãe saiu firme, sem hesitação. "A família toda não. Meu neto não está aqui. Por culpa sua."
"Mamãe." O André deu um passo. "Se acalme."
"Ela está certa." Todos olhamos para o Victor.
Ele não desviou. Não se defendeu. Ficou parado no meio da sala e deixou aquelas palavras serem o que eram.
"Eu me culpo por isso. Se eu tivesse visto a maldade dos meus netos antes, eu teria impedido." A voz falhou levemente no final, só um pouco, mas o suficiente para eu ver. "Nunca vou me perdoar por ter perdido meu bisneto por..."
Parou.
Virou o rosto na minha direção.
"Eu vim conversar com você." Me olhou direto, sem desvio. "Podemos falar em algum lugar mais reservado?"
Olhei para o Cássio.
Ele me olhou por um segundo, e então disse, calmo e definitivo:
"Vamos ao meu escritório." Concordei, sem saber exatamente como me sentia sobre aquilo.
O escritório estava quieto quando os três entramos.
O Cássio abriu a porta, deixou a gente passar, e então fechou a porta, mantendo-se colado a ela, não me deixando sozinha.
Não queria ficar sozinha com o Victor Krieger, mas sabia que essa conversa precisava acontecer.
Me sentei na cadeira, os dedos se entrelaçando no colo, e esperei.
Victor ficou de pé por um momento, olhando ao redor, e então seus olhos foram para Cássio, o estudando por um segundo, e depois voltou para mim.
"Arranjou um bom companheiro dessa vez", ele disse.
"Sim." Não hesitei. "Achei alguém que cuida de mim como eu mereço."
Ele assentiu devagar, como se aquela frase carregasse mais peso do que as palavras.
"Eu vim pedir desculpas." Veio sentar na cadeira à minha frente, devagar, com aquela deliberação de quem está colocando orgulho de lado de forma consciente. "Por todos esses anos."
Fiquei quieta, deixando-o continuar.


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