Escovei os dentes devagar, olhando meu próprio reflexo no espelho enquanto tentava entender em que momento minha vida havia mudado tão completamente.
Dias atrás, eu me sentia perdida.
Sozinha.
Destruída.
Agora…
Agora existia um homem dormindo na minha cama, uma filha no quarto ao lado e uma estranha sensação de paz começando a nascer dentro de mim.
Entrei no banho e deixei a água quente escorrer pelo meu corpo lentamente.
E foi, sem dúvidas, o melhor banho da minha vida.
Não pelo luxo dos produtos.
Não pela água quente.
Mas pela sensação.
Era como se a vida finalmente estivesse me dizendo...
“Agora você pode respirar… respira.”
Fechei os olhos sentindo a água cair pelos meus cabelos enquanto meu peito parecia aliviar um peso que carregava há meses.
Pela primeira vez desde a morte da minha mãe, pensei nela… e sorri.
Sorri porque, de algum jeito, eu sentia que ela gostaria de ver aquilo.
Gostaria de saber que eu não estava mais sozinha.
Que eu tinha Aisha.
Que eu tinha alguém cuidando de mim.
Uma lágrima escorreu, mas não era uma lágrima de dor.
Era saudade.
Saudade limpa.
Saudade boa.
Terminei o banho com calma, passei hidratante no corpo inteiro e coloquei uma roupa confortável.
Quando saí do banheiro, encontrei Al Rashid exatamente como havia deixado.
Dormindo profundamente.
E meu Deus…
Aquele homem era perigosamente bonito.
Os cabelos estavam bagunçados.
O rosto relaxado.
O lençol caído parcialmente pela cintura.
Respirei fundo imediatamente.
Não ajudava em nada o fato dele dormir daquele jeito.
Olhei para a cama.
Se eu deitasse ali, provavelmente iria acordá-lo.
Mas, ao mesmo tempo…
Talvez eu quisesse isso.
Porque nós precisávamos conversar.
De verdade.
Sem fugas.
Sem interrupções.
Sem dores entre nós.
Caminhei devagar até a cama e me deitei com o máximo de cuidado possível.
Decidi que deixaria ele dormir mais um pouco.
Mas no instante em que o colchão afundou levemente, ele se assustou.
Virou o rosto rapidamente na minha direção.
E então me viu.
Foi instantâneo.
A tensão no rosto dele desapareceu.
A respiração desacelerou.
Como se apenas me encontrar ali fosse suficiente para acalmá-lo.
E então ele sorriu.
Meu Deus.
Mais perigoso do que Al Rashid sem roupa…
Era Al Rashid sorrindo daquele jeito.
Com o cabelo bagunçado.
Com a voz rouca de sono.
Com os olhos ainda pesados.
Eu literalmente senti meu corpo inteiro amolecer.
— Que horas são?
Perguntou rouco.
Sorri de canto.
— Eu realmente não faço ideia. Mas acho que já está perto da hora do jantar.
Ele arregalou os olhos imediatamente e sentou rápido demais.
— Eu deixei você o dia inteiro sem comer.
Falou assustado.
— Me perdoa, Júlia.
Não consegui segurar a risada baixa.
— Não se preocupa com isso. A cozinheira que você resolveu contratar sem me avisar provavelmente já está preparando alguma coisa.
Ele passou a mão no rosto.
— Desculpe por isso também. Mas nós temos dinheiro pra pagar quantas ajudas forem necessárias e nesse momento nós...
— Tudo bem.
Interrompi antes que ele começasse um discurso inteiro.
— Você fez bem em fazer isso. Obrigada.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos me observando.
O olhar dele mudou lentamente.
Mais suave.
Mais intenso.
Mais… homem.
— Você está muito linda.
Falou baixo.
— E muito cheirosa.
Ele começou a se aproximar.
Meu coração disparou imediatamente.
Mas levantei a mão antes que ele encostasse em mim.
— Espera.
Ele parou.
— Precisamos conversar.

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