JÚLIA
*
Era difícil acreditar que minha vida havia mudado tão drasticamente em tão pouco tempo.
E não era sobre dinheiro.
Não era sobre luxo.
Muito menos sobre o fato de eu agora ter acesso a coisas que jamais imaginei ter.
A verdadeira mudança estava em outro lugar.
Minha filha tinha um pai.
E aquele pai era justamente o homem que, em algum momento da minha vida, eu achei que odiaria para sempre.
Aquilo parecia uma ironia cruel do destino.
Porque, desde o instante em que Al Rashid apareceu naquela sala de parto, tudo começou a mudar dentro de mim de uma forma perigosa.
Eu havia visto uma versão dele que parecia saída diretamente dos meus sonhos mais impossíveis.
Atencioso.
Presente.
Carinhoso.
Humano.
Mas ainda não havia passado nem um dia inteiro desde o nascimento da Aisha, e eu tinha medo.
Muito medo.
Porque já conhecia a outra versão dele.
A versão fria.
Manipuladora.
Controladora.
A versão que destruiu meu mundo quando me impediu de voltar para minha mãe.
E eu não sabia qual das duas era a verdadeira.
Ou pior…
Talvez as duas fossem.
Assim que chegamos em casa, fui direto para o quarto da minha filha.
O ambiente parecia ainda mais bonito agora com ela finalmente ali.
Sentei na poltrona enquanto segurava Aisha nos braços, e fiquei observando Al Rashid parado perto da porta, olhando tudo ao redor como se estivesse tentando entender cada detalhe daquele lugar.
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que comecei a me perguntar no que estava pensando.
Talvez imaginando como teria sido viver aquilo comigo desde o início.
Talvez se arrependendo.
Ou talvez apenas tentando encontrar um espaço naquela vida que já existia antes dele chegar.
Nós tínhamos muito o que conversar.
Muito mesmo.
Porque nada estava resolvido.
Eu precisava entender o que exatamente iria acontecer dali em diante.
Al Rashid era um Sheik.
Tinha um país inteiro esperando por ele do outro lado do oceano.
Responsabilidades.
Compromissos.
Pessoas dependendo dele.
E, ainda assim, ele estava ali.
No meu país.
Dentro da minha casa.
Entregue completamente ao papel de pai… e de um marido que ele ainda não era.
E talvez nunca fosse.
Porque eu não me via dividindo homem nenhum.
Nunca.
Muito menos um homem como Al Rashid.
A ideia dele simplesmente decidir ter outras esposas no futuro me causava um desconforto absurdo.
Eu não aceitaria isso.
Jamais.
E aquela conversa precisaria acontecer cedo ou tarde.
Tentei começar pelo assunto mais simples.
Ou pelo menos pelo único que eu ainda achava que tinha algum controle.
Onde ele dormiria.
Mas o descarado simplesmente afirmou que dormiria comigo como se estivesse falando a coisa mais normal do mundo.
Comigo.
Na minha cama.
Na minha casa.
Quase revirei os olhos de tanta audácia.
Mas a pior parte…
Era que, no fundo, eu queria aquilo.
Queria ele perto.
Queria sentir aquela sensação estranha de segurança que ele me causava quando estava ao meu lado.
Só que o medo ainda falava mais alto.
O medo de me apegar.
O medo de acreditar naquela nova versão dele.
O medo de, no fim, ele simplesmente ir embora e me deixar sozinha outra vez.
Porque eu não suportaria mais uma perda.
Depois que ele saiu do quarto, tentei ocupar minha mente.

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