Quarenta dias se passaram desde a conversa que eu e Julia tivemos, como uma mistura de paraíso e tortura.
Paraíso porque, pela primeira vez na vida, eu tinha exatamente tudo o que sempre procurei sem saber, uma casa com vida, uma mulher que eu amava e uma filha que transformava qualquer segundo ruim em algo suportável.
E tortura porque eu estava completamente enlouquecido por Júlia.
A cada dia mais, a cada sorriso, a cada vez que ela passava pela casa usando roupas confortáveis demais para um homem apaixonado manter a sanidade.
Eu estava vivendo uma espécie de punição divina.
Porque finalmente tinha a mulher que desejava, mas não podia tocá-la da forma que queria.
E Júlia parecia achar graça disso.
Talvez porque ela soubesse exatamente o efeito que causava em mim.
Os primeiros dias do puerpério foram difíceis.
Ela sentia dores.
Oscilações emocionais.
Cansaço extremo.
E eu aprendi rapidamente que cuidar de uma mulher recém-parida exigia mais delicadeza do que qualquer negociação diplomática que já fiz na vida.
Principalmente porque Júlia odiava parecer frágil.
— Eu consigo fazer sozinha.
Virou praticamente a frase favorita dela.
E a minha resposta também virou automática...
— Eu sei que consegue. Mas eu quero ajudar.
Eu via o olhar dela mudando aos poucos.
A confiança crescendo silenciosamente.
E aquilo me fazia querer mais.
Muito mais.
Os dias também foram preenchidos pelas minhas obrigações.
Mesmo no Brasil, eu continuava sendo um Sheik.
As reuniões passaram a acontecer virtualmente.
Vídeo chamadas intermináveis.
Assuntos políticos.
Empresas.
Acordos internacionais.
Homens me chamando de “Sua Alteza” enquanto eu balançava o carrinho com pé.
E aquilo era ridiculamente engraçado.
Uma vez, durante uma reunião importantíssima sobre investimentos, Aisha começou a chorar no meu colo.
Todos ficaram em silêncio esperando minha reação.
Eu apenas balancei ela nos braços enquanto dizia calmamente...
— Continuem.
Ninguém se atreveu a perguntar o óbvio.
Júlia apareceu na porta da sala exatamente nesse momento.
E começou a rir da minha cara.
Não uma risada discreta.
Ela gargalhou.
Na frente de ministros.
Na frente de empresários.
Na frente de pessoas que literalmente tremiam diante de mim.
— Você parece um pinguim desesperado balançando ela assim.
Falou entre risos.
Eu estreitei os olhos.
— Saia daqui antes que eu mande prender você.
Ela gargalhou ainda mais.
E Aisha começou a rir junto.
Os três rindo no meio da minha reunião diplomática.
Naquele instante…
Eu percebi que nunca mais conseguiria voltar para minha antiga vida.
Porque aquilo era felicidade.
Caótica.
Barulhenta.
Humana.
E completamente viciante.
As noites eram ainda piores.
Porque depois que Aisha dormia…
Ficávamos sozinhos.
E era impossível ignorar a tensão crescente entre nós.
Principalmente porque Júlia parecia cada dia mais bonita.
O corpo dela havia mudado levemente depois da gravidez.
E meu Deus…
Ela estava ainda mais perfeita.
Mais mulher.
Mais intensa.
Mais minha.
E ela sabia exatamente o que fazia comigo.
Sabia.
Porque começou a me provocar sem nenhuma vergonha.
Passava pela sala usando apenas uma camiseta larga.
Sentava no meu colo “sem querer”.
Me abraçava demoradamente.
Beijava meu pescoço enquanto eu trabalhava.
E depois fingia inocência.
Inocência.
Júlia definitivamente não era inocente.
Uma noite, eu estava terminando uma reunião no notebook quando senti ela sentar atrás de mim no sofá.
Os braços dela envolveram meu pescoço lentamente.
Os lábios tocaram minha nuca.
E meu corpo inteiro travou.

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