JÚLIA
*
Quarenta dias.
Foi esse o tempo que levou para minha vida virar completamente do avesso mais uma vez.
Mas, diferente de todas as outras mudanças que aconteceram comigo, aquela não veio acompanhada de dor, medo ou desespero.
Veio acompanhada de paz.
E talvez fosse exatamente isso que mais me assustava.
Porque depois de tudo o que Al Rashid me fez passar, depois da forma cruel como nossa história começou, eu jamais imaginei que um dia acordaria feliz ao lado dele.
Mas aconteceu.
Os primeiros dias após o nascimento da Aisha foram os mais difíceis fisicamente. Meu corpo doía, eu me sentia cansada o tempo inteiro, mal conseguia dormir direito e chorava por qualquer coisa.
Às vezes eu chorava porque a bebê dormia demais.
Às vezes porque ela chorava demais.
Às vezes porque minha mãe não estava ali para ver aquilo.
E em todas essas vezes… Al Rashid estava comigo.
Sem fugir.
Sem reclamar.
Sem agir como um homem poderoso que acreditava que certas funções não eram responsabilidade dele.
Pelo contrário.
Ele mergulhou na paternidade como se tivesse nascido para aquilo.
Eu ainda lembro da primeira madrugada em que acordei desesperada porque Aisha não parava de chorar.
Eu estava quase chorando junto, completamente perdida, cansada e insegura, a babá não conseguiu acalmá-la, nem eu.
Quando ele simplesmente levantou da cama, pegou nossa filha nos braços e começou a andar com ela pela casa.
Sem irritação, sem impaciência, sem mandar ninguém resolver.
Era ele.
O Sheik mais poderoso de Dubai… andando pela sala às quatro da manhã, despenteado, usando uma camisa amassada e tentando descobrir porque a filha estava chorando sem parar.
E quando finalmente descobrimos que ela só queria colo…
Ele sorriu.
Sorriu como se tivesse acabado de ganhar o maior prêmio do mundo.
— Ela gosta de dormir ouvindo meu coração.
Ele falou baixinho naquela madrugada.
E eu nunca mais consegui esquecer aquilo.
A convivência diária com Al Rashid começou a desmontar todas as imagens que eu havia criado dele.
O homem frio.
Manipulador.
Autoritário.
Ainda existia em alguns momentos, principalmente quando o assunto envolvia segurança.
Porque ele enlouquecia.
Absolutamente enlouquecia.
Uma vez um fotógrafo tentou nos seguir quando saímos do pediatra e eu achei que Al Rashid fosse deportar metade do Brasil de tanto ódio.
Outra vez ele praticamente surtou porque uma vizinha pediu para segurar Aisha no colo sem passar álcool nas mãos.
— As pessoas tocam em bebês assim normalmente?
Ele perguntou indignado.
E eu gargalhei tanto naquele dia.
Também existia o lado Sheik dele.
As reuniões.
As ligações internacionais.
Os homens engravatados entrando e saindo da minha casa.
Os seguranças espalhados discretamente pela rua.
Os telefonemas em árabe que eu não entendia absolutamente nada.
E mesmo assim… ele fazia parecer simples.
Al Rashid acordava cedo, resolvia metade de Dubai pelo celular, trocava a fralda da filha, participava de reunião por vídeo chamada e ainda arranjava tempo para me beijar no meio da cozinha enquanto eu tomava meu café da manhã.
Era absurdo.
E perigosamente encantador.
Com o passar dos dias, comecei a perceber pequenas coisas.
Ele sempre sabia quando eu estava triste antes mesmo de eu falar.
Sabia quando eu precisava dormir.
Quando precisava de silêncio.
Quando precisava rir.
E principalmente…
Sabia exatamente quando eu estava pensando demais.
— Você faz isso.
Ele falou uma noite enquanto eu dava de mamar para Aisha.
— Isso o quê?
— Fica quieta demais quando está sofrendo.
Aquilo me desmontou.
Porque ele tinha aprendido a me ler.
E talvez eu também tivesse aprendido a ler ele.
Aprendi que Al Rashid odiava dormir longe de mim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: UMA VIRGEM PARA O SHEIK