André
Eu o vejo antes mesmo de me aproximar.
Felipe está sentado no sofá com aquela quietude que ele tem, não é timidez exatamente, é mais como se ele precisasse de um tempo só dele pra processar o mundo ao redor. A Aelyn sumiu no banheiro há alguns minutos, e a casa está num daqueles silêncios raros, suspensa entre um momento e outro, como se até ela estivesse descansando de tanta emoção.
Eu me aproximo devagar, sem fazer barulho desnecessário, e sento ao lado dele.
Ele sente, é claro. Vira levemente o rosto na minha direção.
"Tudo bem?"
Ele demora um segundo antes de responder.
"Tô bem."
Eu conheço esse "tô bem", depois de uma semana convivendo com ele, eu já consigo identificar alguns padrões. É curto demais, fechado demais, do tipo que não convida à continuação. Fico quieto por um momento, deixando o silêncio se acomodar entre a gente sem forçar nada. Aprendi rápido que com ele é assim, se eu forçar, ele se fecha.
Observo o perfil dele, a forma como ele mantém as mãos quietas no colo, os dedos levemente entrelaçados. Ele está processando. Eu reconheço isso porque já vi aquela expressão no espelho algumas vezes na vida, quando o mundo ficou caótico demais de repente.
"Isso é assustador", ele diz então, baixinho, quase como se fosse pra si mesmo e não pra mim.
Eu viro o corpo levemente na direção dele.
"Assustador?"
"É." Ele mexe os dedos no colo, um movimento pequeno, quase imperceptível. "Eu… eu não sabia o que era ter família. Sempre foi o orfanato, sabe? Sempre foram as mesmas pessoas, o mesmo lugar, a mesma rotina. Todo dia igual ao anterior." Ele para, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. "E agora eu tô aqui, com tanta gente ao redor, e fica parecendo que eu sinto falta deles. Do orfanato. Das pessoas de lá." A voz dele cai um pouco. "Isso é normal?"
Eu rio baixinho, sem conseguir segurar.
Ele franze o cenho na minha direção. "Por que tá rindo, papai?"
"Porque é muito normal", digo, e puxo-o para perto num abraço. Ele endurece por um segundo, o corpo instintivamente resistindo, mas não recua. Fico quieto, deixando ele decidir, e aos poucos sinto quando ele cede um pouco, os ombros afundando. "Sentir falta faz todo sentido, Felipe. Era a sua vida. As pessoas que você conhecia, o cheiro, os sons, a rotina que você entendia de cor. Sentir falta não significa que você quer voltar, nem que alguma coisa está errada com você. Ou que você não quer essa família."
Ele fica quieto dentro do abraço por um momento.
"Parece que deveria ser diferente", ele diz, mais baixo. "Parece que eu devia tá só feliz."
"Você pode ser as duas coisas ao mesmo tempo", respondo. "Feliz de estar aqui e com saudade do que você conhecia. Não precisa escolher."
Ele absorve aquilo em silêncio.
"E se você quiser visitar o pessoal de lá", continuo, "é só falar. Não precisa pedir com antecedência, não precisa explicar muito. Você fala e eu te levo. Quando quiser."
Sinto quando ele relaxa um pouco mais.
"Tá bom."
Ficamos assim por um momento, e então ele puxa o assunto de um jeito que só criança sabe fazer, sem aviso, sem transição, como se a conversa anterior já tivesse sido guardada num bolso e agora fosse hora de outra coisa.
"Mas o que você achou de todo mundo? Estão sendo legais com você?"
Ele pensa por um segundo, a boca mexendo levemente antes de falar.
"Tão sim." Uma pausa pequena, quase dramática. "A Aelyn é muito faladeira."
Eu solto uma gargalhada de verdade, e ele ri junto, meio sem querer, aquele riso curto e surpreso de quem ainda está aprendendo que pode soltar assim, sem cerimônia.
"Você não sabe nem a metade", digo, ainda rindo. "Ela é a alma desse lugar."
"Eu percebi."


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