André
A casa foi ficando mais quieta aos poucos, como acontece sempre depois de um dia longo demais, as vozes foram diminuindo, o ritmo foi afundando, e em algum momento, a Laís subiu com o Felipe e a Aelyn foi arrastada pela Vânia para o jantar, deixando a sala num silêncio que parecia necessário.
Foi quando a Branca se aproximou.
Ela não falou nada de imediato. Só veio sentar ao meu lado no sofá, cruzou as pernas, e ficou olhando para a frente por um segundo, como se também estivesse organizando alguma coisa por dentro.
"Como você tá?", ela perguntou por fim.
Eu ri baixinho.
"Você veio checar se eu ainda estou são?"
"Vim checar se você não está apenas se fazendo de forte", ela confirmou, sem nenhuma cerimônia.
Fiquei em silêncio por um momento, rolando a resposta na cabeça antes de falar. Não porque eu fosse mentir ,com a Branca eu nunca consigo, mas porque algumas coisas ainda estavam cruas demais pra virar palavra.
"Tô bem", disse por fim. "Tô… mais do que bem, na verdade." Olhei para o corredor vazio onde o Felipe tinha desaparecido minutos antes. "Mas é muita coisa ao mesmo tempo, sabe? São emoções demais pra processar tudo de uma vez."
Ela assentiu devagar, sem pressa de responder.
"Ele é incrível", ela disse, a voz mais suave agora. "Você percebe isso, né? A forma como ele presta atenção em tudo, como ele… sente o ambiente antes de qualquer coisa. Ele tem tanto de você. Trejeitos, expressões, formas de agir sem nem pensar."
"Eu percebi...."
"Você tá indo bem com ele, André." Ela me olhou de lado. "Melhor do que você acha."
Aquilo chegou num lugar que eu não esperava. Olhei para ela por um segundo, sem saber muito bem o que fazer com aquilo, e então olhei pro lado.
"Eu tenho medo de errar", admiti, mais baixo. "De fazer a coisa errada, de falar do jeito errado, de… não saber o que ele precisa antes que ele precise. O que a Emily fez continua dominando minha mente, e eu quero a todo momento compensar, mas... e se eu estragar ele?"
"Todo pai sente isso, ainda mais depois do trauma que vocês dois passaram."
"Todo pai conhece o filho desde o começo", rebati.
Ela ficou quieta por um segundo.
"É diferente", concordou. "Mas não é impossível. E ele não está sozinho nisso, você também não está." Ela encostou levemente o ombro no meu. "Eu tô aqui. A Laís tá aqui. O Cássio, a mamãe. Nós todos estamos aprendendo e nos adaptando."
Respirei fundo, deixando aquilo pousar.
"Ele perguntou se era normal sentir falta do orfanato", disse depois de um tempo.
Branca virou o rosto na minha direção.
"E o que você respondeu?"
"Que era. Que ele podia sentir falta e ainda assim estar feliz aqui." Fiz uma pausa. "Acho que foi a coisa certa."
"Foi perfeito." Ela falou sem hesitar, firme do jeito que ela é quando quer que você acredite em algo. "Você não tentou apagar o que ele viveu. Isso importa mais do que você imagina. Ele vê que você está respeitando a história dele."
Ficamos em silêncio por um momento, um daqueles silêncios bons que só existem com quem você conhece de verdade, onde não tem nada precisando ser preenchido.


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