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UMA VIRGEM PARA O SHEIK romance Capítulo 83

JÚLIA

*

Minha gravidez foi evoluindo como as primeiras gotas antes da tempestade.

Silenciosa, intensa e inevitável.

Não que fosse algo ruim. Muito pelo contrário. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha estabilidade financeira, conforto e a certeza de que meu bebê jamais passaria necessidade. O dinheiro que Al Rashid havia deixado era tão absurdo que às vezes parecia irreal.

Eu conseguia comprar tudo o que precisava sem olhar preço, fazer consultas nos melhores lugares, escolher o melhor enxoval, o melhor atendimento, a melhor estrutura.

Mas o maior problema nunca foi o dinheiro.

Era o emocional.

Porque toda vez que eu me lembrava do motivo de estar grávida, a felicidade vinha acompanhada de culpa, saudade e dor.

Minha médica deixou tudo muito claro desde o começo...

— Seu bebê sente você. O estresse, a tristeza, a ansiedade, tudo influencia.

Então eu comecei a me policiar.

Dia após dia, engolindo o choro, engolindo o luto, engolindo a solidão.

Eu evitava pensar demais. Evitava olhar fotos da minha mãe por muito tempo. Evitava imaginar o futuro. Evitava pensar que eu estava completamente sozinha no mundo.

Porque bastava eu pensar para desmoronar.

E eu tinha medo do meu bebê sentir tudo aquilo.

A primeira vez que ouvi o coração dele… ou dela… eu tive uma crise de choro tão forte que achei que fosse desmaiar.

O som ecoou pela sala inteira.

Rápido, pequenininho, vivo.

Meu bebê estava vivo dentro de mim.

E naquele instante, toda a dor que eu vinha segurando explodiu de uma vez.

Comecei a chorar desesperadamente na maca, sem conseguir controlar a respiração. A médica precisou segurar minhas mãos enquanto eu tentava puxar ar.

— Respira, Júlia. Respira devagar.

Ela falava com calma.

— Seu bebê está saudável. Está tudo bem. Isso é o mais importante agora.

Mas eu não conseguia parar.

Porque ouvir aquele coraçãozinho foi como perceber que minha mãe nunca conheceria meu filho.

Ou minha filha.

Ela nunca seguraria aquela criança no colo.

Nunca pisaria na minha casa.

Nunca me veria sendo mãe.

E aquilo destruiu alguma coisa dentro de mim.

Depois daquele dia, fui encaminhada para uma psicóloga especializada em gestação.

No começo, eu odiei a ideia.

Achava que conseguiria lidar sozinha.

Mas não consegui.

Os hormônios estavam acabando comigo.

Eu chorava vendo propaganda de televisão. Chorava fazendo comida. Chorava escolhendo roupa de bebê. Chorava quando o bebê mexia demais. Chorava quando mexia pouco.

Parecia que eu já não tinha mais controle sobre nada.

E a psicóloga me ajudou muito.

Muito mais do que imaginei.

Ela me ensinou que eu não precisava ser forte o tempo inteiro. Que sentir tristeza não me fazia uma mãe ruim. Que viver o luto também fazia parte do processo.

Então, aos poucos, eu fui melhorando.

No final da gestação, eu já estava muito mais estável emocionalmente. Ainda tinha dias ruins, claro. Mas agora eu conseguia respirar sem sentir que o mundo estava acabando a cada cinco minutos.

E meu bebê…

Meu bebê virou meu mundo inteiro.

Eu escolhi não descobrir o sexo.

Todos achavam estranho.

Mas, para mim, não importava.

Menino ou menina… aquela criança já era tudo o que eu tinha.

Tudo.

Na minha última consulta do pré-natal, a médica praticamente sorriu ao me ver entrando.

— Acho que você não passa da próxima semana grávida.

Passei a mão na barriga automaticamente.

Ela estava enorme.

Pesada.

Meu corpo inteiro já sentia o cansaço dos últimos dias.

A médica fez o ultrassom com calma, analisando tudo atentamente.

E, graças a Deus, estava tudo perfeito.

— Batimentos ótimos. Posição ótima. Peso ótimo. Agora é só esperar sua bolsa romper ou as contrações começarem.

Assenti, sentindo um misto de nervosismo e ansiedade.

Estava chegando.

Meu bebê realmente estava chegando.

Depois da consulta, fui até a recepção resolver a questão do parto. Eu havia deixado para pagar apenas no final porque queria ter certeza absoluta de que aquele era o lugar certo.

E era.

Eu me apaixonei pela clínica.

Pelas enfermeiras.

Pela atenção.

Pelo cuidado humano.

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