O relógio marcava 6h23 da manhã quando o carro preto encostou na frente do meu prédio. A mala já estava na porta, os documentos na bolsa, e o coração, esse estava tentando sair pela boca.
A assistente da diretora me esperava no banco de trás, como havia sido avisado. Era uma mulher discreta, cabelo preso num coque e unhas perfeitas. Ela abriu a porta com um leve aceno de cabeça, sem nenhum sorriso.
— Pronta?
Perguntou sem emoção.
— Na medida do possível.
Assim que o carro começou a andar, ela abriu uma pequena pasta e começou a revisar comigo todos os tópicos da última aula.
— Regras de conduta, nada de contato físico fora do ambiente privado, evite roupas curtas em público, evite perguntas sobre religião, respeite a cultura local. Você deve sorrir pouco, falar ainda menos, e observar muito.
— Eu me lembro.
Disse, tentando disfarçar o nervosismo.
— Estudei tudo.
Ela continuou, impassível...
— Lembre-se, o sheik comprou apenas uma noite com você, e isso se deu unicamente por conta da sua virgindade. Entretanto, sua hospedagem está prevista para sete dias. Isso significa que, caso ele deseje prolongar a experiência, você deve permanecer até o fim da semana.
Meus olhos se arregalaram, como se eu tivesse levado um tapa.
— Como assim? O combinado era uma noite. Uma. Ele comprou minha virgindade, não a minha semana.
Ela folheou os papéis na pasta e retirou uma cópia do contrato que eu assinara quando pedi o adiantamento para o tratamento da minha mãe.
— Está aqui. Cláusula 8.1. “A contratada compromete-se a permanecer disponível por até sete dias corridos, conforme o desejo do contratante, sem prejuízo de honorários futuros.”
Ela levantou os olhos para mim.
— Você leu antes de assinar?
Engoli em seco. Meu estômago deu um nó.
— Eu… eu estava desesperada. Só queria salvar minha mãe. Eu não…
— Júlia...
Ela me interrompeu com a voz firme.
— Entenda uma coisa, você é um produto de luxo agora, e luxo não tem prazo fixo de validade. Você pode se surpreender ou se arrepender. Isso depende mais de você do que dele.
Eu respirei fundo, sentindo minha garganta fechar.
— Você pode pelo menos me dizer se ele é velho? Jovem? Alto? Baixo? Alguma coisa?
Ela fechou a pasta e cruzou as pernas, ainda sem sorrir.
— Não tenho essa informação. Mas uma assistente local estará esperando por você no aeroporto. Ela será seu ponto de apoio durante toda a estadia. Fala português e sabe todos os protocolos. Confie nela.
Depois disso, o carro seguiu em silêncio. A cidade ainda despertava do sono, mas eu sentia que estava deixando um pedaço meu para trás, algo que talvez jamais recuperasse.
No aeroporto, fui tratada como alguém importante. Nem parecia que era a minha primeira vez voando, e ainda por cima de primeira classe. Uma funcionária da companhia aérea já me esperava no balcão de check-in com um sorriso treinado e etiqueta de prioridade.
Na sala VIP, me serviram um cappuccino com chantilly e frutas frescas cortadas em formas geométricas, eu me senti num filme, só que o roteiro não era de romance. Era um suspense com final desconhecido.
Quando entrei no avião, fui guiada até uma poltrona tão larga quanto uma cama de solteiro. Um comissário colocou minha bagagem de mão no compartimento, me ofereceu suco, depois um menu de jantar com opções que incluíam caviar, filé mignon e sobremesas que pareciam saídas de uma vitrine de Paris.
Era tudo bonito, limpo, silencioso. Nenhum cheiro de cigarro, nenhuma música alta, nenhum homem bêbado gritando meu nome.
Era outro mundo.


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