SHEIK
*
Eu já havia comandado reuniões capazes de mudar economias inteiras.
Já sentei diante de reis, presidentes, empresários bilionários e homens que tremiam apenas por ouvir meu nome.
Mas nada…
Absolutamente nada me deixou tão nervoso quanto esperar Júlia entrar naquele salão.
Talvez porque, pela primeira vez na vida, eu realmente tinha algo a perder.
Ou melhor…
Alguém.
Um mês.
Foi o tempo que levou para Júlia transformar completamente meu mundo outra vez.
Uma semana depois da ilha, embarcamos para Dubai.
E um contrato assinado.
Ainda lembro da expressão do meu advogado tentando manter a postura séria enquanto lia cada cláusula criada por Júlia.
Minha futura esposa basicamente havia elaborado um manual completo de sobrevivência emocional contra mim.
E honestamente?
Eu assinei tudo sem hesitar.
Exclusividade absoluta.
Nenhuma outra mulher.
Nenhuma concubina.
Nenhum casamento além dela.
Direito imediato de retornar ao Brasil com nossa filha caso eu quebrasse qualquer cláusula.
Patrimônio garantido em nome dela e de Aisha.
Autonomia total sobre a própria vida.
E a mais assustadora de todas...
— Quero que me ame todos os dias da sua vida, mesmo quando estivermos brigados.
Quando ela falou aquilo, eu ri.
Mas depois percebi que ela estava falando sério.
Meu advogado ainda disse: Isso é praticamente um suicídio. Tem certeza que quer assinar isso.
Eu gargalhei alto.
Eu morreria feliz.
E talvez fosse justamente por isso que eu amava tanto aquela mulher.
Chegamos em Dubai sob um caos absoluto.
Imprensa, seguranças, políticos.
Servos desesperados.
Ministros tentando entender como, em poucos meses, o Sheik mais temido do país havia voltado completamente diferente… acompanhado de uma brasileira pequena, debochada e perigosamente impossível de controlar.
O palácio nunca mais foi o mesmo depois da chegada dela.
Nunca.
Júlia entrou naquele lugar como um furacão emocional.
Primeiro vieram as concubinas.
Ou melhor…
O fim delas.
— Meninas... vocês estão livres. Essa cultura não é mais permitida aqui. Ela bradou.
No final daquela semana, Júlia tinha organizado casa, dinheiro, estudos e até apartamentos para todas elas.
— Elas não são objetos, Al Rashid.
Aquilo me atingiu forte.
Porque durante anos… eu tratei aquilo como normal.
Mas o pior não foi isso.
O pior foi perceber que os próprios servos ficaram apaixonados por ela.
TRAIDORES.
Completamente traidores.
Júlia conversava com todos.
Aprendia os nomes.
Perguntava das famílias.
Ajudava.
Ria.
E ainda por cima se recusava a ser chamada formalmente.
— Senhora fica no céu.
Ela dizia.
Até hoje eu não faço ideia do que aquilo significava.
Mas todos riam.
Inclusive eu.
Ela mudou o palácio.
Mudou os ambientes.
Mudou os costumes.
Mudou a energia daquele lugar.
Antes existia silêncio.
Agora existia vida.
Música.
Risadas.
Cheiro de comida vindo da cozinha porque ela inventava de cozinhar com os funcionários.
Aisha sendo carregada de colo em colo como uma pequena princesa adorada por todos.
E eu…
Eu assistia tudo completamente rendido.
A grande verdade?
Júlia transformou um palácio frio em um lar.
O casamento virou o assunto do país inteiro.
Porque ninguém jamais viu um Sheik organizar algo daquele tamanho por amor.
E definitivamente ninguém esperava que a responsável por tudo fosse uma brasileira determinada que misturava tradições árabes com pequenos detalhes do Brasil.
Ela escolheu flores absurdas.
Luzes douradas.
Música tradicional.
Tecidos nobres.
Detalhes delicados.
E ainda fez questão de incluir pequenos símbolos da minha cultura… e da dela.
— Quero que nosso casamento pareça nós dois.
Ela disse.
E pareceu.
Na manhã da cerimônia, acordei incapaz de respirar direito.

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