JÚLIA
*
Eu achei que fosse morrer.
A dor era tão absurda que parecia impossível um corpo humano suportar aquilo sem se partir ao meio. Sempre fui muito magra, pequena, e a sensação que eu tinha era de que meu quadril estava sendo deslocado lentamente enquanto meu bebê tentava nascer.
Cada contração vinha como uma onda violenta esmagando tudo dentro de mim.
Eu mal conseguia respirar.
Olhei para os lados diversas vezes durante aquelas horas intermináveis de sofrimento.
Só havia a médica.
As enfermeiras.
Os equipamentos.
E uma fotógrafa da própria clínica registrando alguns momentos do parto, algo que haviam me perguntado meses antes se eu gostaria, e eu aceitei imaginando que talvez um dia minha filha gostasse de ver como veio ao mundo.
Mas naquele momento, nada parecia bonito.
Só existia dor.
Eu tinha passado horas sofrendo praticamente sozinha.
Sem minha mãe.
Sem alguém segurando minha mão.
Sem ouvir que tudo ficaria bem.
E talvez tenha sido exatamente por isso que, quando vi Al Rashid, meu coração simplesmente parou por um segundo.
Foi como se o desespero tivesse encontrado uma pausa.
Um descanso.
Uma saída.
Sabe quando algumas palavras conseguem destravar a alma inteira?
Foi exatamente o que aconteceu quando ouvi a voz dele.
— Estou aqui… está tudo bem, meu amor.
Meu amor.
Fechei os olhos imediatamente.
Porque, naquele instante, ele não parecia uma ameaça.
Não parecia o homem que me impediu de voltar para minha mãe.
Não parecia alguém que pudesse arrancar minha filha de mim.
Ele parecia paz.
Conforto.
Abrigo.
E eu precisava desesperadamente disso naquele momento.
A médica voltou a se aproximar rapidamente.
— É agora, Júlia. Só mais um pouco de força.
Eu já não sabia de onde tirar forças.
Meu corpo inteiro tremia.
Mas então senti a mão de Al Rashid apertando a minha.
Firme.
Presente.
E algo dentro de mim encontrou coragem outra vez.
Quando a próxima contração veio, eu fiz força.
Toda.
Absolutamente toda.
Gritei.
Um grito alto, cru, desesperado, como se estivesse arrancando minha própria alma junto com aquela dor.
E então…
O som mais lindo do mundo invadiu a sala.
O choro do meu bebê.
Meu corpo relaxou imediatamente enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto sem controle.
— Nasceu, Júlia… é uma linda menininha.
Comecei a chorar ainda mais.
E então senti os lábios de Al Rashid beijando minha testa.
Quando olhei para ele… meu coração apertou.
Ele também estava chorando.
Os olhos vermelhos.
A respiração descompassada.
Nunca imaginei ver aquele homem daquela forma.
Nunca.
A médica continuou os procedimentos enquanto a enfermeira posicionava nossa filha rapidamente sobre meu peito antes de cortar o cordão umbilical. Depois disso, a placenta ainda precisou ser retirada enquanto outra equipe avaliava os sinais da bebê.
Tudo aconteceu muito rápido.
Mas, para mim, o tempo parecia lento demais.
Porque eu não conseguia parar de olhar para ela.
Minha filha.
Nossa filha.
Ela tinha as bochechas mais rosadas que eu já vi.
Os olhinhos ainda fechados.
O rostinho pequeno.
Perfeito.
Levei os dedos até sua mãozinha minúscula e comecei a chorar outra vez.
— Oi, meu amor…
Minha voz saiu quebrada.
Quando ergui os olhos para Al Rashid novamente, ele me observava como se estivesse vendo um milagre.
E talvez estivesse mesmo.
— Como… como você soube?
Perguntei entre lágrimas.
Ele respirou fundo antes de responder.

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