André
"Você não entende", ela disse, a voz tremendo do outro lado. "Eu não tive tempo de sair, André, ele me achou antes que eu conseguisse... eu estou encurralada."
"O dinheiro que você me extorquiu não foi suficiente pra se virar?"
Silêncio por um segundo.
"Não é isso..."
"Então o que é, Emily?" Minha voz saiu mais fria do que eu esperava. "Me explica, porque eu realmente quero entender o raciocínio aqui."
"Eu preciso de um lugar pra ficar." A respiração dela estava irregular, cortada. "Só por um tempo, só até eu conseguir.... me virar. Me deixa ficar ai com vocês... eu prometo..."
"Não."
"André, por tudo que a gente já teve... eu não vou incomodar a sua esposinha. Só preciso de proteção."
"Não." Repeti, mais firme.
"Por favor." A voz dela quebrou. "Por favor, eu tô com medo, ele vai me..."
"Você sabe o que eu vou te falar? Já te dei minha resposta final." Eu interrompi, sentindo alguma coisa se soltar dentro de mim, uma ira que era maior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido. "Eu sei que você não perguntou. Mas eu vou falar assim mesmo..."
Ela ficou em silêncio.
"Meu filho ficou cego." As palavras saíram devagar, uma por uma, pesadas. "Quando ele era bebê, ele teve um problema no olho. Uma coisa que tinha tratamento, que tinha solução, se alguém tivesse levado ele num médico a tempo. Mas não levaram, porque não tinha ninguém pra levar. Ele não tinha a atenção de pai e mãe para ver a tempo que tinha um problema. Por que você abriu mão dele como se ele fosse um inconveniente na sua vida."
Nenhuma resposta.
"Em algum momento você pensou nele, Emily?" Minha voz subiu levemente, mas eu segurei. "Em algum segundo da sua vida miserável, você se perguntou onde ele estava, como ele estava, se ele tinha o que comer, se estava bem?"
O silêncio do outro lado era diferente agora. Mais pesado.
"Você me vendeu uma informação", continuei. "Você colocou um preço no próprio filho e me vendeu uma informação como se fosse mercadoria. E graças a isso eu o achei. Graças a isso, e só a isso, eu tenho meu filho hoje." Parei por um segundo, sentindo a raiva queimar, focando na pessoa que merecia todo o meu desprezo. "E ele tem uma mãe de verdade agora. Uma mulher que está se desdobrando por ele, que pesquisou, que marcou consulta, que segurou a mão dele no primeiro dia sem nem piscar. Tudo que você nunca foi capaz de ser."


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