SHEIK
*
Tudo parecia fácil para mim.
Ou pelo menos era isso que eu sempre acreditei.
Resolver problemas, comprar soluções, controlar situações, manipular resultados.
Minha vida inteira foi construída dessa forma. Desde criança fui ensinado que um homem poderoso jamais deveria hesitar diante das próprias vontades.
E eu nunca hesitei.
Até Júlia.
Depois de organizar tudo para ela, ajeitar a casa, contratar pessoas, abastecer armários, garantir segurança, conforto e estabilidade, dormir pareceu justo.
Pela primeira vez em muito tempo, senti que estava exatamente onde deveria estar.
Mas acordar…
Acordar e encontrar Júlia deitada ao meu lado foi uma das sensações mais absurdamente boas que já senti na vida.
Ela estava linda.
A pele ainda marcada pelo banho recente.
O cheiro suave do hidratante misturado ao perfume natural dela.
E o mais perigoso…
Ela estava ali porque queria.
Não porque foi obrigada.
Não porque eu impus minha presença.
Mas porque escolheu ficar.
Só que eu não esperava que teríamos uma conversa tão decisiva.
Eu realmente não estava preparado para aquilo.
Porque, na minha cabeça, as regras do meu país jamais seriam um problema tão grande para Júlia.
Não daquela forma.
Eu sabia que ela estranharia algumas coisas.
Sabia que haveria adaptação.
Mas nunca imaginei que ela olharia diretamente para tudo aquilo que sempre considerei normal… e questionaria cada pedaço.
E o pior?
Ela estava certa.
Essa era a parte mais difícil de aceitar.
Enquanto ela falava sobre exclusividade, casamento, fidelidade e segurança, eu me vi obrigado a enxergar meu próprio mundo pelos olhos dela.
E pelos olhos de Júlia…
Muita coisa parecia cruel.
Pela primeira vez, eu entendi completamente porque Laura nunca conseguiu se encaixar.
Porque mulheres como Júlia não foram criadas para aceitar migalhas emocionais.
Nem permissões masculinas mascaradas de tradição.
Júlia não queria ser uma entre várias.
Ela queria ser suficiente.
E aquilo me desmontou por dentro.
Porque eu percebi que, mesmo sem nunca ter amado Laura, eu também nunca havia dado a ela a segurança emocional que uma mulher merece.
Na minha cultura, homens como eu aprendem cedo que podem ter tudo.
Mas Júlia me fez perceber uma coisa terrível...
Quem pode ter tudo, normalmente nunca aprende o valor de uma única pessoa.
Ela me obrigou a pensar além do desejo.
Além da obsessão.
Além da vontade egoísta de possuí-la.
Porque o contrato que ela queria não era sobre dinheiro.
Era sobre medo.
Medo de ser destruída.
Medo de perder a própria filha.
Medo de acordar um dia num país distante, cercada por leis que favoreciam o homem que ela amava.
E eu entendia perfeitamente esse medo.
Porque eu também teria medo.
Fechei os olhos por alguns segundos enquanto ela falava sobre outras mulheres.
Sobre amantes.
Sobre concubinas.
E foi estranho perceber que aquilo já não fazia sentido nem pra mim.
Antes de Júlia, eu nunca pensei profundamente sobre fidelidade.
Nunca precisei.
Homens da minha posição eram incentivados a desejar mais.
Mais mulheres.
Mais filhos.
Mais poder.
Mais controle.
Mas tudo isso começou a parecer vazio no instante em que segurei minha filha pela primeira vez.
E ficou ainda mais vazio quando vi Júlia sorrindo.
Porque eu não queria “mais”.
Eu queria elas.
Só elas.
E aquilo era assustador.
Assustador porque mudava completamente o homem que eu fui minha vida inteira.
Enquanto ela falava sobre a possibilidade de eu voltar a ser arrogante, senti vergonha.

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