Peguei o celular com as mãos trêmulas, algo que raramente acontecia comigo.
Na maior parte da minha vida, eu fui treinado para reagir sob pressão. Crises políticas, ameaças econômicas, conflitos diplomáticos, nada nunca teve força suficiente para me desestabilizar de verdade.
Mas aquilo…
Aquilo era diferente.
Porque não envolvia poder.
Envolvia Júlia.
E, possivelmente, um filho meu.
Comecei a fazer ligações imediatamente. Uma atrás da outra. Contatos no Brasil, investigadores particulares, pessoas que me deviam favores antigos. Eu precisava de informações concretas, rápidas e silenciosas.
Eu não podia simplesmente largar tudo e atravessar o oceano movido apenas por esperança.
Precisava de certeza.
Precisava saber se aquele bebê realmente era meu.
Mas, no fundo, eu já sabia.
A conta fechava perfeitamente.
A única noite.
A única vez que Júlia se entregou a mim de verdade.
Fechei os olhos por alguns segundos, tentando controlar a avalanche de pensamentos.
Eu pensei que finalmente tivesse encontrado algum tipo de equilíbrio na minha vida. Não felicidade… equilíbrio. Uma rotina suportável. Dias menos sufocantes. Noites onde eu conseguia dormir sem pensar nela a cada segundo.
Mas bastou aquela notificação no cartão para tudo ruir outra vez.
Passei o dia inteiro olhando para o telefone.
Literalmente.
Documentos importantes foram deixados de lado. Reuniões foram canceladas. Pessoas entravam no escritório, falavam comigo, e eu sequer absorvia metade das palavras.
Minha mente estava em São Paulo.
Em Júlia.
Naquela barriga crescendo longe de mim.
Só pisquei durante o dia porque o corpo exigia. Porque até respirar parecia um esforço absurdo diante da ansiedade que me consumia.
E quando a noite finalmente chegou, o celular vibrou.
Arquivo recebido.
Meu coração disparou tão forte que senti dor no peito.
Abri imediatamente.
E o mundo parou.
— Eu não acredito…
Murmurei, encarando a tela.
— Não acredito que ela foi capaz de esconder isso de mim.
Lá estava Júlia.
Com uma barriga enorme.
Linda.
Absolutamente linda.
A gravidez parecia tê-la deixado ainda mais iluminada. O rosto mais delicado. Os traços mais suaves. Havia algo nela que parecia… vivo de um jeito diferente.
E aquilo me atingiu violentamente.
Senti raiva.
Uma raiva brutal.
Porque ela escondeu meu filho de mim por meses.
Mas, ao mesmo tempo…
Uma felicidade tão intensa me atravessou que precisei me sentar.
Era praticamente impossível aquele bebê ser de outro homem.
Era meu.
Meu filho.
Ou minha filha.
Passei os dedos pela tela lentamente, ampliando as fotos.
Júlia caminhando na rua.
Saindo de uma clínica.
Entrando em casa.
Segurando pequenas sacolas de bebê.
Meu peito apertou de um jeito estranho.
Ela estava construindo uma vida sem mim.
E talvez acreditasse que conseguiria manter isso para sempre escondido.
Quanto mais fotos eu via, mais sentimentos conflitantes surgiam dentro de mim.
Fascínio.
Orgulho.
Raiva.
Desejo.
Culpa.
Saudade.
Tudo misturado de forma quase insuportável.
Até chegar na última imagem, que na verdade era um vídeo.
Eu abri e então… algo dentro de mim desmoronou.
Júlia estava sentada próxima à janela da casa, com a mão apoiada na barriga e os olhos vermelhos.
Ela limpava lágrimas discretamente.
Engoli seco.
— Ela está chorando? Sim… ela está.
Passei a mão no rosto lentamente.
Droga.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo depois de me odiar.
Mesmo depois de fugir de mim…
Ela ainda parecia triste.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: UMA VIRGEM PARA O SHEIK