SHEIK
*
Exatamente tudo na minha vida estava fora do lugar.
Tudo.
Mas ninguém ousava dizer isso em voz alta.
Os ministros continuavam se curvando diante de mim. Os servos continuavam abaixando a cabeça quando eu passava. Os empresários sorriam em reuniões como se eu ainda fosse o mesmo homem de antes. Até mesmo meus aliados políticos fingiam que minhas decisões eram brilhantes, inquestionáveis e perfeitamente aceitáveis.
Porque eu era o Sheik.
E ser Sheik significava que ninguém poderia apontar meus erros sem correr o risco de perder a própria posição.
Mas, pela primeira vez na vida, ser Sheik estava me cansando.
Eu estava cansado do teatro.
Cansado da obediência automática.
Cansado de perceber que as pessoas ao meu redor não enxergavam um homem, apenas o poder que vinha junto dele.
E talvez o pior de tudo fosse admitir que Júlia enxergava.
Ela enxergava o homem por trás do título.
E odiou o que viu.
Devolver Laura para os pais foi uma das experiências mais desconfortáveis da minha vida.
Porque, no fundo, parecia exatamente aquilo que eu mais desprezava admitir, eu estava devolvendo uma mercadoria da qual não gostei.
O pensamento era cruel, frio e desumano, mas, verdadeiro.
O pai dela nos recebeu com rigidez absoluta. Nem sequer tentou esconder a irritação ao ouvir sobre a separação. E, ainda assim, em nenhum momento o olhar acusador dele veio para mim.
Foi todo para Laura.
Como se ela fosse a culpada absoluta pelo fracasso daquele casamento.
Como se o fato dela ter confrontado minhas decisões, falado da existência de Júlia ou ameaçado me denunciar fosse um absurdo maior do que tudo o que eu fiz.
E aquilo apenas confirmou uma verdade que eu sempre soube,
vivíamos em uma sociedade machista.
Uma sociedade construída para proteger homens como eu.
Eu tinha plena consciência disso.
E usei isso ao meu favor durante anos.
Laura tentou argumentar.
Tentou explicar que eu já estava emocionalmente envolvido com outra mulher antes mesmo do fim do casamento.
Mas o próprio pai a interrompeu.
— Você era esposa de um Sheik. Seu dever era preservar seu casamento.
A expressão dela naquele momento ficou gravada na minha mente.
Não porque eu a amasse.
Mas porque, pela primeira vez, percebi claramente que nós dois fomos vítimas de um sistema que nunca nos perguntou o que queríamos.
Saí da casa dos pais dela deixando Laura para trás.
Mas, diferente do que muitos imaginariam, ela não estava desamparada.
Muito pelo contrário.
Ela tinha dinheiro suficiente para viver confortavelmente pelo resto da vida. Poderia voltar ao Brasil. Poderia reconstruir a própria história. Poderia encontrar alguém que realmente amasse ou reviver o amor que nosso casamento arranjado interrompeu.
E, talvez pela primeira vez desde que nos casamos, ela finalmente tivesse uma chance de liberdade.
Quando voltei ao palácio, os olhares me acompanharam.
Curiosos.
Silenciosos.
Alguns… acusadores.
Os servos fingiam discrição, mas eu conseguia perceber.
A notícia já havia se espalhado.
O divórcio, a amante brasileira...Tudo.
Antigamente, eu teria parado todos ali e imposto respeito.
Teria lembrado quem mandava.
Mas eu estava cansado demais para isso.
Cansado demais para defender uma imagem que já não fazia sentido nem para mim.
Apenas deixei claro uma única coisa:
— Laura não faz mais parte desta casa. O nome dela está proibido aqui dentro.
Ninguém respondeu.
Todos apenas abaixaram a cabeça.
Segui para o quarto.
E, pela primeira vez, deitei naquela cama sem dividir o espaço com alguém que não queria estar ali.
O silêncio deveria parecer libertador.
Mas não pareceu.
Porque a ausência de Laura não pesava.
A de Júlia… sim.
Pesava em tudo.
Na ausência daquele olhar que me enfrentava sem medo.
Os dias começaram a passar como um castigo lento.
Automático.
Sem cor.
Eu recebia relatórios sobre Júlia no Brasil nos primeiros dias, meus homens a acompanhavam discretamente.
Garantiam alimentação, segurança, presença.
Eu queria que ela sentisse que não estava completamente sozinha, mesmo me odiando.
Mas, no fundo, eu sabia que aquilo também era uma forma egoísta de continuar perto dela.
Até que recebi a mensagem.
DDD do Brasil.
Meu coração disparou no mesmo instante.
Abri imediatamente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: UMA VIRGEM PARA O SHEIK