Os dias começaram a se misturar.
Eu acordava sem vontade, sem propósito, sem horário. Às vezes ainda era manhã, às vezes já era tarde, mas pouco importava. O tempo deixou de ter significado. Tudo o que eu fazia era… existir.
Comer quando lembrava, dormir quando o cansaço vencia, chorar quando a dor apertava.
E, na maior parte do tempo, apenas ficar parada, olhando para algum ponto fixo como se aquilo pudesse, de alguma forma, preencher o vazio que minha mãe deixou.
Três semanas.
Três semanas vivendo assim.
Vegetando.
Sem energia para lutar, sem força para reagir, sem ninguém.
E, aos poucos, a realidade começou a cobrar.
Abri o armário da cozinha e fiquei encarando o que restava.
Um pacote de arroz, e na geladeira, uma bandeja de frango.
Mais nada, nem frutas, nem legumes, nem qualquer sinal de planejamento.
Era o fim do que ainda restava da minha antiga vida.
Suspirei fundo.
— Tá…
Murmurei para mim mesma.
— Chega.
Eu precisava voltar, não queria, mas precisava.
Preparei o arroz.
Temperei o frango.
Fiz tudo no automático, como vinha fazendo com tudo ultimamente.
Sem pensar, sem sentir, apenas seguindo movimentos conhecidos.
Comi, sem prazer, sem fome.
Só porque sabia que precisava.
Depois, fiquei parada por alguns segundos, olhando ao redor.
A casa estava um caos.
Roupas espalhadas.
Louça acumulada.
Objetos fora do lugar.
Era como se o estado da casa fosse um reflexo exato de como eu estava por dentro.
Desorganizada, abandonada, cansada.
— Eu preciso arrumar isso…
Falei baixo.
E comecei, devagar e sem pressa.
Pegando uma coisa aqui, outra ali.
Guardando e organizando.
Tentando, de alguma forma, colocar ordem em pelo menos uma parte da minha vida.
Foi então que eu vi.
O envelope.
Parado ali, no meio das coisas.
Intacto.
Como se estivesse esperando por mim.
Como se soubesse que eu estava adiando aquele momento.
Meu coração apertou.
Eu sabia exatamente o que era.
E sabia exatamente por que não tinha aberto até agora.
Sentei na cama.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos.
Respirei fundo.
E abri.
Minhas mãos tremiam.
Não de medo.
Mas de… tudo.
Comecei a ler.
Cada palavra, cada linha, cada sentimento.
E, conforme eu avançava…
As lágrimas começaram a cair.
Silenciosas no começo.
Depois mais intensas.
Mais pesadas.
Mais inevitáveis.
Eu não queria odiar Al Rashid.
Não queria.
Mas também não conseguia perdoar.
Não depois de tudo.
Não depois do que ele me tirou.
Mas aquela carta…
Aquilo não era o homem que eu conheci no início.
Não era o homem frio.
Controlador.
Impositivo.
Era alguém quebrado.
Alguém arrependido.
Alguém… humano.
E isso doeu.
Porque tornava tudo ainda mais confuso.
Mais difícil e mais real.
Quando terminei de ler, levei a mão ao rosto, tentando conter o choro.
— Por que você tinha que ser assim… só depois?
Sussurrei.
Mas não havia resposta.
Nunca haveria.
Foi então que a parte do dinheiro se destacou na minha mente.
Levantei rapidamente.
Fui até a porta.
Abri a caixa de correio.
E lá estava.
Contas atrasadas, muitas.
Empilhadas e ignoradas.
E, no meio delas…
O envelope do banco.
Peguei.
Voltei para dentro.
Abri.
Minhas mãos estavam mais firmes agora.
Mais curiosas do que hesitantes.
Segui as instruções.
Baixei o aplicativo.
Digitei os dados.
Acessei.
E então…
Eu vi.
Meu coração parou.
Literalmente.
— Meu Deus…
O valor.
Era absurdo.

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